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quinta-feira, 19 de março de 2026

A morte e seus recados

18/11/2007 18h19 – Atualizado em 18/11/2007 18h19

jornalista: [email protected]

Quando morreu, em maio de 1987, o jornalista Júlio Marques de Almeida havia acabado de concretizar o sonho da casa própria. Aos 31 anos de idade, sempre dormindo no sofá da sala de uma minúscula casa de BNH, onde morava com a mãe e as irmãs, ele conseguiu financiar uma casa maior. Um amigo sugeriu-lhe que colocasse a casa em nome da mãe, que já estava velha. Ela morrendo, o imóvel seria quitado, idéia por ele condenada, de pronto.

Julinho desconfiava – e tinha muito medo – de sua condição mediúnica. Arrepiava-se com histórias como a da premonição no dia da morte de seu pai. Ele saíra para comprar remédio, mas voltou no meio do caminho, com uma voz “do além” dizendo que o pai acabara de falecer. Na véspera de sua morte, uma segunda-feira, ele saiu mais tarde da televisão e ao deixar o amigo Rubão Moreira em casa lembrou-se que não havia falado comigo naquele dia, sugerindo que voltassem ao centro, para tomarmos uma cerveja. Seria nossa saideira e talvez esse tenha sido mais um pressentimento, pois só fui vê-lo minutos após sua morte, às dez horas da manhã da terça-feira, num hospital de Rio Brilhante, depois de esmagado por uma carga de compensados de um caminhão desgovernado, em Nova Alvorada.

Sexta-feira passada, fazendo caminhada, observei a diferença de comportamento de um jovem, meu vizinho, com o qual cruzo todos os dias. Passos lentos, às voltas com um problema de obesidade, ele está sempre pra lá e pra cá, curtindo passarinhos e a bela paisagem do bairro. Na sexta-feira ele estava estático, numa esquina. Eu ia e voltava e ele lá, parado, como que a olhar para o infinito, aparentando tristeza. Sábado de manhã, ao chegar ao hospital Santa Rita, para visitar meu amigo Antônio Tonanni, fico sabendo que o pai daquele menino triste havia sido abatido por um infarto na noite anterior e falecido no começo da madrugada.

Quando subi para caminhar, à tarde, a fita da memória foi rebubinando e trazendo-me à lembrança alguns recados recebidos ante a iminência da morte de pessoas queridas. Um deles, em 1982, a de meu amigo Renato Lemes Soares. Seu filho, o sempre apressado Ferrinho, havia me convidado para irmos a Campo Grande. Sairíamos bem cedinho, mas, inexplicavelmente, naquele dia, Ferrinho ficou zanzando pela cidade, sem nada aparentemente importante para fazer. Até que lá pelas 9h30, quando estávamos já na saída da cidade, na Cabeceira Alegre, ele resolve voltar ao centro para abastecer. Enquanto acertava a conta no caixa sua esposa chega aflita e pede que o avise para corrermos ao Hospital Santa Rita. Nem precisei dizer nada, ele adiantou-se e disse: “É meu pai, né, ele morreu, pode me falar”. Seu Renato, que vivia a plenitude de sua saúde, acabara de ser atingido por um torno, tendo morte instantânea.

Com o mesmo Ferrinho, alguns dias depois, a situação se inverteu. Estávamos ainda no início da noite, quando a rodada de cerveja nem bem havia começado, e fui abatido por um sentimento estranho, pedindo a ele que me levasse embora. Meu carro estava na casa de minha ex-mulher e quando lá cheguei, a empregada, que não me conhecia, informou que a patroa havia saído porque o sogro acabara de morrer. Corremos para a casa de minha mãe, lá chegando logo atrás do carro da funerária que levava o corpo de meu pai, fulminado por um infarto, aos 51 anos, enquanto assistia ao Jornal Nacional.

No meio da caminhada deste sábado, preocupado com o estado de saúde de Tonanni, caí, sem querer, na vala comum do recorrente questionamento acerca de mortes prematuras de tanta gente boa e útil para humanidade, como cientistas, religiosos e tantas personalidades, num contraponto que muitos acham injusto à longevidade incomodativa de alguns ditos “vermes” da sociedade, para ficarmos no linguajar de Oswaldinho Duarte, o repórter policial de Tonanni. Mas, quem somos nós para questionar os desígnios do Chefão lá de cima? Ao retornar para casa, passando pela guarita na entrada do meu bairro, ouço música clássica no radinho de pilha dos guardas. Àquela hora? Horário de música sertaneja? Nem tive tempo de perguntar em qual emissora o rádio estava sintonizado, com um dos guardas informando a morte de Antônio Tonanni. Apressei o passo e, ao chegar em casa, também liguei o rádio, que tocava a “Canção da América”, de Milton Nascimento. Lembrei-me de nossa longa amizade, das alfinetadas mútuas, das escaramuças, mas, principalmente, de um pedido recorrente: nada de artigo falando dele, quando seu dia chegasse.

Como nossa despedida foi em grande estilo, um mês atrás, ele já debilitado, apoiado em sua bengalinha, prestigiando minha noite de autógrafos no livro em que é um dos principais personagens, fico com a poesia de Milton Nascimento: “Amigo é coisa para se guardar/debaixo de sete chaves/dentro do coração (…) no lado esquerdo do peito/mesmo que o tempo e a distância digam não/mesmo esquecendo a canção/o que importa é ouvir a voz que vem do coração/seja o que vier/venha o que vier/qualquer dia amigo eu volto pra te encontrar/qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar”.

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