Líder nas exportações do Estado, material essencial no cotidiano também movimenta bilhões
Por: Nathália Santos
Imagine acordar e perceber que itens comuns simplesmente desapareceram: o papel higiênico não está mais no banheiro, embalagens sumiram das prateleiras e até o filtro de café deixou de existir, assim como as fraudas descartáveis e até os livros que você guarda na sua estante.
O cenário parece improvável, mas serve como ponto de partida para entender o papel estratégico da celulose, especialmente em Mato Grosso do Sul. Mais do que presente no cotidiano, o material é hoje o principal produto da pauta de exportações do Estado.

Dados divulgados pela Secretaria de Meio Ambiente, Desenvolvimento, Ciência, Tecnologia e Inovação (Semadesc) mostram que Mato Grosso do Sul alcançou, em 2025, um recorde histórico de US$ 10,7 bilhões em exportações.
Nesse total, a celulose lidera com cerca de 28,9% de participação, à frente de commodities tradicionais como a soja e a carne bovina. Na prática, isso significa que quase um terço de tudo o que o Estado vende ao exterior depende diretamente da produção de celulose.
IMPACTO IMEDIATO NA INDÚSTRIA

Em um cenário hipotético de desaparecimento do material por 24 horas, os primeiros efeitos seriam percebidos dentro de casa, com a falta de itens básicos.
No entanto, os impactos mais significativos ocorreriam rapidamente na economia.
A paralisação da cadeia produtiva seria imediata. Mato Grosso do Sul consolidou-se como um dos principais polos de produção de celulose do país, com fábricas de grande escala voltadas majoritariamente à exportação.
Sem o produto, unidades industriais interromperiam operações, contratos internacionais seriam afetados e a circulação de mercadorias sofreria desaceleração.
LOGÍSTICA, EFEITO EM CADEIA E EXPORTAÇÕES
O impacto não se limitaria às indústrias, no caso específico de MS, Eldorado Brasil e a Suzano. A celulose movimenta rodovias, ferrovias e portos, integrando uma cadeia que envolve transporte, armazenamento e distribuição.
Sem esse fluxo, haveria comprometimento da logística, com reflexos em diversos setores da economia. O efeito seria em cadeia, atingindo atividades que dependem direta ou indiretamente do setor.
A relevância da celulose também se reflete no mercado internacional. O produto ocupa posição de destaque nas exportações sul-mato-grossenses para diversos países. Uma interrupção, ainda que temporária, poderia afetar o cumprimento de contratos, pressionar o saldo da balança comercial e comprometer a competitividade do Estado.
DO COTIDIANO À ECONOMIA
O exercício evidencia um contraste. No dia a dia, a celulose aparece principalmente em produtos simples e descartáveis. No entanto, sua relevância econômica é estrutural, sustentando cadeias produtivas, geração de empregos e receitas de exportação.
Mesmo em um contexto de crescente digitalização, a economia segue ancorada em bases físicas. Embalagens, transporte e processos industriais continuam dependentes desse tipo de matéria-prima.
Em reportagem anterior, o Perfil News mostrou que a celulose movimentou, inclusive a produção de papelão ondulado, que é hoje o principal insumo das embalagens utilizadas no e-commerce. Dados da Associação Brasileira de Embalagens em Papel (Empapel) indicam que a expedição de papelão ondulado no país tem registrado volumes elevados nos últimos anos, acompanhando o ritmo do varejo digital.
Em 2024, foram expedidos 4,2 bilhões de papelão ondulado, um aumento de 5% comparado com 2023, quando foram expedidos 4 bilhões de toneladas.
Os dados da Empapel ainda mostram que, na comparação mundial, o Brasil se encontra na sexta posição dos principais países produtores de papelão ondulado. O Brasil foi o país que mais avançou na
expedição entre 2024 e 2023, ao crescer 5,0%. Em seguida, os maiores crescimentos vieram da China (3,3%), Itália (3,0%) e Índia (2,5%).
A cadeia produtiva começa na floresta plantada, passa pela produção de celulose, segue para as fábricas de papel e chega às indústrias de embalagens. Empresas como a Klabin e a Suzano são protagonistas nesse processo, seja na produção de celulose, seja na fabricação de papéis voltados ao segmento de embalagens.
POLO MUNDIAL

Vale lembrar que a Suzano consolidou Mato Grosso do Sul como um dos principais polos mundiais de produção de celulose. A empresa é hoje a maior produtora global de celulose de eucalipto, com capacidade instalada de aproximadamente 13,5 milhões de toneladas por ano no Brasil. Em 2024, registrou volume recorde de vendas, superior a 12 milhões de toneladas de celulose e papel.
No estado, as unidades de Três Lagoas e Ribas do Rio Pardo somam cerca de 5,8 milhões de toneladas anuais de capacidade instalada, o que coloca Mato Grosso do Sul como eixo central da estratégia industrial da companhia. A fábrica de Ribas do Rio Pardo, resultado do Projeto Cerrado, adicionou sozinha 2,55 milhões de toneladas à capacidade da empresa e é considerada uma das maiores linhas únicas de produção do mundo.
O movimento das embalagens de papelão também é influenciado pela substituição gradual do plástico por materiais de base renovável, impulsionada por metas ambientais e políticas de sustentabilidade adotadas por grandes varejistas e marketplaces.

