Por: Nathalia Santos
Nomeado em 2023 para um cargo de gerência na Embratur, o “blogueiro” e político Fábio Trad já recebeu, ao longo de aproximadamente três anos, mais de R$ 1 milhão em salários e benefícios pagos pelo governo federal. O montante chama atenção não apenas pelo valor, mas pela escassez de informações públicas sobre resultados concretos do trabalho desempenhado.
Filiado recentemente ao Partido dos Trabalhadores (PT), Trad passou a ser citado nos bastidores como possível candidato ao governo de Mato Grosso do Sul, enquanto segue confortavelmente instalado em um cargo federal de alto salário.
Atualmente, Trad ocupa a função de gerente de auditoria e controle interno da Embratur, com remuneração em torno de R$ 25 mil mensais, conforme noticiado pelo blog do Otávio Neto. Trata-se de um cargo estratégico, que, em tese, exigiria dedicação técnica intensa, acompanhamento permanente de processos e fiscalização rigorosa do uso de recursos públicos.
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Na prática, porém, o próprio gerente afirma exercer suas funções em regime de teletrabalho, a mais de mil quilômetros da sede da estatal, em Brasília. O modelo, autorizado por regulamento interno, dispensa o comparecimento presencial e dificulta qualquer verificação externa sobre rotina, carga horária efetiva e impacto real das atividades desempenhadas.
Trad sustenta que suas tarefas são avaliadas mensalmente pela diretoria da Embratur e que os resultados seriam “excelentes”. No entanto, não há divulgação pública de relatórios, metas atingidas ou melhorias objetivas atribuídas à sua atuação, o que alimenta questionamentos sobre a proporcionalidade entre a remuneração recebida e as entregas efetivamente realizadas.
CONTROVERSO
A situação se torna ainda mais controversa diante da intensa presença de Trad nas redes sociais. Quase diariamente, ele publica vídeos, comentários e análises políticas em defesa do governo Lula e em ataque a adversários do centro e da direita. A atividade constante como influenciador político contrasta com a discrição esperada de um gerente responsável por auditoria e controle interno de uma estatal federal, função que, em tese, deveria exigir neutralidade, foco técnico e dedicação exclusiva.
Questionado sobre a carga horária cumprida no regime remoto, Trad não informa quantas horas diárias dedica ao trabalho na Embratur, limitando-se a mencionar critérios genéricos de avaliação por metas. O silêncio sobre esse ponto reforça a percepção de falta de transparência, sobretudo considerando o salário elevado pago com recursos públicos.
PORTO SEGURO
A nomeação de Trad foi feita pelo presidente da Embratur, Marcelo Freixo, também filiado ao PT, o que fortalece a leitura política do cargo ocupado. Nos bastidores, cresce a avaliação de que a função federal tem servido como uma espécie de “porto seguro” financeiro enquanto o ex-deputado testa sua viabilidade eleitoral e mantém visibilidade por meio das redes sociais.
Aliados admitem que uma eventual candidatura ao governo dependerá do aval do presidente Lula, da engenharia política envolvendo nomes como Simone Tebet e Vander Loubet, e da aceitação interna do PT. Em caso de cenário desfavorável, a permanência no cargo federal, com trabalho remoto, salário elevado e baixa exposição a cobranças públicas, surge como alternativa conveniente.
IMORAL
Embora não haja acusações formais de ilegalidade, o caso levanta questionamentos relevantes sobre moralidade administrativa, uso político de cargos públicos e a transformação de funções técnicas em plataformas de militância digital. Para muitos, o episódio simboliza um modelo em que o contribuinte banca salários generosos enquanto o ocupante do cargo atua, prioritariamente, como comentarista político nas redes sociais.
SALÁRIOS DE ATÉ R$ 40 MIL EM CARGO DE CONFIANÇA

O cargo de gerente ocupado pelo ex-deputado federal na Embratur prevê remuneração fixa de R$ 35.106,54, acrescida de gratificações no valor de R$ 5.265,98. Com isso, o salário bruto mensal pode chegar a R$ 40.372,52, conforme consta no quadro de cargos, quantitativo, salários e vantagens disponível no site da própria Embratur, no Portal da Transparência.
Os valores reforçam o caráter privilegiado da função, classificada como cargo de confiança, cujo preenchimento é feito por indicação política. Atualmente, a Embratur mantém 25 gerentes nesse mesmo nível hierárquico, todos com remunerações semelhantes, custeadas integralmente com recursos públicos.
No caso específico de Fábio Trad, o salário elevado chama ainda mais atenção diante do regime de teletrabalho, da ausência de informações públicas detalhadas sobre entregas concretas e da intensa dedicação às redes sociais, onde atua diariamente como militante e comentarista político alinhado ao governo federal.



