Paralisada há mais de uma década em Três Lagoas, obra estratégica para produção de fertilizantes pode reduzir dependência externa e ajudar o país a produzir mais com menor custo no campo
A ampliação da competitividade do agronegócio brasileiro passa, cada vez mais, pela consolidação de uma infraestrutura industrial robusta e pela redução da dependência de insumos importados. Nesse cenário, a retomada da UFN-3 (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados), em Três Lagoas, volta ao centro do debate nacional como um projeto estratégico para garantir segurança produtiva ao campo e contribuir para a redução de custos da produção agrícola.
Paralisada desde 2015, com cerca de 80% das obras concluídas, a fábrica de ureia e amônia construída pela Petrobras representa uma das maiores iniciativas industriais do setor de fertilizantes no país. A retomada do empreendimento, estimado em aproximadamente R$ 3,5 bilhões, entra agora em uma nova fase de licitações e contratações, etapa que antecede o reinício efetivo das obras.

Segundo o cronograma preliminar divulgado pela Petrobras, o projeto deve avançar nesse ano com processos licitatórios divididos em blocos de obras. A decisão final de investimento (FID) está prevista para o primeiro semestre de 2026, dentro do Plano de Negócios 2026–2030 da companhia. Caso aprovado, o reinício das obras ocorrerá logo em seguida, com previsão de pré-operação em 2028 e conclusão da planta em 2029.
CAPACIDADE PRODUTIVA
Quando finalizada, a unidade terá capacidade anual para produzir cerca de 1,2 milhão de toneladas de ureia e 70 mil toneladas de amônia, insumos essenciais para culturas estratégicas do agronegócio brasileiro, como soja, milho e cana-de-açúcar. A produção local desses fertilizantes pode representar um avanço importante na redução da vulnerabilidade do país à volatilidade do mercado internacional.
Hoje, o Brasil figura entre os maiores produtores agrícolas do planeta, mas ainda depende fortemente da importação de fertilizantes. Essa dependência expõe o setor a oscilações cambiais, crises geopolíticas e gargalos logísticos globais, fatores que impactam diretamente o custo de produção no campo e, consequentemente, os preços ao consumidor.
Para especialistas do setor produtivo, projetos industriais de grande escala como a UFN-3 ultrapassam a dimensão econômica local e se tornam pilares estratégicos para a segurança da cadeia agroindustrial. A infraestrutura industrial voltada à produção de insumos agrícolas contribui para reduzir riscos sistêmicos e fortalecer a autonomia produtiva do país.
BASE DO AGRO
“A indústria de fertilizantes é a base do agro. Sem ela, a competitividade da produção agrícola fica vulnerável ao mercado externo. Quando indústria, logística e capital humano avançam de forma alinhada, cria-se a base necessária para sustentar competitividade no longo prazo”, avaliam analistas do setor.
A história do empreendimento, no entanto, também carrega um longo período de incertezas. A construção da unidade teve início em setembro de 2011, após a contratação do consórcio formado pela chinesa Sinopec e pela Galvão Engenharia. O projeto enfrentou interrupções e acabou paralisado em janeiro de 2015, deixando um rastro de prejuízos a fornecedores locais.
Empresas da região que participaram da fase inicial da obra recorreram à Justiça para cobrar pagamentos e indenizações, processos que ainda aguardam desfecho judicial. O histórico de paralisações também gerou descrédito entre antigos fornecedores, que afirmam que só acreditarão na retomada efetiva quando as novas contratações forem formalizadas e os canteiros de obra voltarem a operar.
Apesar do passado turbulento, a retomada da UFN-3 reacende expectativas entre empresários e lideranças regionais. O empreendimento pode gerar entre 3 mil e 5 mil empregos diretos no pico das obras e até 10 mil postos indiretos na cadeia produtiva durante a fase de construção. Após a conclusão, a planta deve manter centenas de empregos qualificados permanentes.
ECONOMIA AGRÍCOLA
Para Três Lagoas e para o Mato Grosso do Sul, a unidade também representa a possibilidade de consolidar ainda mais o polo industrial da região, que já se destaca nacionalmente no setor de celulose e logística. A presença de uma grande indústria química tende a atrair novos fornecedores, ampliar a base industrial e fortalecer serviços técnicos e logísticos.
No contexto nacional, o avanço de projetos como a UFN-3 reforça um ponto cada vez mais discutido entre especialistas em economia agrícola: para produzir mais, com custos menores e maior estabilidade de preços ao consumidor, o Brasil precisa fortalecer sua base industrial ligada ao agronegócio.
Investimentos em produção local de fertilizantes, ampliação da infraestrutura logística, qualificação de mão de obra e estímulo à inovação tecnológica são considerados fatores decisivos para sustentar o crescimento do setor nas próximas décadas.
Mais do que uma obra industrial, a conclusão da UFN-3 pode representar um passo relevante na construção de um sistema agroindustrial mais autônomo, resiliente e competitivo — condição fundamental para que o Brasil continue ampliando sua produção de alimentos com maior eficiência e menor custo ao longo da cadeia produtiva.


