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sábado, 21 de março de 2026

ARTIGO:Informática na escola: para quê?

08/06/2006 17h22 – Atualizado em 08/06/2006 17h22

Trevisan

Helena TrevisanNão sei quanto a você que me lê, mas essa era da comunicação imediata (internet) e de bolso (telefone celular) na qual alguns circulam sem embaraços, saltitantes e felizes, é ainda para mim fator de espanto e de certo estresse vez ou outra. Dia desses, por exemplo, não apenas pude ouvir um CD com enorme deleite e conforto diretamente do meu computador, como caiu meu queixo quando na tela apareceram o título e a duração da música e o nome de quem a cantava!!! Se lhe pareço um alienígena, não se constranja, pareço mesmo.O certo é que quando vejo nosso caçula Victor, de 12 anos, manejar teclado e tela, hardwares e softwares, como se fossem utensílios dos mais triviais, me pergunto por que ando noites a fio em reuniões da escola, discutindo como levantar verba para montar um laboratório de informática.A bem da verdade, trata-se da Escola Waldorf São Paulo, onde aulas de informática acontecem a partir apenas do 9° ano, ou 8ª série. É razoável se perguntar: para quê aulas de informática, se eles sabem tudo sobre o assunto? Lembro-me bem que, ao visitar uma creche para seu primeiro filho, nossa filha e genro levaram dois choques quando foram apresentados ao currículo (primeiro choque) que constava de aulas de inglês e de informática (segundo e definitivo choque) para os bebês. Ainda bem que não estou sozinha no quesito queixo caído. É até aceitável que nos dias atuais um soldadinho de chumbo pareça ser um brinquedo fora de moda, mas não me consta que seus únicos substitutos sejam os videogames e computadores, ainda mais em se tratando de bebês. Onde estão os chocalhos, bonecos de pano, cavalinho de madeira, blocos lógicos?Diante disso, dou graças pelo fato de as escolas Waldorf, que se propõem a prolongar ao máximo a infância, estarem se expandido cada vez mais pelo mundo. Já são mais de 800, nos mais diferentes países. Nos dias de hoje em que as famílias são pequenas e os espaços para as crianças brincarem menores ainda, é um alívio contar com essa possibilidade. Falo por mim, é claro, já que não estou convencida de que é um bom negócio para a garotada antecipar o ensino intelectualizado, tal como a alfabetização precoce. Ao contrário. Penso que o mais indicado, como tudo na vida, é obedecer ao momento oportuno, nem antes, quando o fruto ainda está verde, nem depois quando ele já despencou de maduro.Mesmo assim, fui a fundo na questão do laboratório de informática. Para que, afinal, ocupar esses jovens com atividades dessa natureza, quando na verdade são eles que nos ensinam?A explicação nos remete a um dos princípios básicos da pedagogia Waldorf: tudo o que o homem cria deve ter uma utilidade para si e para a humanidade. E o que se cria é fruto naturalmente do conhecimento que se adquire ao longo da vida.O currículo da escola Waldorf não pretende propriamente ensinar a usar computadores, mas levar o aluno a entender sua utilidade. Para isso, é preciso saber como ele funciona, dissecar o aparelho, desmontá-lo e montá-lo novamente, desvendar os mistérios dos programas e softwares. Daí o nome: laboratório.Bem, agora que peguei o espírito da coisa, algo me diz que terei ainda muitas noites de reuniões na escola. Pois que seja! Helena Trevisan é redatora, formada em psicologia e autora do livro “Filhos felizes na escola – pedagogia Waldorf, o ensino pela arte” (Trevisan Editora Universitária, São Paulo, 2006, 192 páginas, R$ 32,00).

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