31.3 C
Três Lagoas
quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Morte cruel do cão ‘Orelha’ revolta brasileiros, que se mobilizam por justiça e por penas mais duras contra maus-tratos 

Orelha vivia há anos na região nobre da capital catarinense, cuidado espontaneamente por moradores, comerciantes e frequentadores que montaram casinhas e garantiam comida e carinho diário

A morte brutal do cachorrinho Orelha, na Praia Brava, litoral de Santa Catarina, causou comoção nacional. Cão comunitário, ele foi atacado por um grupo de adolescentes no dia 4 de janeiro. O pet foi socorrido e levado a uma clínica veterinária, mas, devido à gravidade dos ferimentos, foi submetido à eutanásia no dia 5 de janeiro.

Dois dos quatro adolescentes identificados pela Polícia Civil de Santa Catarina como suspeitos de participação na morte do cão Orelha, estão em uma viagem para os parques da Disney, na Flórida, nos Estados Unidos. Por conta disso, famosos, ativistas da causa animal e usuários têm movimentado a web pedindo justiça para o animal e a expulsão dos jovens dos parques.

OPERAÇÃO

Devido à enorme repercussão, a Polícia Civil de Santa Catarina passou a investigar o caso. Na segunda-feira (26), foi deflagrada uma operação para cumprimento de mandados de busca e apreensão contra os adolescentes e os adultos responsáveis.

A polícia não revela nomes, mas informou que, entre os parentes ligados aos jovens, estão dois empresários e um advogado.

Um dos pontos centrais da nova fase da investigação é a denúncia de que um policial civil, pai de um dos adolescentes envolvidos, teria coagido uma testemunha. Ao g1, a delegada responsável pelo caso, Mardjoli Valcareggi, confirmou que a denúncia está sob análise, embora tenha descartado a participação de agentes públicos no crime de maus-tratos em si.

“O mandado contra o adulto buscava localizar uma arma supostamente usada para ameaçar uma testemunha. No entanto, não encontramos essa arma, apenas certa quantidade de drogas. Há indícios de que quatro adolescentes tenham praticado as agressões contra o cão, e três adultos estariam envolvidos na coação durante o processo”, afirmou o delegado-geral da Polícia Civil de SC, Ulisses Gabriel.

COMOÇÃO NACIONAL

A morte brutal do cão comunitário Orelha, um vira-lata de cerca de 10 anos que era querido mascote da Praia Brava, chocou o Brasil e gerou uma onda de comoção que vai além da busca por justiça: inspirou reflexões sobre adoção responsável e o acolhimento de animais vulneráveis.

Orelha vivia há anos na região nobre da capital catarinense, cuidado espontaneamente por moradores, comerciantes e frequentadores que montaram casinhas e garantiam comida e carinho diário. Ele se tornou símbolo de convivência harmoniosa entre humanos e animais de rua. No entanto, no início de janeiro, o animal desapareceu e foi encontrado agonizando, com graves ferimentos na cabeça causados por objeto contundente. Apesar do atendimento veterinário, precisou ser submetido à eutanásia devido à irreversibilidade das lesões.

CRIMINOSOS AINDA TENTARAM MATAR OUTROS ANIMAIS

Os adolescentes suspeitos de agredirem brutalmente o cão comunitário Orelha, que precisou passar por eutanásia em Florianópolis, também teriam tentado afogar outro cachorro conhecido por moradores da região da Praia Brava, uma das áreas mais nobres da capital, segundo a Polícia Civil.

Caramelo, como é chamado, costumava andar ao lado de Orelha. Segundo o delegado-geral da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, nas redes sociais, o cão chegou a ser levado ao mar pelo grupo, mas conseguiu escapar. Após o episódio, ele foi adotado

COVARDIA

Mas a pergunta que precisa ser feita não é apenas o que fizeram com Orelha, e sim quem são os adolescentes capazes de achar graça nisso? Que tipo de formação — ou deformação — produz jovens que veem na dor alheia uma forma de entretenimento? Que educação falhou de maneira tão profunda a ponto de transformar crueldade em riso? Quem se diverte assim, amanhã vai se divertir espancando alguém fora do “padrão”. Ou participando de estupros coletivos tratados como “parte da farra”.

A morte do cachorro Orelha, em Santa Catarina, não dói apenas porque um animal foi brutalmente tirado da vida. Dói porque ele não era “apenas um cachorro”. Era parte da paisagem afetiva de uma praia, adotado pela comunidade, reconhecido pelo nome, pelo jeito, pela presença mansa. Orelha era vínculo. E quando um vínculo é destruído por uma violência travestida de diversão, algo muito mais profundo se rompe.

INDIGNAÇÃO COLETIVA DA SOCIEDADE

A grande repercussão do caso revela um dado importante — e raro, em tempos de brutalidades cotidianas: a sociedade não aceitou o silêncio. Houve um tempo, não tão distante, em que violências assim seriam tratadas como “coisa menor”, uma peraltice juvenil, algo a ser ignorado, como jogar lixo pela janela do carro. Maltratar um animal “que não é de ninguém” era nada. Como ser preconceituoso sem culpa. Hoje, não. Hoje há indignação. E isso diz muito sobre um avanço civilizatório que ainda insiste em sobreviver, apesar dos pesares.

Diante disso, a pergunta incômoda se impõe: nossa legislação é suficiente? A resposta honesta talvez doa tanto quanto a história de Orelha. Há punição justa para adolescentes que cometem barbáries conscientes, planejadas, sabidamente cruéis? Ou seguimos protegendo a violência com o manto da leniência legal, enquanto, ao mesmo tempo, ameaças a testemunhas, tentativas de intimidação e corrupção moral dos adultos, os mesmos que deveriam educar, seguem se achando impunes?

Refletir sobre leis mais duras não é clamar por vingança. É discutir responsabilidade. É reconhecer que há idades em que se sabe exatamente o que se está fazendo — e se escolhe fazer assim mesmo. Ignorar isso é apostar num futuro ainda mais violento.

Orelha morreu. E nada o trará de volta. Mas a dor que ele simboliza ainda pode servir para algo maior: um freio. Um alerta. Um espelho desconfortável sobre que juventude estamos formando, que limites estamos deixando de impor e que tipo de sociedade estamos tolerando construir.

E parafraseando o colunista Oscar Besse “Quando a crueldade vira brincadeira, não é só um cachorro que morre. É um pouco da nossa humanidade que sangra junto”. Sangra junto em busca de justiça por um ser indefeso que só sabia oferecer amor. Em troca? O Orelha recebeu o peso da covardia, ou melhor: psicopatia de criminosos cientes da impunidade.

Leia também

Últimas

error: Este Conteúdo é protegido! O Perfil News reserva-se ao direito de proteger o seu conteúdo contra cópia e plágio.