21/09/2009 08h17 – Atualizado em 21/09/2009 08h17
Qualquer político eleito para administrar o país, ou um estado e até mesmo um município, no curto período de quatro anos, se obriga a delegar poderes durante sua administração se quiser levar a cabo um bom trabalho.
O melhor exemplo para justificar essa afirmativa está na atual administração do governo Lula com seu ministro, Henrique Meirelles. Nomeado há sete anos ainda na primeira administração e apesar de receber duras críticas de praticamente todo partido do presidente (PT) e do próprio vice-presidente, José Alencar, tem o irrestrito apoio de Lula para continuar no posto.
Meirelles, como presidente do Banco Central, tem o poder de comandar todo sistema financeiro nacional, de manter controle no câmbio e também na moeda, o Real. Por diversas vezes o próprio presidente manifestou seu descontentamento com os juros extorsivos praticados pelos banqueiros nacionais, mas nem de longe se atreveu a discordar da maneira de administrar de seu ministro e muito menos em ameaçá-lo de demissão. Pelo contrário, Meirelles continua cada dia mais forte junto ao presidente e até pensa lançá-lo candidato ao governo no estado de Goiás.
O conceito e gratidão do presidente Lula ao seu presidente do Banco Central está no bom controle da inflação que Meirelles vem conseguindo com sua política financeira. Lula sabe que uma pequena disparada inflacionária iria atropelar seu governo inteiro.
Outro bom exemplo, ainda com o presidente Lula, está na área ambiental. Colocou no Ministério do Meio Ambiente a senadora Marina Silva e deixou-a a vontade na guerra contra o desmatamento e, com isso, ficou fora dessa desgastante briga. Quando se viu obrigado a afastá-la para aprovar licenças ambientais a fim de levar adiante a construção de usinas hidroelétricas dentro da Amazônia, propositadamente, colocou em seu lugar o polêmico Carlos Minc, o atual ministro, que entrou batendo e consequentemente apanhando. Poderá até ser morto – porque crucificado já está – mas os pecados continuarão sendo dele e não de Lula.
Esses dois exemplos servem para demonstrar que delegar poderes totais a pessoas competentes e capazes, além de desviar do político eleito as críticas de possíveis erros, ainda trazem a vantagem de o político sair-se bem junto a seus eleitores quando o trabalho do subordinado for bom.
Os altos índices de popularidade do presidente Lula muito se devem ao fato de a culpa por erros em seu governo cair diretamente ao subordinado e não ao presidente.
Contrariamente ao que acontece no governo federal, na administração estadual não há delegação de poderes nem mesmo parcial, quanto menos total. A consequência disso é o desgaste físico que se vê na pessoa do governador (fácil de ver nas lágrimas derramadas pela proibição do governo federal em se plantar cana na bacia do Rio Paraguai).
Mas mesmo sabendo que o desgaste na classe política lhe é grande, o governador sabe que seu prestígio continua muito alto junto aos eleitores que reconhecem seu bom trabalho ao recuperar o Estado de oito anos de uma desastrada administração de Zeca do PT.
No município de Dourados – para fechar os poucos exemplos e as comparações – ninguém sabe se o prefeito eleito delegou poderes totais, ou mesmo parciais aos seus secretários, pois a maioria deles já se demitiu e os que ficaram no cargo continuam sem recursos e sem metas a cumprir. Talvez ainda seja possível ver, quando feita a análise do Orçamento para 2010, o quanto o atual prefeito irá disponibilizar a cada secretário em recursos e assim delegar poderes para que trabalhem com autonomia – coisa que, por enquanto, eles ainda não tem. É bem possível que o prefeito não se dê conta, mas ainda vai entender que o segredo para bem administrar é escolher gente competente e delegar poderes.
*É membro da Academia Douradense de Letras (ADL); foi vereador, secretário do Estado e deputado federal.


