Após uma infância e um relacionamento marcados pela violência, mulher encontra no trabalho no setor florestal a oportunidade de recomeçar, conquistar autonomia e transformar dor em força para seguir em frente
A estrada que hoje Rosires Anselmo percorre com firmeza e responsabilidade nem sempre foi sinônimo de liberdade. Durante muitos anos, ela representou fuga, medo e sobrevivência. Hoje, aos 35 anos, caminhoneira de tritrem há um ano e meio, mãe de três filhos e moradora de Três Lagoas (MS), Rosires dirige não apenas um caminhão de grande porte — ela conduz a própria história, reescrita com coragem e persistência.
TRAJETÓRIA

Sua trajetória começa em um cenário difícil. Ainda criança, presenciava a mãe sendo vítima de agressões dentro de casa. A violência, infelizmente, não ficou no passado: anos depois, já adulta, ela se viu repetindo o mesmo ciclo em seu primeiro casamento. Foram oito anos marcados por abusos, sofrimento emocional e um quadro de depressão que a colocou diante de um dos momentos mais delicados de sua vida.
Ao mesmo tempo, enfrentava outras dificuldades dentro de casa, como as agressões que sua mãe sofria, o que tornava o ambiente familiar ainda mais instável. Tornar-se mãe aos 17 anos trouxe responsabilidades precoces e exigiu uma maturidade que a vida impôs antes do tempo. Mas foi justamente no limite que surgiu a decisão que mudaria tudo.
RECOMEÇO
Em um ato de coragem, Rosires precisou fugir para preservar a própria vida e encontrar um novo começo. Foi esse ponto de ruptura que abriu caminho para a reconstrução. Aos 19 anos, ela ingressou no setor de celulose, na área florestal, atuando no plantio de eucalipto. Era o início de uma nova etapa — ainda incerta, mas cheia de possibilidades.
INCENTIVOS E OPORTUNIDADES

Na empresa, encontrou mais do que um emprego. Encontrou apoio, estrutura e oportunidade. Ao longo dos anos, passou por diferentes funções, aprendeu novas atividades, operou máquinas, enfrentou desafios técnicos e pessoais, e, sobretudo, reconstruiu sua autoestima. Cada etapa vencida representava não apenas crescimento profissional, mas também uma vitória pessoal contra o passado que insistia em deixá-la para trás.
Com incentivo e qualificação da Suzano, Rosires avançou. E foi assim que chegou à função que hoje exerce com orgulho: motorista de caminhão tritrem. Em um setor historicamente dominado por homens, ela conquistou seu espaço com competência, responsabilidade e determinação. Há um ano e seis meses, faz parte de uma equipe feminina, simbolizando não apenas inclusão, mas também transformação.
Paralelamente à ascensão profissional, a vida pessoal também ganhou novos contornos. Rosires encontrou um relacionamento baseado em respeito, parceria e companheirismo. Seu atual marido, que também trabalha como caminhoneiro na mesma empresa, compartilha não apenas a profissão, mas um projeto de vida construído com equilíbrio e apoio mútuo.
ESSA É A HISTÓRIA DE VIDA DA ROSIRES
UMA NOVA VIDA
Juntos, conseguiram proporcionar uma vida mais estável e confortável para a família — algo que, no passado, parecia distante. Para Rosires, cada conquista tem um significado profundo: é o resultado direto do trabalho, da persistência e das oportunidades que abraçou ao longo do caminho.
Mais do que contar sua própria história, ela faz questão de dar voz a outras mulheres que ainda vivem em situação de violência. Sua trajetória se tornou um exemplo concreto de que é possível romper ciclos, reconstruir a vida e reencontrar a dignidade.
Rosires não romantiza o sofrimento que viveu — mas transforma essa experiência em propósito. Sua mensagem é clara: independentemente das circunstâncias, não se pode perder a fé. Seguir em frente, mesmo diante dos obstáculos, é um ato de resistência.
Hoje, ao assumir o volante de um tritrem, ela não carrega apenas carga — carrega uma história de superação que inspira, emociona e reforça uma verdade essencial: recomeçar é possível.
E, às vezes, tudo começa com coragem.



