Três Lagoas vive um ciclo acelerado de expansão que reposiciona o município como eixo estratégico do leste sul-mato-grossense. Com densidade populacional semelhante à de Santa Cruz do Sul (RS), a cidade segue trajetória distinta, marcada por crescimento industrial mais recente e pressionado
Três Lagoas consolidou-se como cidade âncora de uma região que vive um novo ciclo de desenvolvimento puxado pelo setor de papel e celulose. Todos os grandes investimentos que chegam ao chamado Vale da Celulose passam, de forma direta ou indireta, pelo município.

O caso mais emblemático é o megaprojeto da chilena Arauco, que constrói uma nova planta industrial em Inocência. Embora a fábrica esteja sendo erguida em uma cidade com pouco mais de 8 mil habitantes, boa parte da engrenagem administrativa e operacional gira em torno de Três Lagoas.
É no município que funcionam escritórios, processos de contratação, exames médicos admissionais e etapas de regularização trabalhista. Engenheiros, técnicos e profissionais especializados fixam residência em Três Lagoas, reforçando sua posição como base logística e de serviços para toda a região leste do Estado.
EMPREGOS, FALTA DE MÃO DE OBRA E PRESSÃO IMOBILIÁRIA

O avanço industrial trouxe forte geração de emprego e renda. Ao mesmo tempo, criou gargalos. Empresas relatam dificuldade para preencher vagas técnicas e operacionais, evidenciando escassez de mão de obra qualificada.
O mercado imobiliário sente o impacto. A alta demanda elevou o valor dos aluguéis e reduziu a oferta de imóveis disponíveis. O setor hoteleiro também opera frequentemente no limite. Mesmo com uma rede considerável de hotéis, visitantes que chegam sem reserva prévia podem enfrentar dificuldades para encontrar hospedagem.

O crescimento também é visível nas ruas. O aumento da frota de veículos, somado ao trânsito de caminhões ligados à cadeia da celulose, pressiona a mobilidade urbana e exige investimentos constantes em infraestrutura viária.
IMPACTOS SOCIAIS E AUMENTO DA VULNERABILIDADE

O dinamismo econômico transformou Três Lagoas em polo de atração para trabalhadores de diversas regiões do país. No entanto, parte desse fluxo acaba ampliando desafios sociais.
A cidade registra crescimento no número de pessoas em situação de rua e usuários de drogas vindos de outros estados, o que pressiona os serviços de assistência social e segurança pública. O município cresce, mas precisa ampliar sua capacidade de acolhimento e atendimento às demandas sociais que acompanham o desenvolvimento.
ESTRUTURA PÚBLICA NÃO ACOMPANHA O RITMO
O crescimento acelerado contrasta com limitações na estrutura dos serviços públicos, muitos deles de responsabilidade estadual.

Nesta semana, uma forte tempestade atingiu diferentes bairros e provocou alagamentos severos. Em alguns pontos, a água invadiu residências e chegou próximo à altura do corpo dos moradores. Durante a madrugada, houve relatos de insuficiência de viaturas para atender a demanda emergencial. Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Polícia Militar Ambiental enfrentaram dificuldades operacionais diante do volume de ocorrências.
A preocupação vai além das enchentes. Com a verticalização crescente da cidade, o Corpo de Bombeiros não dispõe de escada de grande porte para atendimento a prédios mais altos em caso de incêndio. A cidade cresce em altura e complexidade, mas os equipamentos não evoluem na mesma proporção.
O GARGALO DO AEROPORTO

Outro ponto crítico é a infraestrutura aeroportuária. Até alguns anos atrás, o município contava com voos regulares operados pela Passaredo e, posteriormente, pela Azul. Atualmente, não há voos comerciais regulares partindo de Três Lagoas.
A pista, com mais de 20 anos, necessita de reforço estrutural para suportar aeronaves de maior porte e não possui homologação para operação por instrumentos. Isso limita pousos em condições climáticas adversas e reduz a competitividade do município.
Empresários e investidores que não possuem aeronaves próprias precisam desembarcar em cidades como São José do Rio Preto, Araçatuba, Presidente Prudente ou Campo Grande, percorrendo depois centenas de quilômetros por rodovia até chegar a Três Lagoas. Para uma cidade que se tornou plataforma regional de investimentos, a ausência de voos comerciais regulares representa um entrave logístico significativo.
SANTA CRUZ DO SUL: REALIDADE DIFERENTE NO RIO GRANDE DO SUL
Enquanto Três Lagoas vive um ciclo de expansão industrial acelerada, Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, construiu sua força econômica ao longo de décadas, com base histórica ligada ao setor do tabaco e forte presença do setor de serviços.
A comparação expõe realidades diferentes entre municípios de porte parecido. O desafio local é fazer infraestrutura e serviços acompanharem a velocidade dos investimentos. No caso sul-mato-grossense, o desafio é garantir que infraestrutura, segurança e serviços públicos acompanhem o ritmo intenso de investimentos. Três Lagoas deixou de ser apenas uma cidade média do interior. Hoje é um eixo decisivo para o desenvolvimento regional.



