A situação reacende preocupação com custo de produção agrícola e expõe abandono da fábrica da UFN3 em Três Lagoas, que segue parada; Quando concluída, será a maior fábrica de fertilizantes nitrogenados da América Latina
Por: Nathália Santos
A escalada da guerra envolvendo o Irã no Oriente Médio já começa a provocar reflexos diretos no agronegócio global e brasileiro. Um dos sinais mais claros desse impacto é a disparada nos preços da ureia, fertilizante essencial para a produção agrícola, e a redução nas negociações no mercado internacional.
Dados recentes do mercado mostram que a ureia granulada passou a ser negociada entre US$ 500 e US$ 550 por tonelada, acima do patamar de US$ 475 a US$ 485 registrado poucos dias antes, refletindo o aumento das tensões geopolíticas e o risco de interrupções nas rotas marítimas de exportação.
O aumento ocorre em meio às incertezas sobre o fluxo de mercadorias na região do Golfo Pérsico e no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global de energia e fertilizantes. Caso o conflito se prolongue e as rotas comerciais sejam afetadas, especialistas alertam que o impacto pode ir além do custo dos combustíveis e atingir também os preços dos alimentos.
FERTILIZANTES NO CENTRO DA CRISE
A ureia é um dos fertilizantes nitrogenados mais utilizados na agricultura moderna. O produto é aplicado em diversas culturas importantes para o Brasil, como milho, cana-de-açúcar, café, trigo e algodão.
Grande parte da produção mundial desse insumo está concentrada justamente no Oriente Médio, região que hoje enfrenta tensões militares. O temor de interrupções no transporte marítimo e nas exportações tem levado compradores e vendedores a reduzir negociações enquanto aguardam maior clareza sobre o cenário internacional.
No caso brasileiro, o impacto tende a ser ainda mais sensível. O país depende fortemente da importação de fertilizantes, o que o deixa vulnerável a oscilações geopolíticas e logísticas. Uma crise prolongada pode elevar os custos de produção no campo e, consequentemente, pressionar o preço final dos alimentos ao consumidor.
DEPENDÊNCIA EXTERNA EXPÕE GARGALO NO BRASIL

A situação reacende o debate sobre a dependência brasileira de fertilizantes importados. Um exemplo simbólico dessa fragilidade é a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados 3, a UFN-3, localizada em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul.
A obra da fábrica foi iniciada em 2011 e acabou paralisada em 2014. Desde então, o projeto permanece incompleto há mais de uma década.
Quando concluída, a planta terá capacidade para produzir cerca de 1,2 milhão de toneladas de ureia por ano, além de aproximadamente 70 mil toneladas de amônia, matéria-prima usada na fabricação de fertilizantes nitrogenados.
A unidade é considerada estratégica porque poderia reduzir parte da dependência brasileira de importações. O Brasil consome milhões de toneladas de ureia por ano e uma parcela significativa desse volume vem do exterior.
RETOMADA DA OBRA VOLTA AO DEBATE
Nos últimos meses voltaram a circular informações sobre a possibilidade de retomada das obras da UFN-3 ainda no primeiro semestre deste ano. Caso o projeto avance, a fábrica poderá ajudar a ampliar a produção nacional de fertilizantes nitrogenados.
Em abril de 2024, o então presidente da Petrobras, Jean Paul Prattes, visitou a planta e informou que serão necessários R$ 5 bilhões em investimentos para concluir a obra, com expectativa de início de operação em 2028.
O modelo atual prevê a produção de 3,6 mil toneladas diárias de ureia e 2,2 mil toneladas de amônia, consumindo 2,3 milhões de metros cúbicos de gás natural por dia. Quando concluída, será a maior fábrica de fertilizantes nitrogenados da América Latina.



