O comércio popular enfrenta baixa demanda de clientes e já mostra sinais de crise
Por: Nathalia Santos
Centros de compras populares no Brasil, conhecidos pela movimentação intensa de consumidores vindos do interior, estão registrando quedas expressivas nas vendas.
Espaços como o Brás, em São Paulo, a Ceasa (Central de Abastecimento) em diversos estados e shoppings populares em regiões como Brasília, Goiânia e Rio de Janeiro, apresentam hoje um cenário atípico: corredores e ruas praticamente vazias em dias que, historicamente, seriam de grande fluxo.
O fenômeno é reflexo de uma combinação de fatores que vão da política econômica nacional ao impacto de eventos climáticos extremos.
Segundo levantamento divulgado pelo jornal O Tempo, o comércio varejista recuou em 17 estados no primeiro semestre de 2025. O Rio Grande do Sul foi um dos casos mais críticos, registrando queda de 14% em junho, o pior resultado do país no período, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Já Mato Grosso do Sul teve retração de quase 5%, e outros estados como Ceará e Goiás também sentiram a diminuição do consumo.
A situação se torna ainda mais evidente nos bairros populares. Em Ceilândia, no Distrito Federal, comerciantes relatam dias inteiros sem movimento em áreas tradicionalmente lotadas. No Brás, em São Paulo, região que costuma ficar intransitável aos sábados, a circulação de clientes foi drasticamente reduzida, afetando diretamente os lojistas que dependem das compras em volume feitas por sacoleiros e revendedores, como mostrada em vídeos divulgados nas redes sociais.

Hipermercados com unidades em diversos estados do Brasil também registraram encerramento de atividades, como unidades do Carrefour. Em vídeos publicados nas redes sociais, comerciantes também mostraram o espanto ao ver a famosa feira de Goiânia praticamente vazia.
INSTABILIDADE NACIONAL
Além do desaquecimento do consumo, as fortes chuvas e enchentes no Rio Grande do Sul ampliaram os prejuízos. Segundo dados do Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), divulgados pela CNN Brasil, o comércio local teve retração de 15,7% após os desastres, com setores como vestuário e alimentação entre os mais atingidos.
O impacto financeiro das enchentes no estado já ultrapassa R$ 10 bilhões, segundo estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), afetando também a agricultura e a logística de distribuição de alimentos.
Mesmo os entrepostos de abastecimento, como a Ceasa, vêm enfrentando instabilidade. Levantamento da Ceasa/RS, publicado pelo Correio do Povo, aponta quedas expressivas de preço em produtos como tomate (–30%) e melancia (–20%), enquanto outros, como couve-flor (+40%) e morango (+25%), registraram alta, sinalizando um mercado volátil. Apesar de ter movimentado R$ 2,2 milhões em 2024, segundo dados da própria instituição, o setor sente a desaceleração do consumo.
CENÁRIO EM MS

Em Mato Grosso do Sul, cidades como Três Lagoas começam a mostrar sinais da crise. Embora a presença de grandes indústrias mantenha certa estabilidade na arrecadação, o fechamento de lojas e a multiplicação de imóveis com placas de “aluga-se” indicam uma mudança no cenário local.
Em Campo Grande, lojistas também relatam queda no movimento em regiões tradicionalmente comerciais. Na região central tem sido comum encontrar imóveis comerciais com placas de “aluga-se”.
Especialistas apontam que o esvaziamento do comércio popular é reflexo direto do atual ambiente econômico. A alta carga tributária, o custo de vida elevado e a instabilidade nas relações comerciais internacionais pressionam consumidores e empresários.