Já aposentada, ela relembra com orgulho da carreira feita em uma época em que a inclusão era pouco discutida
Identificar cadáveres em necrotério de cemitério, participar de barreiras policiais e atuar na linha de frente. Essa foi a rotina de trabalho de Rosa Maria Batista Santos, de 65 anos, que entrou para a história como a primeira mulher com deficiência a integrar a Polícia Civil de Mato Grosso do Sul.
Hoje, já aposentada, Rosa relembra com orgulho da carreira construída em uma época em que a inclusão ainda era pouco discutida dentro das instituições. Nascida com focomelia, uma condição que faz com que os braços sejam mais curtos, ela nunca deixou que a deficiência fosse vista como limite para realizar o sonho de trabalhar na polícia.
Rosa conta que entrou na corporação em 1981, poucos anos após a criação de Mato Grosso do Sul. Na época, o Estado ainda estruturava seus órgãos públicos e o concurso para a área ainda não existia. Quando a seleção foi realizada, em 1986, ela prestou a prova, foi aprovada e passou para a primeira turma da Academia de Polícia.
Formada como papiloscopista policial, função responsável pela identificação de pessoas pelas impressões digitais, Rosa começou a carreira no Instituto Médico Legal em Campo Grande. Depois foi transferida para Bataguassu, onde enfrentou algumas das experiências mais marcantes da profissão.
Naquele período, a cidade ainda não tinha estrutura do IML (Instituto Médico Legal) e a identificação de corpos era feita no necrotério do cemitério. Segundo ela, o trabalho exigia esforço físico e improviso. “Era no chão do necrotério. Eu precisava abaixar e chegar bem perto do cadáver para fazer a identificação”, lembra.
Mesmo diante das dificuldades, Rosa nunca evitou as tarefas consideradas mais difíceis. Pelo contrário, fazia questão de participar. “Eu fazia com a maior felicidade do mundo, porque a gente passa a ter amor pela profissão”, afirma.
Durante a carreira, ela também trabalhou na Diretoria-Geral da Polícia Civil, no 1º Distrito Policial de Campo Grande, na Delegacia da Mulher e em postos de identificação. Em várias ocasiões participou de barreiras policiais, ajudando na verificação de documentos e na identificação de veículos roubados ou irregulares.
Apesar de ter iniciado a trajetória de trabalho em um período com menos políticas de inclusão, Rosa afirma que sempre recebeu apoio dentro da corporação. “Eu só tenho a agradecer. As chefias sempre me ajudaram e eu nunca sofri discriminação”, destaca. Com dedicação ao trabalho, ela também alcançou a classe especial da carreira, o nível mais alto da função.

Em 1997, Rosa conta que a vida apresentou um novo desafio. Durante a gravidez da filha Sarah, Rosa descobriu que a menina tinha um grave problema cardíaco e precisaria de transplante. Para acompanhar o tratamento, ela decidiu deixar a carreira policial e se mudar para o Paraná.
Foram cerca de 12 anos dedicados à saúde da filha, que passou por nove cirurgias cardíacas. Com o tempo, o transplante acabou não sendo necessário. Anos depois, já com a situação estabilizada, Rosa voltou a trabalhar quando foi inaugurada a Casa da Mulher Brasileira, em Campo Grande.
Somando o tempo de serviço anterior com os anos de atuação no novo posto, ela se aposentou em 2021 e deixou aberto o caminho para outras pessoas com deficiência. Hoje, longe da rotina policial, ela aproveita a tranquilidade da aposentadoria, mas admite sentir saudade da profissão que marcou grande parte da sua história.
Para ela, a própria história prova que limitações não precisam definir o destino de ninguém. “Minha deficiência não me impediu em nada de trabalhar e fazer um serviço bem feito por muitos anos. Quando a gente quer, a gente mostra que consegue”, finaliza.
Fonte: Campo Grande News (por Clayton Neves)







