19/11/2010 16h46 – Atualizado em 19/11/2010 16h46
Petrônio Souza Gonçalves é jornalista e escritor
Eram os anos de chumbo no Brasil. No Chile, muitos brasileiros viviam o
exílio, entre eles o jornalista mineiro José Maria Rabelo, que dirigia um
importante instituto na periferia de Santiago. O sociólogo Fernando Henrique
Cardoso, que sempre fazia questão de se mostrar boa praça entre os exilados
- Fernando Henrique viveu um exílio voluntário – ostentava o cargo de
diretor das Organizações das Nações Unidas. Uma bela noite, atendendo ao
convite de José Maria Rabelo, Fernando Henrique fez uma bela palestra em seu
instituto.
Ao final do evento, sabendo que José Maria não possuía carro, Fernando
Herinque, que morava na mesma região do amigo brasileiro, perguntou em alto
e bom som: “Zé Maria, você está de carro?”. Zé Maria ao dizer não, aceitou a
carona de Fernando Henrique. Depois de muito rodar pela capital chilena
dentro do imponente Mercedes-Benz da ONU, a chuva os pegou nos arredores de
suas casas, quando, surpreso, Zé Maria ouviu constrangido a pergunta de FHC:
“Ô Zé Maria, aqui já está bom para você?”. Como manda a boa tradição
mineira, Zé Maria respondeu baixinho: “Uai, está bom sim”. E foi deixado ali
pelo amigo, na chuva e no frio, até terminar sua viagem de taxi.
Fernando Henrique Cardoso só não sabia o que o destino havia lhe reservado.
Anos depois, foi deixado, entre uma palestra e outra, na chuva e no frio
pela história, se tornando um exilado em seu próprio país.
FHC é um clandestino ideológico, um corpo político insepulto, que espalha
seu mau cheiro entre aqueles que estão a sua volta, aqueles que vivem a sua
sombra. José Serra e Geraldo Alckmin sabem muito bem o quanto é desagradável
esse mau cheiro e que nada, ou quase nada, cresce a sua sombra.
Pesa sobre o cadáver político de FHC uma política entreguista, usurpadora,
servil; de doação do patrimônio público; submissão à política internacional,
ao FMI; o sucateamento do Estado, dentro de uma política de administração
zero; de adoração ao mercado financeiro – essa entidade sem rosto e sem
pátria; as medidas antinacionais e antipopulares; o culto extremado à
vaidade, ao personalismo; o compadrio; o fisiologismo; o mensalão ideológico
e a compra da reeleição; a interferência direta nos poderes, com a criação e
a exímia atuação do engavetador geral da república; o desdém às Forças
Armadas e à Polícia Federal; as péssimas e criminosas gestões nas estatais
para justificar suas privatizações; o desmatelamento do sentimento de nação.
Não há precedente na história do Brasil de uma figura que depois de galgar
os mais altos cargos públicos tenha sido legada ao esquecimento. Nem o
Collor, que entrou na presidência da República pela porta da frente e saiu
pela porta do fundo, corrido.
FHC é quase uma sombra, um vulto, uma assombração. Quando José Serra fez seu
discurso de reconhecimento da derrota, transmitido ao vivo por todos os
canais de rádio e tv, assistimos ao revelador episódio quando a filha de
Serra se esmerou em alertar o candidato sobre a presença de um ex-presidente
entre os correligionários. Serra olhou, virou-se à filha e falou: Ah, o
Fernando Henrique, tudo bem! E voltou-se para seu discurso, sem uma menção
sequer do ex-presidente e ex-chefe.
Ainda assim, FHC deve agradecer aos céus. Pois outros presidentes que
implantaram em seus governos a mesma política que ele adotou no Brasil
enfrentaram, além do ostracismo, a justiça, e foram todos condenados, como
foi com o Menem na Argentina e Fujimori no Peru.
Mas como a sociologia ensina e FHC propaga, o Brasil é o país da boa
convivência e tem um povo muito generoso. Seu grande erro foi acreditar que
além de tudo, o povo era bobo.



