24/01/2009 10h04 – Atualizado em 24/01/2009 10h04
AGOSTINHO, Pedro Antonio. Professor Msc. em História da Rede Estadual de Educação do Estado de Mato Grosso do Sul, cidade de Três Lagoas – MS. E-mail: [email protected]
O espetáculo da pesquisa, com seus sucessos e seus reveses, raramente entedia. É o tudo pronto que espalha o gelo e o tédio. Marc Bloch.
Resumo: O presente artigo procura refletir as práticas políticas desenvolvidas no sul de Mato Grosso-Uno, ano de 1945-58, onde os vários segmentos – nele envolvidos – visavam contemplar a hegemonia política em Mato Grosso. Podemos refletir os mecanismos que foram utilizados pelos pequenos, médios e grandes coronéis, fazendeiros, comerciantes, políticos, etc, que buscavam manter uma postura política em que, as camadas mais abastadas tivessem um equacionamento uniforme, no que diz respeito à praticas políticas na região.
Palavras-chave: Mandonismo local; Relações de Compadrio; Imaginário.
Abstract: This article tries reflect political practices developed in the south of Mato Grosso-Uno, year of 1945-58, where the various segments – involved – sought to contain the political hegemony in Mato Grosso. We can reflect the mechanisms that were used by small, medium and large colonels, farmers, businessmen, politicians, etc., who sought to maintain a policy stance that the most wealthy had a uniform resolution, regarding practical policies in the region .
Key-words: Mandonismo site; Relations of Compadrio; Imaginary.
Num primeiro momento, procuraremos discutir o papel dos principais partidos, que disputavam a hegemonia política no sul de Mato Grosso, procurando estabelecer os mecanismos que garantiam aos seus representantes a ocupação do melhor lugar na pirâmide política no sul do Estado e, por conseqüência, na região do Bolsão.
Uma vez caracterizada essa supremacia partidária, o controle das instituições públicas, como as prefeituras e o aparelho burocrático-político-administrativo do Estado, num primeiro plano, eram as instituições mais desejadas, que poderiam garantir privilégios a seus “parceiros”, às famílias associadas, enfim, aos grupos que estivessem ligados “ideologicamente” ao partido que detivesse o controle das instituições públicas, pelo menos no período em que estivesse no topo da pirâmide política, o que significaria o controle de decisões de ordem das mais diversas nas esferas administrativas e políticas nos estados e municípios.
Num segundo momento, enfocaremos o papel dos eleitores, “povo miúdo”, nesse processo político como atores ativos, mas presos a um sistema de mandonismo local e regional, sujeitos a imposições de seus patrões, “mandões”, e chefes políticos, uma vez que dependem, direta ou indiretamente, dessa estrutura de poder, o que possibilitou, no bojo das disputas políticas locais, o predomínio total e/ou parcial de um grupo sobre outro.
É inegável que o processo político brasileiro no pós-45 esteve ligado a uma conjuntura político-social em que se percebia claramente a busca pelo fortalecimento das instituições democráticas, onde os partidos representavam uma dessas instituições que almejam, a todo o momento, chegar ao poder, entendendo que seja esse o papel de todo partido político.
Getúlio Vargas estimulou a criação do Partido Social Democrático (PSD), um partido governista composto principalmente pela elite rural, e que, pouco depois, presidiu, juntamente com membros do Ministério do Trabalho e sindicalistas getulistas, a criação do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), um partido teoricamente de massa congregava o grosso das forças trabalhistas nacionais e, notadamente depois da extinção do PCB (Partido Comunista Brasileiro), Getúlio Vargas, líder do PTB, mostrou, na campanha de 1949-1950, sua gigantesca capacidade de aglutinador das massas populares.
Após a cassação de Getúlio Vargas em 29 de Outubro 1945, a vitória foi do candidato General Eurico Gaspar Dutra da coligação (PSD/PTB) que governou o país de 1946-1950. A postura de Vargas adotada em tempos anteriores, como o golpe do Estado Novo em 1937, levou as forças conservadoras de oposição a pensar que se preparava um novo golpe continuísta, o que era perfeitamente possível em se tratando de Getúlio. A tendência continuísta se evidenciava quando, em meio à agitada campanha eleitoral, surge um movimento popular favorável à continuação de Vargas no poder. Esse movimento popular – apoiado pelos comunistas e estimulado por Getúlio – ficou conhecido, como “Queremismo”, onde a “massa popular” em suas manifestações públicas gritava “Queremos Getúlio! Queremos Getúlio”. Receosa do continuísmo, a UDN aproximou-se dos setores militares antigetulistas e optou pela solução da derrubada de Vargas. Era o fim do Estado Novo.
