Entre senhas que não chamam e ultrapassagens sem aviso — seguir esperando
Por Enrico Pierro
Às vezes, eu acho que a vida é basicamente uma grande fila desorganizada. Você está lá, quieto, esperando sua vez chegar, acreditando que finalmente vai dar tudo certo, quando, do nada, alguém simplesmente passa na sua frente. Sem explicação, sem desculpa, sem olhar para trás. E o pior é que você só aceita, porque não tem energia para discutir. A vida te passa a perna e você agradece por não ter sido pior.
A verdade é que a gente passa grande parte do tempo nessa posição desconfortável de “quase”. Quase conseguindo, quase chegando, quase dando certo. E, enquanto isso, sempre tem alguém que chegou depois e, de alguma forma misteriosa, já está sendo atendido. Não por maldade, mas porque a vida funciona nesse modo aleatório que ninguém entende. Parece um sistema de senha em que você puxa 74 e o painel chama 12, depois 95, depois 3, depois 74, mas você estava no banheiro.
No fundo, a gente vai engolindo essas pequenas injustiças cotidianas porque escolher brigar por cada uma delas seria insustentável. Não dá para enfrentar a vida o tempo inteiro. Às vezes, é melhor respirar fundo, ajustar a postura e continuar esperando. Ou, pelo menos, tentando não enlouquecer no processo.
E eu sei que, em teoria, deveríamos exigir nossos direitos, questionar, reclamar, bater o pé. Mas a maioria de nós está cansada demais para ser militante da própria existência todos os dias. Então, a gente aceita. E segue. Não por submissão, mas por pura falta de bateria emocional.
No fim das contas, a vida como fila é isso: um caos silencioso em que você tenta manter a calma, tenta acreditar que sua vez vai chegar e tenta não surtar quando alguém simplesmente brota na sua frente como se fosse personagem principal da série e você fosse figurante.
Mas, de alguma forma, a gente vai. Sempre vai. Porque, mesmo quando nada faz sentido, ainda existe aquela esperança boba (e teimosa) de que, em algum momento, o painel vai chamar seu número. E você, finalmente, vai ser atendido.
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