Por uma comunidade em gratidão
O entardecer da vida pede acolhimento, não despedidas. Quando a velhice chega, trazendo consigo a fragilidade do corpo e o peso dos anos, o maior remédio não está apenas na medicina, mas no olhar conhecido, no toque familiar e no conforto de se estar onde o coração chama de casa. Para Três Lagoas, e especialmente para a Vila Piloto, o Mestre Missionário Salesiano Armando Catrana não é apenas um religioso que cumpriu sua missão; ele é a própria alma de uma história de amor que dura mais de duas décadas. Hoje, ver quem tanto cuidou ser levado para longe de “seus filhos” não é apenas uma transferência administrativa; é uma ferida aberta no peito de uma comunidade que só deseja uma coisa: cuidar de quem tanto nos amou.
UMA PEDAGOGIA DE DIGNIDADE
Durante mais de vinte anos, o Centro Juvenil Jesus Adolescente foi o epicentro de uma revolução silenciosa liderada por ele. Ir. Armando não via apenas “carentes”; via potências. Sua criatividade pastoral, eternizada na lembrança da moeda “Cru Cru”, foi muito mais do que uma brincadeira ou assistencialismo. Ao criar um sistema onde a presença e o compromisso valiam recompensas no “shopping solidário”, ele ensinou a centenas de jovens o valor do esforço e da dignidade.
Ele conhecia cada rosto, cada nota escolar, cada drama familiar. Não era um amor etéreo; era um amor prático, exigente e profundamente humano. As crianças que corriam pela quadra após a missa de domingo, alimentadas pelo lanche e pelo afeto que ele provia, encontraram ali um refúgio seguro contra a dureza do mundo.
A HORA DA RETRIBUIÇÃO
Hoje, aquelas crianças cresceram. Tornaram-se pais, mães e profissionais. A comunidade amadureceu, e o sentimento de gratidão transbordou em desejo de responsabilidade.
Aos 87 anos, Mestre Catrana enfrenta as limitações naturais da idade. A decisão de transferi-lo para Campo Grande, embora pautada no cuidado, ignora um fator crucial para a saúde de um idoso: o pertencimento. A Vila Piloto não quer apenas homenageá-lo; quer ser o seu amparo. Seus ex-alunos e fiéis desejam ser hoje o “Centro Juvenil” dele, oferecendo a proteção, o carinho e a presença que ele ofertou a vida inteira.
UM APELO À REFLEXÃO
Este artigo é um pedido humilde, mas firme, aos superiores da congregação: permitam que a humanidade prevaleça sobre a burocracia. Na tenra idade em que se encontra, Mestre Armando merece o direito sagrado de escolher onde repousar a cabeça e onde viver seus dias de fragilidade.
Não há lugar melhor para ele do que o meio daqueles que o veneram. O corpo pode cansar, mas o espírito se renova no afeto. Que ele possa ouvir as vozes familiares, receber o abraço de quem viu crescer e sentir, até o último instante, que sua missão valeu a pena. Três Lagoas clama: deixem o Mestre Catrana em casa. Deixem-no viver o amor que ele plantou, aqui, entre nós.
(*) Ricardo Ojeda



