13/07/2006 07h48 – Atualizado em 13/07/2006 07h48
*Raimundo Correia
‘O hino nacional brasileiro é um dos grandes legados do Brasil para a felicidade humana”. Foi mais além o The Guardian, jornal britânico, estrela de primeira grandeza na mídia européia, que ainda cotejou o nosso hino com a Marselhesa francesa. A matéria foi mais pródiga, chegando ao requinte de aventar aos ingleses que acordassem mais cedo para escutar o hino brasileiro que, evidentemente, seria executado antes da partida entre Brasil e Inglaterra que iria decidir a vaga nas semifinais da Copa daquele ano, e seria de bom grado prestar atenção no “mais bonito hino nacional dentre as oito seleções das quartas-de-final”.
Foi uma ducha de água fria nas pretensões soberbas dos intelectuais belzebunianos. A nossa tradição tacanha sempre se mostrou infensa aos nossos valores mais sublimes, agindo no contra-senso do princípio do ” Utti Possidetis”.
Somos possuidores do melhor e mais bonito hino. A declaração do jornal londrino e anterior a esta data corria como fogo no monturo a idéia de que nosso hino era uma obra sem préstimos.
Um desconhecido professor auxiliar de música de uma escola de música do estado de Minas gerais proclama que ” a letra de Joaquim Osório Duque Estrada ‘não bate com a música’ e que, ‘oficialmente, o Hino Nacional só existe na versão instrumental destinada a bandas’. Entre outras considerações, assevera que ‘a orquestração para canto, executada no país inteiro, nunca foi reconhecida pelo governo’ “.
Um deputado federal, Aldir Cabral (PFL-RJ), dando força à falsa crença popular da desnecessidade da sua casa legislativa propõe um projeto de lei para cambiar o trecho “ó pátria amada, idolatrada” por “ó pátria amada, abençoada” e “terra adorada” por “terra sagrada” . Motor motívico: os termos não coadunam com a sua religião.
Numa extrusão vulcânica dos neurônios do nosso Vice- Presidente, José de Alencar, ele oferece subsídios à bestidade ao alvitrar a alteração do Hino Nacional, substituindo o excerto “deitado eternamente em berço esplêndido” por “desperto e vigilante em solo esplêndido”. Motor motívico: o nosso hino não simboliza a “pujança” do povo brasileiro. Claudicou no peso e na medida o nosso Vice-Presidente ao arremedar a macambúzia figura do general Augusto Pinochet que intentou permutar a letra do hino chileno para banir possíveis alusões ao regime militar despótico que ele liderava.
O universo não teve somente estrelas belzebunianas. Dentre as vozes lúcidas selecionei o professor de português Adalberto Kaspary: “o hino é poesia. É poesia parnasiana, coisa elitizada à época. Não se pode mexer em um tijolo sem mexer no resto “.
O motor motívico para imperar o ” Utti Possidetis” foi determinado pelo The Guardian. O Utti Possidetis era o principio esteado pela França na defesa dos seus interesses. Na era colonial, a vanguarda da descoberta do Novo Mundo era primacia dos ibéricos e os conterrâneos do Victor Hugo defendiam que o local “descoberto” não era propriedade de nenhum país uma vez que não havia ocupação de fato. Ainda persistimos em atender aos reclamos deste desusado preceito do início da nossa era colonial.
As controvérsias se esmaeceram com a inopinada descoberta do periódico anglo-saxão nesta era cibernética: “O Hino brasileiro é uma composição erudita com andamento popular. Música e letra belíssimas, de Francisco Manuel da Silva e Osório Duque Estrada. O ‘brazilian national anthem’ é talvez a única letra de hino, entre as Nações, que não fala de guerra, nem de conquistas contra inimigos. Enquanto a Marselhesa faz belicosos apelos às armas, o ‘brazilian national anthem’ estimula os sentimentos nacionais, apelando para o ‘formoso céu risonho e límpido’ do Brasil, seu ‘som do mar’ e as flores dos seus ‘risonhos campos'” .
Assim falou um oráculo divino esvanecendo os arroubos dos pretensos janotas de fraque: os intelectuais de plantão que pululam na vastidão do nosso território. Doravante nihil obstat ao ‘brazilian national anthem’. Credo qui absurdum.



