24/11/2008 08h35 – Atualizado em 24/11/2008 08h35
Waldir Guerra *
Para os que não acreditam na crise mundial e mesmo para aqueles que afirmam ela não atingirá o Brasil está aí o contato dela conosco: faltou recursos – e até crédito – para os produtores plantar e haverá uma produção menor na safra 2008/2009.
Com um acréscimo de 56% nos custos de produção e tendo dos financiadores o mesmo valor do ano passado, o produtor não está tendo alternativa, ou reduz a área de plantio, ou coloca menos adubo.
Os primeiros levantamentos mostram que no Centro Oeste o Mato Grosso do Sul reduziu em 12% a aplicação de adubo nas lavouras de soja; em Goiás a redução está maior, aproximadamente 14% e o pior caso é no Mato Grosso onde a redução ficou em torno de 24%. Isso significa que só por conta dessa redução a safra terá uma perda de 3%.
A safra de algodão será 30% menor já que ela é totalmente dependente de financiamentos e, por conta da crise financeira mundial, os recursos sumiram.
O governo fez o que pôde com seus constantes apelos aos bancos para que liberassem mais recursos aos produtores, mas no estado do Mato Grosso, por exemplo, o grosso do financiamento, 53% do total, sempre foi feito pelas multinacionais. O Banco do Brasil nunca financiou mais do que 10% do total. Nesta safra as multinacionais mantiveram os mesmos valores, pois já tinham estocado o adubo e os demais insumos necessários para este ano. Como aumentar o valor do financiamento aos produtores brasileiros se os bancos lá fora – fonte onde as multinacionais se abastecem – ou quebraram ou nada mais têm para emprestar?
Até contrariando os apelos do governo, os bancos estão exigindo receber o que os produtores lhes devem. Cenas mostrando máquinas agrícolas sendo confiscadas pelos bancos foram mostradas pelos jornais. Entre pagar a conta velha ou empregar os recursos para plantar a nova safra, os produtores mato-grossenses preferiram entregar as máquinas, me explicou o presidente da poderosa Aprosoja, Glauber Silveira da Silva.
Aqui mesmo no Mato Grosso do Sul produtores que preferiram colocar seus débitos em dia porque tinham a promessa do banco que iria continuar financiando-os agora nada recebem. É simples, o banco só financia os que têm garantias reais; só a garantia da safra é pouca. Tem razão o banco, pois a mercadoria dele é o dinheiro e ele precisa do retorno. É a crise do crédito aparecendo por aqui minha gente!
Como se vê a crise já está se materializando no Brasil também. Se você ainda não sabia por onde iria começar aí está uma prova por onde ela está entrando na nossa vida, atacando os que produzem alimentos.
Verdade que a crise está chegando pelos produtores de commodities, mas é bom não esquecer que tanto o arroz como o feijão – prato favorito dos brasileiros – são produtos que dependem dos mesmos agricultores, os mesmos que produzem o milho e a soja.
Bicho teimoso o agricultor brasileiro; não para de plantar nem mesmo sabendo que irá ter prejuízo com sua produção atual. Mas se há uma categoria que soube se adequar às dificuldades foi a dos agricultores brasileiros. Por isso, tenho certeza eles sairão dessa crise mais fortalecidos e ainda mais capacitados. Foi assim nesses últimos cinqüenta anos: quanto mais concorrência enfrentaram, mais se enfronharam na tecnologia e foram superando todas as adversidades. Fizeram da produção rural a líder absoluta das exportações brasileiras; a locomotiva da nossa economia.
- Cidadão douradense; foi vereador, secretário do Estado e deputado federal.



