De município com parque industrial modesto a protagonista global da economia florestal, a trajetória de Três Lagoas é hoje um dos maiores cases de desenvolvimento regional do Brasil nas últimas duas décadas
Há cerca de 19 anos, Três Lagoas vivia uma realidade econômica muito distinta da atual. A arrecadação municipal era limitada, as obras estruturantes avançavam lentamente e o parque industrial concentrava-se em algumas empresas de pequeno e médio porte, ligadas principalmente aos setores têxtil e de óleos vegetais.
Entre os principais nomes daquele período estavam Mabel, Nelitex, Cortex e a multinacional Cargill, sendo a Mabel, à época, a maior referência industrial do município — hoje já fora de operação na cidade.

A economia local ainda buscava escala e diversificação capazes de sustentar um ciclo de crescimento consistente.
Antes da celulose: o papel como prenúncio da transformação
Antes mesmo da consolidação do polo de celulose, Três Lagoas já dava sinais de que passaria a integrar cadeias industriais mais complexas. Um marco importante foi em 2006, quando ocorreu a confirmação da instalação International Paper, multinacional americana do setor de papel, que iniciou suas operações no município em 2009, mesmo ano que a VCP deu start à fábrica.
Anos mais tarde, a empresa passou por uma reorganização global e sua operação brasileira passou a operar sob a marca Sylvamo, mantendo Três Lagoas como unidade estratégica no país. A presença da indústria papeleira antecedeu a chegada em larga escala da celulose e ajudou a preparar a cidade técnica, logisticamente e institucionalmente para receber empreendimentos industriais ainda maiores.
O divisor de águas: a chegada da indústria de celulose em escala global

A virada histórica se consolida entre 2007 e 2009, com a instalação da então Votorantim Celulose e Papel (VCP) — empreendimento que à época foi classificado pela então prefeita Simone Tebet como “o investimento do século” para Três Lagoas.
Naquela ocasião, quando a VCP começou a construção da fábrica em fevereiro de 2007, foi firmado um compromisso visando o desenvolvimento sustentável da região. A empresa contribuiu com a renovação da base produtiva do Estado e sua consolidação como um dos polos produtivos de celulose e papel no Brasil. Naquela ocasião a fábrica contribuiu para a elevação em cerca de 300% o PIB de Três Lagoas e em 13,5% o PIB do Estado. A atuação da VCP MS movimentou a economia da região, gerou milhares de novos postos de trabalho em diversos setores, conforme apontou estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas.
A VCP se transformaria posteriormente em Fibria e, mais adiante, seria incorporada pela Suzano, hoje uma das maiores produtoras de celulose do mundo.

Atualmente, a Suzano opera duas grandes fábricas de celulose no município, responsáveis por milhares de empregos e milhões de toneladas anuais e por marcos históricos de produção acumulada, colocando Três Lagoas no centro da estratégia global da companhia.
Outro pilar fundamental desse polo é a Eldorado Brasil, lançada em 15 de junho 2010 e com fábrica inaugurada em 12 de dezembro 2012, após investimentos superiores a R$ 6 bilhões. A unidade rapidamente superou sua capacidade nominal e se consolidou como uma das mais modernas plantas industriais do setor no mundo.
Com Suzano e Eldorado, Três Lagoas deixou de ser apenas um polo regional e passou a operar em escala internacional, integrada às maiores cadeias globais de fornecimento de celulose.
Crescimento econômico e liderança nas exportações

Os efeitos dessa transformação aparecem com clareza nos indicadores econômicos:
- 🔹 O PIB de Três Lagoas cresceu cerca de 17 vezes, passando de aproximadamente R$ 3,9 bilhões em 2010 para cerca de R$ 65,9 bilhões em 2024, impulsionado majoritariamente pela indústria florestal.
- 🔹 O PIB per capita acompanhou esse crescimento, refletindo aumento da produtividade, renda média e formalização do mercado de trabalho.
- 🔹 Em 2024, Três Lagoas respondeu por mais de 26% de todas as exportações do Mato Grosso do Sul, somando US$ 2,6 bilhões, com a celulose como principal produto da pauta.
Hoje, o município é o maior exportador do Estado e uma das principais plataformas brasileiras de exportação de celulose, conectando o interior do país diretamente aos mercados da Ásia, Europa e América do Norte.
Transformação urbana, arrecadação e serviços públicos

A industrialização acelerada provocou uma expansão urbana sem precedentes. Novos bairros e loteamentos surgiram, a construção civil ganhou ritmo intenso e o setor imobiliário acompanhou a chegada de trabalhadores, técnicos, engenheiros e executivos.
Com o crescimento da arrecadação, a Prefeitura ampliou investimentos em:
- pavimentação e mobilidade urbana;
- rede pública de saúde;
- segurança pública (com reforço no efetivo e na estrutura);
- educação e planejamento urbano.
A cidade passou a ter capacidade financeira e institucional para planejar seu crescimento, algo inexistente duas décadas atrás.
Logística pesada e suporte industrial: quando o caminhão vira infraestrutura

A consolidação do polo de celulose exigiu uma logística robusta e permanente. Nesse contexto, a presença de empresas de suporte pesado tornou-se estratégica.
Um exemplo é a Rivesa, concessionária Volvo instalada em Três Lagoas, às margens da BR 158, especializada em caminhões, carretas e serviços voltados ao transporte de grande porte.

A atuação da Rivesa atende diretamente operações como Suzano e Eldorado, além de empresas florestais e transportadoras que sustentam o fluxo contínuo de produção e exportação. A logística deixou de ser apenas apoio e passou a ser parte estrutural do modelo econômico local.
Andritz e Valmet: o selo definitivo de maturidade industrial

A chegada de fornecedores globais de engenharia é um dos indicadores mais claros de que Três Lagoas atingiu um novo patamar.
A Andritz, grupo europeu líder mundial em tecnologia industrial, está implantando uma divisão em Três Lagoas voltada a serviços, manutenção e equipamentos para a indústria de celulose. Ao lado da Valmet, a Andritz integra o seleto grupo das duas maiores fornecedoras globais de projetos e equipamentos para o setor.
Enquanto a Valmet lidera o Projeto Sucuriú, da Arauco — considerado o maior projeto de celulose do mundo —, a instalação da Andritz em Três Lagoas consolida o município como hub técnico-industrial, e não apenas local de produção.
Diversificação e o horizonte da UFN3

Além da celulose, Três Lagoas volta seus olhos para a diversificação econômica. Um dos principais vetores em debate é a possível retomada da UFN3 (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados), obra paralisada há cerca de 10 anos.
A reativação do projeto é discutida por governos e setor produtivo como oportunidade de:
- ampliar a base industrial;
- reduzir dependência de importação de fertilizantes;
- gerar milhares de empregos diretos e indiretos.
Embora ainda dependa de decisões técnicas e financeiras, a UFN3 representa o próximo grande salto fora da celulose.
Da cidade interiorana ao ecossistema industrial global
Hoje, Três Lagoas não é apenas uma cidade com fábricas. É um ecossistema industrial completo, onde produção, logística, engenharia, serviços especializados e exportação operam de forma integrada.
O que começou, há 20 anos, como uma aposta ousada, transformou-se em um case nacional de desenvolvimento econômico, capaz de reposicionar um município inteiro no mapa mundial da indústria.
A celulose não apenas mudou a economia de Três Lagoas. Mudou o seu destino.


