Após desentendimento em treino de Jiu-Jitsu, garoto de 13 anos foi submetido a “surra”, narra pai revoltado
Adolescente de 13 anos precisou de atendimento médico após “corretivo” para suposto comportamento indisciplinado durante treinamento de Jiu-Jitsu em projeto social, mantido pela Prefeitura de Ribas do Rio Pardo. Após desentendimento com atleta graduado e irmão do professor, o garoto foi submetido a uma prática conhecida como “corredor polonês” e voltou para casa todo roxo.
Além de precisar levá-lo a hospital para ser medicado para dor e febre, a família decidiu não deixar por isso mesmo e procurou a Polícia Civil. O caso foi registrado como lesão corporal dolosa na delegacia da cidade e está sob investigação. O treinador Haroldo Gonçalves Inverso foi afastado da função e as aulas de Jiu-Jitsu suspensas temporariamente.
De acordo com o descrito no boletim de ocorrência, a agressão aconteceu na quinta-feira passada, dia 26 de março. O adolescente, aluno da modalidade há cerca de 45 dias, relatou que foi obrigado a atravessar um corredor formado por outros praticantes que lhe desferiam golpes com as faixas. Ele fez o “trajeto” quatro vezes, sem o quimono.
Por isso, chegou em casa com hematomas pelas costas e braços. O garoto passou por exame de corpo de delito que constatou lesões graves, conforme laudo assinado pelo médico Sidinei Henrique Lehm, mas em solo policial, o delegado Felipe Braga decidiu tratar o caso como de natureza leve.
“Não tem cabimento”, diz o serralheiro de 42 anos, pai do garoto. Ele afirma que ficou indignado ao ver o estado do filho após o treino. “Nem eu que sou pai posso bater, né? Ficamos chocados quando ele chegou todo roxo. Não tem cabimento isso não”.
O pai explica que buscou o esporte como forma de ajudar no desenvolvimento do menino. “A gente educa um filho, busca ajuda num projeto social e ele é surrado. Não tem lógica. Disseram: ‘vamos ter de dar um corretivo nesse guri’. Isso não existe. Hoje aconteceu com o meu menino e se eu não procurasse ajuda, continuaria acontecendo. Eu jamais ficaria quieto.”
O pai reforça que espera responsabilização na proporção do que diz a lei. “Sou um pai que enfrenta qualquer coisa pelos meus filhos. Só quero que a justiça seja feita”.
Segundo ele, o filho já está bem, mas ainda enfrenta consequências emocionais. “Ele está melhor agora. Mas ficou com medo das pessoas ficarem apontando o dedo para ele. Agora ele está com medo de ser chacota”.
Repercussão
O caso repercutiu para além de Ribas do Rio Pardo. A Federação Sul-Mato-Grossense de Jiu-Jitsu manifestou repúdio a qualquer forma de violência ou humilhação no esporte, destacando que atitudes que resultem em agressões não são compatíveis com a filosofia da modalidade. “O Jiu-Jitsu é, fundamentalmente, uma ferramenta de formação de caráter, respeito e disciplina. Atitudes que extrapolam a filosofia da arte suave e resultam em agressões não são endossadas, sob nenhuma circunstância, por esta entidade”.
Já a Confederação Brasileira de Jiu-Jitsu Desportivo e a International Brazilian Jiu-Jitsu Federation também condenaram o ocorrido, mas esclareceram que não possuem poder de fiscalização sobre academias ou profissionais, orientando que casos como este sejam tratados pelas autoridades competentes
Outro lado
O treinador se defende. “Eu não sou bandido, não cometi nenhum crime. Não tenho passagens na polícia, nunca bebi, nunca me droguei, sou servidor público do município de Ribas do Rio Pardo. As coisas não são da forma que o outro lado está falando”.
Nota de apoio ao trabalho de Haroldo foi divulgada e diz que o episódio do dia 26 de março foi isolado. “O Jiu-Jitsu de Ribas do Rio Pardo, alunos e parceiros vêm a público manifestar seu profundo respeito e apreço pelo trabalho desenvolvido pelo professor Haroldo Inverso”, começa o texto.
A nota diz ainda que o “corredor polonês” é uma prática tradicional, para fortalecer o “espírito de superação”. “Esclarecemos que o ocorrido no último dia 26 de março, envolvendo um aluno, trata-se de um episódio isolado que não reflete a conduta habitual de nossa equipe. A metodologia aplicada, conhecida no meio como ‘corredor polonês’, é uma prática tradicionalmente utilizada em diversas academias como instrumento para fortalecer o espírito de superação, disciplina e resiliência, valores fundamentais para a formação de qualquer atleta, especialmente aqueles que encontram no esporte uma ferramenta de ressocialização e afastamento de situações de conflito”.
Por fim, o texto lamenta que a situação “tenha adquirido contornos que não condizem com a realidade dos fatos”. “Acreditamos no devido processo legal e confiamos na rápida elucidação do caso, reafirmando nosso apoio ao professor e nossa fé no poder transformador do Jiu-Jitsu”.
Suspensão
A Prefeitura de Ribas do Rio Pardo informou que afastou preventivamente o servidor envolvido e instaurou um PAD (Processo Administrativo Disciplinar) para apurar o caso. As atividades de Jiu-Jitsu foram suspensas temporariamente.
A gestão afirmou que tomou medidas assim que teve acesso às informações e imagens do caso. “A administração municipal reforça que não compactua com qualquer conduta que possa colocar em risco a integridade física ou emocional de crianças e adolescentes, prezando sempre por ambientes seguros, respeitosos e alinhados aos princípios da boa prática esportiva e educacional.”
Fonte: Campo Grande News (por Anahi Zurutuza)





