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sexta-feira, 20 de março de 2026

Eu também quero uma geladeira nova.

25/03/2007 15h50 – Atualizado em 25/03/2007 15h50

Há duas semanas, li num jornal da capital paulista que a Elektro iniciou uma campanha promovendo a troca de 200 geladeiras antigas por geladeiras novas. A ação iniciou junto aos moradores da comunidade Maré Mansa, do município de Guarujá e será estendida a outros municípios prometendo trocar duas mil geladeiras velhas por novas. Aprofundo a leitura para o gesto fraterno da concessionária. Segundo ela, a troca busca reduzir o consumo e demanda de energia. As geladeiras antigas que consumem de 100 a 140 kWh por mês são trocadas por novas com selo “A” do PROCEL, com capacidade de 261 litros e consumo mensal de 23 kWh. Segundo a notícia, o Programa de Eficientização Energética da Elektro prevê uma economia de 77% no consumo, o que representa cerca de 1 milhão e 300 mil reais no bolso dos usuários. Pois foi com esse espírito de solidariedade que compareci na Audiência Pública promovida pela Assembléia Legislativa do Estado de Mato Grosso do Sul, no dia 22 último, no município de Brasilândia, e que foi presidida pelo valente e nobre Deputado Akira Otsubo. Lá estiveram diversas autoridades políticas do Estado, lideranças comunitárias e munícipes, todos interessados em ouvir do Gerente Executivo da Elektro, Carlos Henrique Camargo Lopes, sobre a tal “deficiência no abastecimento”, motivo da tão esperada audiência pública. E foi assim, motivado, que comecei a ouvir o pronunciamento dos representantes da Mesa. Um a um, os discursos foram se alinhando. Governo e empresários, todos buscando ser parceiros. Grifaram essa palavra mágica PARCERIA umas dez vezes. “O Estado quer ser parceiro”, dizia o Deputado Akira. “O município quer ser parceiro”, dizia o Prefeito de Brasilândia, Dr. Antonio. “Os empresários precisam de parceria”, diziam os investidores buscando apoio para seus negócios. “Precisamos de tarifas mais baixas”, gritavam baixinho, destoantes, vereadores, lideranças populares e usuários, portando contas de luz em punho, questionando valores exorbitantes cobrados na Debrasa, no Reassentamento, etc. Enfim, esse era o clamor geral. Governo, secretários, técnicos e comunidade, todos carregando na tinta o tom conciliador do discurso para mostrar para a Elektro a disposição de fazer parceria e caminhar junto. A dúvida, entretanto, era saber se a Elektro, queria embarcar nessa parceria. Aquela Elektro, que iria doar duas mil geladeiras e que procurava baixar o consumo dos moradores do lado paulistas, parecia não ser a mesma Elektro que estava diante dos nosso olhos. No coração dos presentes, continuava pulsando a esperança, e a platéia esperando a hora do “homem” da Elektro falar. Em pouco minutos a “boa notícia” do representante da empresa que foi eleita pela Revista Exame em 2004 e 2005 como “a melhor distribuidora de energia elétrica do Brasil”, iria acalentar a todos, confirmando a confiança dos usuários nela depositada. Afinal, são 5,7 milhões de pessoas que dependem da energia fornecida por ela. No estado de São Paulo são 223 municípios, e no estado de Mato Grosso do Sul, são os habitantes de 5 municípios que movem suas máquinas, seu progresso, e suas esperanças, a partir dessa energia que brota das águas fartas e gratuitas do rio Paraná e chega até suas casas e indústrias. Mas quando o representante da Elektro começou a falar, o coração da plenária “gelou”. Ele abriu a boca, e dela começou a saltar números, cifras e tabelas. O povo começou a se mexer na cadeira. Parecia que tinha pulga no anfiteatro Ramez Tebet, recém inaugurado. 20 minutos depois da sua fala, os debates começaram, calorosos, e o que se ouvia era uma chiadeira só. Revolta e indignação. A melhor crítica, do representante da maior empresa do município, o Grupo HJ, foi providencial e pertinente. Ao lado do posicionamento firme em defesa de Brasilândia do Deputado Akira Otsubo, os demais presentes formaram convicção de que a Elektro tinha ido para a Audiência sem a menor intenção de mudar, uma vírgula sequer, no seu discurso e tampouco no seu planejamento energético que não prevê a médio prazo, expansão da rede de abastecimento. Burocrática e técnica a explanação apresentada, não convenceu ninguém –disse o Deputado Akira. O funcionário da Elektro, deve ter sentido vergonha de ter dito aos presente que foi criado nas barrancas do rio Paraná, do lado sul-mato-grossense. Bem que ele gostaria de ser porta-voz de melhor notícia. Seu discurso