19/12/2006 13h48 – Atualizado em 19/12/2006 13h48
*Eldes Ferreira
Deveria ser proibido, mas não tem jeito: todo casal tem uma música especial. Claro que você não sabe disso. Só saberá quando, por iniciativa própria ou enxotada por você, ela for embora e revelar, “sabe a música…? É nossa! Toda vez que ouvi-la, vou lembrar de nós…” Ninguém deveria ser tão baixo assim. Porém, para sorte geral de quem fica, a tal música sempre é muito ruim e melosa. Normalmente é o tema de algum filme, novela ou comercial (de margarina, de banco ou de qualquer coisa parecida). Portanto, depois que o filme sair de cartaz, a novela acabar e o comercial for trocado por outro, suas chances de ouvir a música “de vocês” são bem pequenas. E músicas desse tipo nunca tocam em bares, festas e lugares decentes e, se tocam, é hora de procurar outro bar, uma festa melhor e um lugar menos decaído. Você também pode puxar um coro de vaias e conseguir, na mais democrática pressão, que coloquem outra música. Uma que faça as pessoas rirem, gritarem, xavecarem, tirarem a roupa… Mas que não seja você ou um de seus amigos! Deixem isso para quem estiver mais bêbado, desesperado e em melhor forma. Pode acontecer também que a música escolhida seja justamente a sua preferida. Aquela que resmunga o refrão o tempo todo, que tem o CD originalíssimo e até sabe quando e porquê foi escrita. Nestes casos, o golpe é ainda mais baixo. Reclamar, xingar ou negociar outra música nunca funciona. O estrago já está feito. E bem feito! Mas também não é justo que deixe de ouvir sua música preferida só porque uma pessoa-sem-mais-nenhuma-importância-na-sua-vida resolveu escolhê-la para ser vingar de você. Mas o que fazer, então? Você só tem uma chance: escolher a música antes dela. E quem escolhe primeiro, anula a escolha do outro. Fácil, não é? Não se preocupe, até você consegue escolher uma música qualquer. Pode ser o mais novo e irritante sucesso da rádio ou ainda uma padrão para todos seus relacionamentos. Sabe, algo com um sucesso eterno? Isso mesmo, uma velharia qualquer que vive em promoção nas lojas. Nem precisa dizer que ela não vai engolir essa escolha de jeito nenhum. Por vários motivos. Todos porque não foi ela quem escolheu. Se tiver sorte, ela vai ficar ainda mais furiosa e nunca mais vai lhe procurar nem por ordem médica. Melhor impossível! Você salva suas músicas do coração, irrita sua ex com qualidade e ainda posa de grande sensível. A única contra-indicação deste método quase perfeito é que você realmente acredite que a música escolhida tenha alguma importância, que aquele refrão choroso fale mais de vocês do que admitem e que o amor só existe quando não existe mais. Talvez até acredite no absurdo que foram felizes sem saber. E, quando este tipo de coisa acontece, não tem jeito. A música estúpida que escolheu passará a tocar em sua cabeça sem parar e, quando ouvi-la em algum bar ou numa festa muito ruim, vai chorar, beber e tentar tirar a roupa. E, este for seu caso, pelo menos faça alguns abdominais para não fazer tão feio se ninguém lhe impedir de tirar a camisa.
- Mestre em Letras pela UFMS, Eldes Ferreira é professor universitário e escritor. Entre seus trabalhos publicados, o mais recente é o conto “Save me!” em “Sex’n’bossa – Antologia di narrativa erotica brasiliana” (2005), editado na Itália pela Mondadori. E-mail : [email protected]



