Neste ‘Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência’, conheça ações e projetos que contribuem para o protagonismo feminino no universo científico
Celebrado em 11 de fevereiro desde 2015, o Dia Internacional de Mulheres e Meninas na Ciência foi instituído pela Assembleia Geral das Nações Unidas como forma de promover a participação delas no universo científico e tecnológico. Nas instituições de ensino, incentivar meninas e mulheres a se tornarem cientistas é algo desafiador. No Instituto Federal de Mato Grosso do Sul (IFMS), ações desenvolvidas em Dourados e Três Lagoas buscam encorajar esse público a, cada vez mais, marcar presença em ambientes de ciência e tecnologia.
O projeto de pesquisa ‘Mitãkuña’Ikuerã: empoderando as meninas nas ciências exatas pela leitura e escrita’ tem um objetivo ainda mais específico: estimular que meninas indígenas de Dourados sigam carreira na área de Exatas, e que esse caminho comece a ser trilhado dentro do próprio IFMS.
A orientadora Karina Vicelli, que dá aulas de Português no Instituto Federal, conta que o projeto nasceu a partir da coleta de dados sobre o número de estudantes meninas em Dourados, inclusive no IFMS.
“Descobrimos que entre 2015 e 2025 o campus teve apenas 11 estudantes indígenas, dos quais quatro eram meninas e apenas uma se formou. E nós estamos em Dourados, município com a segunda maior população indígena de Mato Grosso do Sul, estado que é o terceiro do país com o maior número de habitantes indígenas”, reflete.
Financiado pela Chamada n° 14/2024 – Edição 4 do Programa de Iniciação Científica e Tecnológica (Pitec) da Fundação de Apoio ao Desenvolvimento do Ensino, Ciência e Tecnologia do Estado de Mato Grosso do Sul (Fundect/MS), o projeto de pesquisa recebeu o nome Mitãkuña’Ikuerã, expressão da língua indígena guarani que significa meninas.
“Criamos o projeto para atuar diretamente com as comunidades indígenas e trazer essas meninas para dentro do IFMS. O objetivo é que elas façam o Exame de Seleção e ingressem na instituição. Uma das ações é oferecer reforço em uma escola municipal indígena, principalmente para as meninas do 8º e 9º anos”, explica a docente.
Na primeira etapa, foram feitas reuniões semanais para definição de estratégias, divisão de tarefas e estabelecimento de contatos. Ao mesmo tempo, a equipe visitou escolas parceiras para fazer sondagens por meio de entrevistas, debates e diálogo com meninas e mulheres, e aplicou um questionário para quantificar dados e definir a oferta de atividades.
Entre as atividades previstas estão oficinas, palestras, mesas-redondas e debates em que a leitura e a escrita são os principais instrumentos de letramento racial.
Primeiros Resultados
O projeto tem se destacado em eventos científicos, sendo um dos finalistas da Feira Brasileira de Ciências e Engenharia (Febrace), que ocorrerá em março, na cidade de São Paulo (SP). O credenciamento foi obtido na Feira de Ciência e Tecnologia da Grande Dourados (Fecigran), realizada pelo Campus Dourados em outubro.
Em 2025, o Mitãkuña’Ikuerã obteve o 1º lugar na área de Ciências Sociais Aplicadas da Feira de Ciência e Tecnologia da Nações, promovida pelo Colégio Dante Alighieri, em São Paulo (SP). A equipe do IFMS foi credenciada para a Mostra de Ciência e Tecnologia do Instituto Açaí, que será realizada em dezembro deste, em Belém (PA).
Ações do projeto, segundo a coordenadora, também influenciaram diretamente na publicação do livro Koa Kuera (A Arte Cura, traduzido para a Língua Portuguesa), da multiartista Guarani-Kaiowá Jadi Ribeiro, agente territorial de cultura da retomada Yvu Vera, localizada ao lado da Reserva Jaguapiru.
A obra, primeiro registro literário escrito por uma mulher indígena em Dourados, traz 14 poemas que abordam, nas línguas Guarani e Portuguesa, questões urgentes da população indígena contemporânea. O prefácio foi escrito pela coordenadora do projeto desenvolvido pelo IFMS na área de retomada.
