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domingo, 22 de março de 2026

ARTIGO:QUEIMADA CONTROLADA NO PANTANAL

16/05/2005 09h52 – Atualizado em 16/05/2005 09h52

Embrapa Pantanal

Por: Evaldo Luís Cardoso
Sandra Mara Araújo Crispim

A utilização do fogo como elemento de manejo das áreas de savanas e campos naturais, embora muito contestada no meio científico por entidades ambientalistas e a sociedade em geral, constitui uma realidade e prática bastante comum em muitas regiões tropicais e subtropicais, especialmente naquelas caracterizadas por estação seca pronunciada. No Brasil, o fogo está presente na atividade agropecuária, destacando-se sua utilização na região dos Cerrados e Amazônia, com o objetivo de promover a renovação ou recuperação das pastagens. A utilização desta prática como alternativa de manejo das savanas justifica-se pelo controle de plantas invasoras e maior oferta de forragem fresca e palatável para o gado, obtida através da emissão de brotações, proporcionada pela remoção da macega.

Na maioria das áreas de savanas e especialmente nos cerrados brasileiros, ao final da estação seca, queimam-se indiscriminadamente áreas de vegetação herbácea, arbustiva e arbórea. No Pantanal, a queimada também é empregada anualmente, entretanto, ao contrário da maioria das áreas de savanas, sua utilização se faz de forma controlada. Devido as características peculiares da região, por apresentar alternadamente extensas áreas de campos (limpos ou sujos) sujeitas a inundações periódicas, cerrados, cerradões e matas, o pantaneiro tem feito uso desta prática de forma parcimoniosa.

Conforme relatos de outros pesquisadores, a utilização do fogo no Pantanal se faz de forma seletiva e localizada, procurando eliminar ou conter a expansão de espécies indesejáveis e promover a rebrota das forrageiras de baixa aceitabilidade, sendo comumente queimadas as áreas de “caronal” (predominância de Elyonurus muticus), de “capim-fura-bucho” (Paspalum carinatum e Paspalum stellatum), de “capim-rabo-de-burro” e rabo-de-lobo (Andropogon bicornis e Andropogon hypogynus) e cerrados ralos. Destacam, ainda, que a rebrota promovida pelo fogo parece essencial ao aproveitamento das forrageiras de baixa aceitabilidade, embora, talvez, 90% da fitomassa aérea seja perdida pela queima.

Ainda que o emprego da queimada no Pantanal se faça de forma controlada, sua utilização merece cautela. Resultados de estudos recentes desenvolvidos em áreas de savana gramíneo-lenhosa, na subregião da Nhecolândia, Pantanal Sul Mato-Grossense, têm demonstrado que a queima anual do caronal promove uma redução na biomassa aérea, acumulada nos onze meses subsequentes à queima, de aproximadamente 36% quando comparada à área sem queima. Com sua reincidência no ano seguinte, a redução é de cerca de 50%. A fitomassa morta decresce expressivamente, com valores máximos, representando não mais que 10% da área sem queima.

Com a queima, a freqüência das espécies de gramíneas na área de caronal tem reduzido e o número de espécies de dicotiledôneas e ciperáceas aumentado, quando comparados à área sem queima. A cobertura do solo em áreas queimadas reduz-se expressivamente e tem levado cerca de quatro a seis meses para igualar-se à área sem queima. Em 2001, confirmando-se as previsões de poucas chuvas, consequentemente uma estação seca mais prolongada, intensificou-se a incidência de queimadas em todo o País. Todavia, enquanto esta prática não for substituída por outras alternativas de manejo mais racionais, recomenda-se para sua utilização o cumprimento das exigências legais junto ao Ibama e atenção especial a aspectos como umidade do solo, limpeza de aceiros, direção do vento, tamanho das áreas, hora ideal de queima, e principalmente, não queimar anualmente a mesma área. A reincidência sistemática da queima por vários anos na mesma área provoca uma degradação físico-química e biológica do solo, acarretando redução da biomassa aérea.


Evaldo Luís Cardoso ([email protected]) e Sandra Mara Araújo Crispim ([email protected]) são pesquisadores da Embrapa Pantanal.

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