21/10/2002 10h10 – Atualizado em 21/10/2002 10h10
BUENOS AIRES – A Venezuela será cenário hoje da terceira greve geral contra o governo do presidente Hugo Chávez, que há três anos e meio ocupa o poder. Em clima de tensão, trabalhadores, sindicalistas, empresários e políticos pedirão, mais uma vez, a antecipação das eleições, com data marcada para dezembro de 2006.
Alheio a escalada de pressoes de seus opositores, o presidente disse ontem que a paralisação, convocada pela Central de Trabalhadores da Venezuela (CTV), sera um fracasso e assegurou que no fim de semana passado foi abortado um plano para assassiná-lo.
- Se for necessário, faremos uma greve por semana. Nada vai nos deter, porque nosso objetivo é que Chávez abandone o poder. Temos muitas razões para protestar. O país nunca esteve numa situação tão precária. Nos últimos três anos o numero de pobres aumentou em 2,5 milhões de pessoas, o desemprego já chega a quase 20%, e, como conseqüência da desvalorização, o salário dos trabalhadores vale cada vez menos – disse ao GLOBO o secretário-geral da CTV, Manuel Cova, por telefone, de Caracas.
Segundo Cova, mais de 70% dos venezuelanos apóiam a saía antecipada do presidente.
- Chávez mente quando diz que conta com o respaldo dos setores de menores recursos. Sua popularidade não chega a 30%, e a pobreza alcança 80%. O presidente destruiu as principais conquistas dos trabalhadores. Hoje quase 70% das pequenas e médias empresas quebraram e a metade das grandes empresas está à beira da falência – enfatizou Cova, que considerou Chávez um presidente autoritário, incapaz e corrupto.
A greve foi defendida pela grande maioria dos partidos políticos, ONGs e associações empresariais. Ontem, os movimentos de oposição organizaram caravanas em várias cidades do país, para defender a adesão à paralisação. Segundo estimativas dos sindicatos, cerca de 80% dos trabalhadores participarão do protesto.
- Vamos nos manifestar de forma pacífica, como sempre fazemos. Não apoiamos a violência, e queremos que Chávez saia do governo de forma ordenada. Queremos que o povo tenha a chance de eleger um novo governante – afirmou o líder da CTV.
Ao retornar de uma viagem a Europa, o presidente disse que hoje será um dia de trabalho na Venezuela, e tentou dar pouca importância ao possível sucesso da medida de força.
- A greve está sendo convocada por um grupo de desesperados, que contam com o apoio dos meios de comunicação. Não há país no mundo em que a imprensa seja tão independente – afirmou Chávez, que garantiu a seus seguidores que estava sendo orquestrado um plano para matá-lo.
Em seu programa de TV, document.write Chr(39)Alô presidentedocument.write Chr(39), Chávez assegurou que o servico de inteligência do Estado obteve provas de um plano de atentado. De acordo com o presidente, graças a informações recebidas antes de sua volta a Caracas, o plano fracassou.
O ministro do Interior, Dios Cabello, recomendou que o avião do presidente não aterrisasse no aeroporto internacional de Maiquetia, e sim na Base Aérea Libertador. Segundo Chávez, um grupo de franco-atiradores estava pronto para atacá-lo na região de Catia La Mar, perto do aeroporto.
- Tenho certeza de que amanhã (hoje) dirão que estou mentindo, mas é verdade. Abortamos um magnicídio. Nao sejam malucos! O que estaria acontecendo agora se tivessem me matado? Ou vocês acham que o povo teria ficado tranqüilo? Pensem nisso – disse o presidente.
Chávez criticou a atitude dos sindicatos e empresários.
- A CTV não representa os verdadeiros trabalhadores venezuelanos, assim como a Fedecamaras (principal organização empresarial do país) não representa os empresários – disse Chávez.
Para Cova, o presidente perdeu qualquer legitimidade e não pode continuar fingindo que nada está acontecendo.
- Chávez diz que governa para os pobres e que a oposição está representada pelos setores que foram prejudicados por seu governo. O que ele não percebe e que todo o país foi prejudicado. Todos empobrecemos, e todos estamos muito pior do que estávamos há três anos. Vamos continuar lutando, e temos certeza de que o povo vai encontrar um novo líder – afirmou o secretário geral da CTV.
Chávez garantiu ontem que os trabalhadores do setor petrolífero e de todos os organismos do Estado não participarão da greve. No entanto, os organizadores da paralisação confiam em conseguir uma adesão expressiva que obrigue o governo a negociar uma saída pacífica que evite novos incidentes violentos no país. Em abril passado, 17 pessoas morreram na marcha que antecedeu o golpe.
- Vamos atuar sem violência, como sempre – afirmou Cova. – Se alguém morrer, a responsabilidade será do governo.
Para o líder da CTV, Chávez está usando o Estado para financiar seu movimento. Segundo ele, pouca gente participou espontaneamente, há uma semana, de uma marcha em defesa do presidente.
- Muitos manifestantes receberam dinheiro do governo. Sabemos que um setor minoritário ainda está do lado de Chávez – acusou.
Fonte: Jornal O Globo






