19/10/2005 11h12 – Atualizado em 19/10/2005 11h12
Embrapa Pantanal
CONTRIBUIÇÕES DA EDUCAÇÃO AMBIENTAL SOBRE A CIÊNCIA MODERNA E O PAPEL DO CIENTISTA NESTE CONTEXTOPor: Cristhiane AmâncioA ciência tradicional, baseada nos moldes cartesianos, tem encontrado no discurso da educação ambiental, seu ponto de ruptura paradigmática. Para os educadores ambientais, o cientista de hoje deve possuir uma postura ética no sentido real da palavra. O dicionário Aurélio define ética como: “estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”. Portanto, a ética envolve uma reflexão do papel do cientista como intelectual na sociedade, questionando o sentido da produção ou não de uma determinada tecnologia ou saber científico. Para isso, no centro desta reflexão, deveria estar o homem como ser que também faz parte da natureza, bem como suas relações passadas, atuais e futuras com o ambiente que o cerca. De acordo com a equipe da Embrapa Pantanal “a concepção de ambiente aqui empregada envolve fatores sociais, ecológicos, econômicos e culturais”.Ao discutir ética, devemos lembrar que este não é um campo de conhecimento restrito à elite intelectual e, sim, uma forma norteadora da conduta das pessoas em seu dia-a-dia. Então, a discussão sobre a postura ética de um cientista deve considerar o cotidiano das pessoas e não traçar perfis éticos somente para a elite científica acadêmica que compõe o seu universo profissional, isto porque, o que é considerado ético por determinados cientistas de uma área do conhecimento, pode não ser considerado ético por outra área, o que demonstra e afirma a fragmentação do conhecimento científico e o seu olhar unidimensional disciplinar.Não podemos deixar de lembrar que o cientista, seja ele de qual área for, também é um ser social, dotado de interesses, sentimentos e com seus valores morais pré-concebidos. É nesta afirmativa que a educação ambiental pode tentar alcançar seus objetivos. Ao entender o cientista como um ser social tal qual qualquer outro, sem dividir em degraus a hierarquia do saber, fica mais fácil atuar. O cientista, entendendo o papel que ele tem na sociedade como mais um membro e, com uma importância diferenciada, talvez entenda que esteja nas mãos desta “elite científica” o rumo para a mudança mundial. Tanto o cientista quanto a sociedade civil leiga poderá passar a compreender que a natureza não diferenciará em degraus hierárquicos quem sofrerá as possíveis conseqüências da degradação ambiental. Assim, talvez, ele passe a repensar seu posicionamento como pesquisador científico e ser social de forma integrada e sistêmica.O cientista tem compromisso com a sociedade e, por isso, tem o dever de prestar contas do seu trabalho. A sociedade é quem financia, motiva e é uma das bases para o desenvolvimento de um projeto de pesquisa científica. A sociedade é quem vai decidir se adotará ou não a tecnologia, ou seu produto final, seja qual for, gerado pelo pesquisador. Porém, como fazer, então, que a “massa” tenha o conhecimento necessário para discernir, avaliar e julgar as questões que envolvem a ciência, bem como o seu elo com as questões ambientais?Alguns pesquisadores da filosofia discutem o papel do cientista, seja ele de que área for, perante a sociedade. Estes dão ênfase não em um conceito de desenvolvimento sustentável e sim de sociedades sustentáveis onde os indivíduos, de posse de informações válidas norteariam as escolhas da instituição mercado. É a sociedade o ponto de partida, o sistema de mercado só muda quando as pessoas mudarem e tiverem acesso a informações claras e diretas. Aí está o papel do cientista. No papel de informar o público, criar uma opinião pública capaz de trazer a sociedade subsídios para escolha. Só há escolha quando há mais de uma opção. O seu conhecimento científico deveria ser compartilhado preferencialmente com o público, pois será ele quem irá receber mesmo que de maneira passiva, os frutos destes trabalhos. Não serão apenas artigos científicos que se mantêm herméticos em uma elite de minorias “esclarecidas”.Sob o olhar da educação ambiental não há mais espaço para uma ciência fragmentada e neutra porque quem faz a ciência são seres que não são neutros e não vivem isolados de uma interação social. Então, não há mais o porquê de se entender a ciência sob este olhar fragmentado. Os cientistas deveriam pesquisar para que as demais pessoas vivam em harmonia com o seu ambiente e esta concepção de ambiente deve ser remodelada também para estas pessoas da ciência. Como já foi descrito anteriormente, o ambiente não está restrito apenas a valores ecológicos, ele é mais! Cristhiane Amâncio ([email protected]) é pesquisadora da Embrapa Pantanal, mestre em educação ambiental e doutoranda em ciências sociais com ênfase em desenvolvimento rural pelo CPDA/UFRRJ.