“Foi extremamente relevante, após alguns meses de ações, eu receber o convite da Jadi Ribeiro para escrever o prefácio do livro Koa Kuera. Podemos dizer que o lançamento dessa obra já é resultado do nosso projeto, que busca empoderar meninas e mulheres indígenas por meio da leitura e da escrita. E em 2026, prevemos trabalhar os poemas com as crianças da retomada e de outras aldeias”, explica a professora Karina.
A versão digital do livro Koa Kuera já está disponível para a leitura, bem como o audiolivro da obra.
Empoderadas
Sete estudantes dos cursos técnicos em Administração e Informática para Internet participam do projeto, sendo quatro bolsistas: Lorena Gomes, Julia Gomes, Kamilly de Souza e Vitória Coiad; e três voluntárias: Nathaly Ribeiro, Sthefani Marques e Juliana Pereira, as duas últimas indígenas.
A coordeadora do projeto explica que a intenção inicial era ter um número maior de estudantes indígenas bolsistas na equipe, mas lamenta que não foi possível.
“Nós temos, atualmente, três estudantes indígenas identificadas no Campus Dourados. Uma delas já recebe bolsa em outro projeto, então não poderia receber pelo Mitãkuña’Ikuerã. As outras duas estão no 6º semestre do curso, e o edital do Pitec veda o pagamento de bolsa a estudantes que estejam perto de se formar”, explica.
As quatro estudantes bolsistas receberão o valor mensal de R$ 400 até abril para desenvolver as atividades. É o caso de Vitória Silva Coiado, 17, que ressalta a união e o trabalho colaborativo da equipe do projeto.
“Participamos do planejamento e execução das atividades, da produção de documentos e materiais de mídia, do estudo teórico e da análise das dificuldades enfrentadas pelas meninas indígenas, sempre buscando estratégias para superar esses desafios. Tenho habilidade com comunicação e utilizo isso para fortalecer o diálogo, transmitir ideias com sensibilidade e dar visibilidade às histórias e vozes que movem o projeto”, destaca.
Filha e neta de professores, Vitória cresceu vendo os familiares desenvolverem projetos que abordam temáticas culturais e sociais. Para a estudante, o contato com as meninas indígenas é inspirador.
“Ver de perto o quanto essa iniciativa impacta vidas, comunidades e sonhos é algo indescritível. Eu me sinto honrando as mulheres que vieram antes de mim, levando adiante uma mensagem que atravessa gerações: o empoderamento feminino. Viver o Mitakuna’lkuera me enche de orgulho, mas ver outras meninas florescendo através dele é o que realmente faz tudo valer a pena”, finaliza.
Na rota do protagonismo feminino científico
Desde 2023, o Campus Três Lagoas do IFMS é a única instituição de ensino da Região Centro-Oeste a sediar a Jornada Latinoamericana de Oficinas STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). O evento faz parte do Ada Lovalace Day, ação internacional que leva o nome da primeira programadora da história e que comemora as conquistas das mulheres em carreiras das áreas de Exatas.
O IFMS tem sido escolhido todos os anos para sediar a Jornada graças a uma parceria com o Comitê Temático Mulheres na Matemática Aplicada e Computacional da Sociedade Brasileira de Matemática Aplicada e Computacional (SBMAC), do qual a professora de Matemática do Campus Três Lagoas, Nair Rodrigues de Souza, faz parte.
“A Jornada Latinoamericana de Oficinas em STEM para meninas foi pensada e desenvolvida por um grupo de pesquisadoras argentinas. Eu e as demais professoras do campus que atuam nessas áreas aceitamos o convite de oferecer as atividades, e desde então estamos sediando o evento”, conta.
A docente explica que cada sede define a forma de seleção das meninas que irão participar das oficinas. O IFMS tem uma parceria com três escolas municipais – Ramez Tebet, Maria Eulália Vieira e Parque São Carlos -, que ficam responsáveis por selecionar as estudantes com idades que variam de 10 a 12 anos.