Procuramos elucidar esses dados que estão relacionados ao processo político em nível nacional pois, sem eles não seria possível fazer uma discussão da política regional, que possa abranger de forma mais precisa o contexto histórico que se deu no sul de Mato Grosso nos processos eleitorais de 1954-58, no qual se sustenta a hegemonia do PSD nessa região.
Não temos dúvidas de que a disputa entre a UDN e o PSD, dois principais partidos em nível nacional e regional, procuravam, com o apoio dos coronéis fazendeiros, eleger o maior número de representantes de seus partidos nas esferas representativas do estado, ou seja, estadual e municipal.
Tanto a UDN como o PSD tinha sob seu domínio currais eleitorais, garantidos pelos grupos de apoio ideológico e de interesses, os quais lhes garantiam votos de cabresto e privilégios afiançados pelas instituições do estado.
Podemos refletir um pouco mais a respeito da postura dos partidos políticos, considerando os apontamentos de Viana que considerou “(…) simples agregados de clãs organizados para a exploração das vantagens do Poder; meras associações de interesses privados ou delegações de pequenas oligarquias politicantes”.
Sem generalizar, a nossa reflexão tem como objetivo entender os motivos que levaram esses indivíduos a filiar-se a partidos políticos, se de fato eles representavam a sua comunidade criando soluções para seus problemas sociais, ou se apenas almejavam a autopromoção.
Conseqüentemente, a não existência de organizações partidárias reais que de forma clara defendesse o processo de redemocratização contribuiu para que esse processo não conseguisse alcançar o patamar desejado em um novo quadro democrático. Esse fator parece ser o principal responsável pela exclusão e pela marginalização social.
Uma vez negada a participação popular, ou seja, o direito, sem restrições, de escolha de seus representantes políticos, criou uma abertura para que personalidades sem compromisso se apresentassem ligadas a siglas partidárias, nas quais se percebe contradições entre o discurso e a prática, inseridas numa conjuntura social e política pela qual se revestem as relações de poder.
Esta condição é apontada no depoimento de um de nossos entrevistados, quando questionado a respeito do processo em si.
A necessidade de eleger o maior número possível de políticos ligados aos principais partidos desse período, o PSD e a UDN, em Mato Grosso e, conseqüentemente, no sul do Estado, era a garantia que das oligarquias regionais tinham para criar condições favoráveis para que as famílias associadas ou de parentesco, ligadas “ideologicamente” a essa ou aquela sigla partidária, pudessem participar, direta ou indiretamente, do jogo do poder.
Nessa conjuntura, fazendeiros, comerciantes e ocupantes de cargos públicos se vêem ligados por meio desse cordão umbilical, onde esses grupos representam o combustível que alimenta a máquina coronelística, a qual supre as necessidades econômicas nas campanhas eleitorais.
Observemos a citação abaixo, na qual a autora nos oferta uma reflexão sobre este contexto:
Nessa conjuntura de relações de poder político e de mando pessoal, na qual várias famílias prosseguem reinando, em função de seu prestígio e de seu poder econômico, o município surge como o principal espaço onde o exercício de mando pessoal ou coletivo se faz presente.
Boris Fausto afirma que a transação entre a máquina administrativa dos estados e os interesses políticos-econômicos de donos de terra e de votos se caracterizou no governo Campos Sales sendo, este governo, responsável pela institucionalização do sistema oligárquico.
De um lado, a maioria da população mais carente, o “povo miúdo”, e/ou (des) assistido. Do outro lado a estrutura administrativa burocrática do estado onde os representantes oficiais nos municípios, num primeiro momento, detêm o controle, ou seja, ditam as regras do jogo, isto porque a esfera municipal está mais próxima do que a esfera estadual e federal, o que nos leva a considerar o município como o reduto onde se desenvolveu com maior facilidade os conchavos políticos, tanto na primeira república, como afirmou Boris Fausto, como podemos detectar, também, nos anos que sucederam o pós-1945.
Os administradores não podiam manter por muito tempo a liderança sem dar algo em troca. Os fazendeiros, por sua vez, careciam de estradas para escoarem seus produtos, e se aportavam em seu poder econômico para pressionar o poder executivo.
Já os munícipes eram carentes de assistência médica e, por isso, todos detinham algo desejado pelos políticos, principalmente em época de eleição. O voto era e é a “menina dos olhos” daqueles que necessitam dele para sua auto-afirmação política, ou seja, sua eleição ou reeleição.
De certa maneira, o governo está nas mãos dos grupos que controlam uma pequena ou uma grande parte do eleitorado, em que a fraqueza financeira do município e a influência dos chefes locais, como bem lembrou Victor N. Leal, contribui de maneira significativa para disseminar e manter as relações coronelísticas na sua expressão governista.