não convenceu nem a si próprio, depreende-se. Quando ele disse: “a hora que uma empresa precisar de energia é só apresentar um projeto técnico, que a Elektro em 60 dias vai fornecer energia ao solicitante”, revelou a face mais perversa de seu discurso. Em outras palavras, quis dizer que “energia não falta” e que aquilo que estávamos fazendo ali pode ser entendido como desperdício de tempo. Mas “a justiça tarda, mas não falha”, reza o dito popular. Foi preciso um filho de Brasilândia, um cidadão trabalhador, em nome de um empreendedor de sucesso, passar a mão no microfone para acabar com o embuste. Alguém para dizer “isso não condiz com a verdade, pois estamos há 2 anos esperando um parecer favorável ao nosso projeto e até agora nada”. O Sr. Miguel Estevan da Silva, Diretor Comercial do Grupo HJ, em sua manifestação pública –e aqui presto minha homenagem ao seu lúcido depoimento–, entre outros que ali estavam presentes, como o Grupo José Pessoa, da Debrasa, ousou dizer mais. Pois esse cidadão teve a coragem de desafiar o discurso moderado dos participantes da mesa e expressar o pensamento da maioria no plenário. Ao desvelar a patranha e expor sua indignação, manifestada no protesto lavrado para que os taquígrafos da Assembléia Legislativa registrassem nos anais da história, clamou uníssono aos demais presentes, em alto e bom tom, que “Brasilândia merece respeito”. Os que estavam sentados no fundo do anfiteatro, os mais céticos, olhando de longe com óculos de alcance, perceberam logo a tônica da audiência: A Elektro, falou como detentora do monopólio da energia distribuída nessa região; sem concorrente, é a dona da feira. E como qualquer outra empresa, demonstrou de público, o segredo de seu sucesso empresarial: é uma empresa que gera lucro! Vai muito bem, obrigado. Isso ficou claro quando ela disse: “No caso de falta de tensão ou carga de energia, deve ter a participação financeira do interessado”. Ou seja, é o clássico argumento denunciado por Karl Marx no século 19: “o capital não tem pátria”. Se quiser produzir, vai ter que pagar: foi dado o recado. Em síntese, restou demonstrado na audiência que o Estado e o Município querem parceria, não para ter energia elétrica (pois segundo a empresa ela está disponível). O que se quer é parceria para trazer a energia até Brasilândia, garantindo infra-estrutura, rede de transmissão, postes, fios, transformadores. Enfim, tudo que custa dinheiro, dinheiro que a empresa demonstrou que está nem aí para os conterrâneos. Não está nenhum pouco interessada em partilhar seus lucros com Brasilândia. Para finalizar, devo ainda dizer que tanto a AGEPAN no Estado, como a ANEEL, em nível federal, e qualquer outro órgão regulador não apita nada nesse caso. Os políticos de carreira são incapazes de mudar esse quadro. Mudam-se os personagens, mas as regras do jogo permanecem as mesmas, ditadas pelo capitalismo selvagem que entrega o nosso patrimônio ao estrangeiro. Essas concessões, de 10, 20 ou 30 anos, são acordos de Governo, entre grandes empresários e envolvem grandes interesses. Somos garnisés em rinha de galo grande. E não estamos falando aqui de uma empresinha qualquer. A Elektro Eletricidade e Serviços S/A teve um lucro líquido no ano passado de 501 milhões de reais. Segundo o Diretor Presidente da empresa, Orlando R. Gonzalez, sua meta ao assumir era a de &ldq
uo;ser a distribuidora de energia mais admirada do país”. Conseguiu isso lá fora, não aqui junto aos sul-mato-grossenses. Mas quem é, afinal, a Elektro? Pois saibam que 99,68% do controle acionário dessa empresa pertence ao grupo norte-americano Ashmore Energy International Limited (AEI), que recentemente adquiriu mais de 300 bilhões de ações pertencentes a várias empresas, entre elas duas firmas brasileiras. A dona da Elektro, portanto, é uma multinacional. Sua sede é em Huston, no Texas, e opera em 14 países, no transporte e distribuição de gás natural e energia elétrica. Fatura a bagatela de 2,5 bilhões de dólares/ano, e tem 8 milhões de clientes no mundo. No Brasil são 1,9 milhão de clientes. Termina a Audiência, e dou uma olhada no Código de Ética da Elektro: “empresa socialmente responsável” que busca a “equidade social”. Penso na geladeira velha lá de casa, e quase levo um susto. Uma queda de energia dessas que acontecem todos os dias, deve ter mexido com os neurônios da bichinha. Ela pifou. Até que ganhar uma geladeira nova, penso comigo, não seria um negócio ruim…

(*) É advogado e vereador em Brasilandia-MS

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