Em outubro do ano passado, a Jornada foi realizada simultaneamente em diversos países da América Latina, com chamadas síncronas entre as participantes, além de duas oficinas lúdicas e um tour pelo campus do IFMS para conhecerem os laboratórios da instituição.
Beatriz Sousa Rocha, 12, aluna do 6° ano da Escola Municipal Parque São Carlos, guardou várias memórias desse dia repleto de conhecimento e muita diversão.
“A Jornada foi muito legal, aprendi coisas novas, fiz amizades e foi muito divertido. A atividade que eu mais gostei foi a que a gente tinha que descobrir qual parte do avião ia cair, se atacassem ele. Acho muito legal ver mulheres conquistados espaços importantes e inspirando outras mulheres”, relembra Beatriz, que já pediu aos pais para fazer o ensino médio no IFMS.
Outras ações
Em um artigo submetido no ano passado sobre o tema, a docente que coordena a Jornada Latinoamericana de Oficinas STEM no Campus Três Lagoas trouxe dados sobre a participação feminina em projetos científicos na instituição. Em 2024, segundo o artigo, dos 143 projetos de pequisa desenvolvidos no IFMS, apenas 37 eram coordenados por mulheres. Cenário semelhante foi registrado nos anos de 2023 e 2022.
“Esses dados têm causado inquietação em nós professoras do campus, e há mais de cinco anos temos desenvolvido ações para incentivar mulheres e meninas nas áreas das Exatas. Além de sediarmos a Jornada Latinoamericana de Oficinas STEM , nós também desenvolvemos o Meninas Fazendo Ciência, que busca divulgar mulheres cientistas e ter um olhar feminino para a ciência”, comenta.
As atividades desenvolvidas nessa outra iniciativa podem ser conferidas no site Meninas Fazendo Ciência, e também no perfil da ação no Instagram.
Sobre os obstáculos que as mulheres precisam vencer para chegar e se manter no universo da ciência e tecnologia, Nair cita o peso de ter que conciliar a carreira com os cuidados da casa e da família, algo que – na opinião da docente – ainda é uma expectativa social e cultural, bem como a discriminação e o preconceito de gênero.
“Muitas vezes, as mulheres ainda são vistas como menos capazes em campos de exatas e tecnologia, o que pode afetar questões relacionadas à contratação, promoção, reconhecimento de habilidades e disparidade salarial em relação aos homens. Além disso, em ambientes de presença majoritariamente masculina, há registros de casos de assédio moral e sexual contra mulheres. Todos esses desafios diários tendem a afetar a saúde mental de todas nós que atuamos em STEM”, lamenta a professora.
Elas no IFMS
Desde 2021, o IFMS fomenta a participação feminina no universo científico por meio do edital Meninas e Mulheres na Ciência, que financia projetos de pesquisa desenvolvidos por professoras e alunas. Somados todos os editais, o investimento institucional para custeio e bolsas ultrapassa meio milhão de reais.
A iniciativa foi adotada porque, historicamente, o IFMS sempre registrou um número inferior de meninas bolsistas no edital de iniciação científica, em comparação ao número de meninos.
Em 2024, porém, esse cenário se inverteu, se comparado ao ano anterior, e se manteve em 2025. Segundo a Pró-Reitoria de Pesquisa, Inovação e Pós-Graduação (Propi), no ciclo atual da iniciação científica são 132 bolsistas do sexo feminino e 108 do sexo masculino.
O dado, na opinião da docente que coordena as iniciativas de Três Lagoas citadas nesta reportagem, deve ser celebrado, porém ainda há muitos desafios a serem superados quando o assunto é a participação da mulher na ciência.
“A presença de mulheres no IFMS ainda é minoria, então precisamos fortalecer, enaltecer e valorizar o trabalho desempenhado por mulheres, seja como proponente de pesquisa ou estudantes. E, principalmente, a instituição como um todo necessita trabalhar isso, pois ainda temos muito episódios de preconceito e discriminação”, comenta Nair.








