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sexta-feira, 20 de março de 2026

Artigo – Ramez Tebet – Os bons não morrem

22/11/2006 13h51 – Atualizado em 22/11/2006 13h51

Agaciel da Silva Maia – Economista, é Diretor-Geral do Senado Federal.

Ramez Tebet teve uma trajetória pública linear e sempre se pautou por sua famosa assertiva de que “o Congresso Nacional não é Casa de radicalismo, de intolerância – o Congresso Nacional é a Casa da construção, dos grandes debates, do entendimento.” É por isso que podemos afirmar, sem qualquer sombra de dúvida, que estão de luto todos aqueles que amam o Brasil e têm envidado esforços para a construção de um estado democrático de direito em nosso País e lutam por uma sociedade mais justa e fraterna, livre do flagelo das tremendas desigualdades sociais. Partiu Ramez Tebet. E, mesmo em sua partida, fica, de forma indelével, a marca de um parlamentar admirável, de um líder autêntico, de um tribuno eloqüente e de um ser humano que, até seu último alento de vida, ofereceu sobejas lições de coragem, mesmo que tivesse de enfrentar  como enfrentou , um câncer, em luta sem tréguas, em seus últimos vinte anos de existência. A humildade e o senso de retidão pautaram sua longa trajetória parlamentar. Para ele, não existiam inimigos ou adversários políticos. Existiam apenas pessoas que buscavam desesperadamente dar o melhor de si para o engrandecimento da Nação brasileira. Para tanto, era no campo próprio do debate e do diálogo que ele sabia cavar trincheiras. E nessas trincheiras sempre tremularam as bandeiras da liberdade e do respeito ao contraditório; da paz e da justiça social. Em uma época tão marcada pelas lutas políticas, convivendo em uma Casa que, desde há muito, vem vocalizando os mais lídimos anseios do povo brasileiro, foi no Senado Federal que ele colocou à disposição seus muitos talentos, o brilho de sua inteligência e sua voz em defesa das populações mais vulneráveis, sejam estas do seu estado natal, o Mato Grosso do Sul, sejam do interior amazonense ou dos sertões norte-rio-grandenses. Tudo o que dizia respeito ao Brasil dizia respeito a ele. Omissão não era do seu feitio. Sabia travar o bom combate como ninguém, sempre que um direito se encontrava ameaçado e que uma lei ao invés de incluir, promovesse a exclusão. Tebet foi um protótipo da inclusão social, do acesso às modernas tecnologias por parte das populações carentes e também um defensor da tese segundo a qual somente através do conhecimento da educação, ensejaremos o redesenhar de um novo Brasil. Na política, desempenhou inúmeras funções e cargos públicos. Destacamos os de Prefeito de Três Lagoas, sua cidade natal, Deputado Estadual, Secretário de Estado, Vice-Governador e Governador do Estado do Mato Grosso do Sul. Foi, também, Ministro de Estado e Senador da República para cumprir dois mandatos (1995-2003 e 2004 a 2006), sendo que, para o segundo mandato, o qual não chegou a concluir, foi reeleito como o Senador mais votado na história do Mato Grosso do Sul. Em seu primeiro mandato como Senador, foi eleito Presidente da Casa para o biênio 2001/2003. Consta da sua profícua gestão a criação da Universidade do Legislativo Brasileiro, a Unilegis, através da Resolução do Senado Federal nº 01, de 2001, fato este que fez a nossa Câmara Alta ser o primeiro Senado do mundo a criar uma universidade, com cursos presenciais e a distância, nos mesmos moldes de grandes organizações internacionais que criaram suas universidades corporativas. Era conhecido por seus pares como o “senador relator”. Para termos uma idéia, em menos de oito anos de mandato, Ramez Tebet relatou nada menos que trezentas matérias sobre os mais diversos temas. Isso significa que, no Parlamento, ele leu, analisou, pesquisou, solicitou auxílio de especialistas, conversou com outros parlamentares e elaborou bem fundamentados pareceres sobre temas que afetavam a vida das pessoas – um trabalho árduo que lhe garantiu não apenas o respeito, mas também a admiração dos seus colegas senadores. Ainda por muito tempo sentiremos sua presença firme, seja nas muitas Comissões do Senado, nas quais atuou, personificando sua frase: “Vi e aprendi que uma disputa não se ganha elevando-se o tom, mais ou menos como o som de um berrante, mas com a força dos argumentos.” Ramez Tebet nascido a 7/11/1936 e falecido no último dia 17/11/2006, nos faz recordar a sábia lição de Guimarães Rosa, o grande ficcionista das Minas Gerais: “as pessoas boas não morrem… ficam encantadas.” Encantado está Ramez Tebet, porque foi um homem bom, na melhor acepção da palavra.

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