23/06/2005 14h44 – Atualizado em 23/06/2005 14h44
Antonio Néres
SERÁ QUE SOMOS UM POVO DE ÍNDOLE PACÍFICA?Antonio NéresE intrigante observar, pelo reconhecimento histórico, em todos os séculos, em processo crescente, a presença dos conflitos armados, da agressão, da destruição. A violência, hoje, cresce de maneira assustadora. Praticamente, não existe área imune à prática de crimes. Das grandes cidades alcançam a zona rural. São crimes planejados, de dolo intenso. Ocorrem a qualquer hora. Os autores não se confinam em classes econômicas. Nem trazem a identidade exclusiva da incultura. A etiologia criminosa não se explica pela raça, pela cor, pela idade, pelo sexo, pela riqueza ou pela geografia. Não é mais possível atribuir exclusivamente à pobreza a criminalidade, embora irrecusável reconhecer tratar-se de fator importantíssimo. A sociedade está aterrorizada. O fato delituoso deixou de ser predominantemente individual para caracterizar ação de quadrilheiros. Os meios e a forma de execução são perversos e sofisticados. O noticiário freqüente da violência no Brasil vem desmanchando o mito de que somos um povo de ‘índole pacífica’. Não que tenhamos tido em nossa história, grandes e espetaculares guerras, no estilo clássico dos países europeus. Mas nosso cotidiano há longo tempo impregnado de relações violentas, torna-se a cada dia mais eriçado de episódios duros e cruéis. Ora é o arrastão nas grandes cidades, ora o assalto à mão armada, ora a rebelião nos presídios, para não falar do filho que mata os pais, exemplos de uma relação infindável de crimes, sempre mais graves, chocantes. Ao mesmo tempo, florescem na mídia recomendações do tipo ‘tranque sua casa antes de sair’, ou ‘redobre os cuidados contra os arrombamentos’, ou ‘fechaduras de proteção máxima e alarmes são equipamentos indispensáveis na casa ou apartamento’. As indústrias do ramo anunciam que, com o aproximar-se das férias, é aconselhável providenciar a instalação de instrumentos de segurança. Não se fala apenas em tradicionais grades, portões e ferrolhos, mas de fechaduras de proteção máxima com três voltas de lingüeta, controle remoto, chaves com quatro lados, alarmes com sensores e olho mágico, centrais de acionamento de sirenes e discagem direta de números telefônicos programados, uma sofisticada parafernália de auto-encarceramento. Estamos nos transformando numa civilização psicologicamente amedrontada e fisicamente engaiolada. É uma questão de sobrevivência da sociedade.Dourados que num passado não muito distante, era uma cidade tranqüila e com poucas ocorrências policiais, hoje se transformou em uma das cidades com índices mais altos de registros de ações dos marginais. A exemplo, do que ocorrem nos grandes centros, nossa gente vive amedrontada diante do quadro que aí está. A bandidagem está armada até os dentes. Aliás, falando nisso, ao que parece o Estatuto do Desarmamento, só conseguiu desarmar as pessoas de bem.A nossa estrutura policial é arcaico, o sistema prisional é contraproducente e os problemas conjunturais e estruturais são imensos. Enquanto isso, os mensalões da vida consomem o dinheiro que poderia solucionar parte dos problemas da segurança. O autor é radialista e jornalista([email protected])



