17/06/2007 15h20 – Atualizado em 17/06/2007 15h20
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A dona de casa Rúbia Maria Santos (50) mora em Itu, interior de São Paulo, cidade de trânsito fácil, onde tudo vai muito devagar. Ainda assim Rúbia pára no sinal vermelho mesmo que não haja nenhum carro, pessoa ou radar que ameace o movimento. “O sinal está fechado para mim. Paro por isso: porque tem de parar”, diz ela, como se fizesse uma afirmação óbvia de tão simples.É possível que a maioria da população veja nesse comportamento nada mais que ingenuidade ou tradição interiorana de uma senhora que não tem pressa e, quiçá, não dirige lá essas coisas. Será mesmo?Não ultrapassar o sinal vermelho para evitar um acidente, não roubar por medo de ser preso ou fazer boas ações para garantir uma recompensa divina. São valores como esses que estimulam seu comportamento no trânsito ou na sociedade? Então pise no freio, caro motorista, que a valeta é mais embaixo.Tais motivações podem evitar, sim, problemas, mas não possuem nenhum valor moral autêntico, já que estão condicionadas a algo que se possa receber em troca. A reflexão é de Immanuel Kant, filósofo alemão do final do século XVIII, e possibilita compreender por que o comportamento no trânsito atinge tais níveis de incivilidade. Nesse aspecto, Rúbia é, mesmo sem o saber, autêntica praticante da filosofia moral kantiana.“Enquanto criticamos as pessoas que agem de forma egoísta, normalmente admiramos aquelas que conseguem se desprender de seus interesses particulares ao fazerem algo pelo próximo. No entanto, podemos nos perguntar se realmente nos desembaraçamos dos interesses particulares quando ajudamos os necessitados esperando, com isso, uma recompensa ou quando visamos, com a boa ação, apenas evitar um castigo divino”, diz o doutor em filosofia pela Universidade de São Paulo (USP), Sandro Kobol Fornazari.A resposta de Kant é que sempre que condicionamos nossa boa ação a algo que possamos obter em retribuição, esse ato não possui autêntico valor moral. E isso vale não apenas para a religião, mas também para os costumes, para os preceitos morais e, inclusive, para os códigos e leis. “Por exemplo, quando não roubamos porque tememos ir para a cadeia, nossa ação correta de não roubar não tem, segundo Kant, um autêntico valor moral”, revela Fornazari.Mas Kant não pára por aí. Dar a passagem para outro motorista porque esse gesto vai fazer você ficar satisfeito, sentindo-se uma pessoa especial e feliz com a buzinada de agradecimento do vizinho, também não vale. Para entender melhor: quando uma pessoa passa todas as tardes de sábado fazendo companhia aos velhinhos num asilo, conversando com eles, ajudando em algumas atividades, e vai então para casa com aquela agradável sensação de ter feito o bem. O que é isso?“Ora, dirá Kant, não há autêntico valor moral quando recebemos algo em troca de nossa boa ação, ainda que seja a inofensiva satisfação de nossas inclinações”, explica o professor. “Kant enquadra os dois tipos de ação acima descritos como imperativo hipotético, isto é, quando a vontade que nos comanda a agir está ajustada a normas externas ao sujeito que definem um repertório de castigos e recompensas para a ação”.O curioso é que esse tipo de ação deve ser contrária aos próprios interesses e às próprias inclinações, isto é, “devo ajudar os velhinhos apesar de não sentir qualquer simpatia por eles… Devo não me corromper ainda que tenha a certeza da minha impunidade. Devo não cobiçar o carro do próximo ainda que não tema o julgamento de Deus a esse respeito”, conta Sandro.Onde, ora bolas, haveria valor moral autêntico então?O autêntico valor moral estaria nas ações em que a vontade é incondicionada e desinteressada, o que Kant denominou imperativo categórico, ou seja, “devo agir de forma correta porque é a forma correta de agir. Nesse caso, a vontade deve estar subordinada a uma lei posta pela razão: devo proceder de modo que eu possa querer que a minha máxima, aquilo que motiva minha vontade a agir, seja uma lei universal”.O oposto desse pensamento pode ser visto em comportamento de sujeitos que, por exemplo, nunca dão seta ou andam pelo acostamento e ficam enraivecidos quando outro age da mesma forma. Só ele “pode”, autorizado por seu motivo pessoal, sempre mais importante que o de qualquer pessoa.Podemos verificar a diferença entre o imperativo hipotético (vontade de recompensa) e o categórico (desinteressado) quando pensamos nos motivos que nos levam a respeitar o sinal vermelho no trânsito. Se paro no farol vermelho porque não quero ser multado ou porque temo bater o carro, então minha ação não possui qualquer valor moral. Se paro porque espero que o motivo de minha ação possa se universalizar, então estou agindo segundo o imperativo categórico.“Em outras palavras, se todos respeitarem o farol vermelho e todas as demais leis de trânsito, então todos acabarão sendo beneficiados, não individualmente, mas coletivamente. O contrário não pode acontecer, ou seja, se o respeito à lei depende do constrangimento ou do temor em infringi-la, então quando tivermos certeza da impunidade não agiremos de forma correta. Isto é, se não tiver radar por perto e eu puder evitar a colisão, posso avançar o sinal vermelho, porém, o que aconteceria se todos agissem assim? O sinal vermelho perderia a serventia, cada um agiria buscando agilizar o seu lado e com isso se instalaria o caos, os cruzamentos fechariam e ninguém sairia do lugar”, finaliza Fornazari.(Que os argumentos kantianos e dona Rúbia possam nos inspirar nas próximas vezes que pegarmos a direção).


