22/09/2003 15h17 – Atualizado em 22/09/2003 15h17
Não é nenhum segredo que há alguns anos as programações dos canais abertos da TV brasileira vão de mal a pior. A sede de audiência das emissoras expõe o telespectador a atrações de péssimo gosto que chegam a constranger e até ofender quem as assite, como por exemplo a transmissão ao vivo de um suicídio, exploração de desgraças e pegadinhas que subestimam a inteligência do público.
Mas a suspensão pela Justiça do programa Domingo Legal, neste domingo (21), pode ajudar a melhorar a qualidade do que se tem visto na telinha.
Gugu Liberato exibiu no dia 7 de setembro uma entrevista com falsos membros da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital) fazendo ameaças a apresentadores de TV e políticos. Quando as imagens foram ao ar, ele nem imaginava que sua vida viraria de cabeça para baixo nos dias que se seguiriam. Marcelo Rezende e José Luiz Datena, citados pelos “criminosos”, transformaram o caso em pauta principal de seus telejornais, na Rede TV! e TV Bandeirantes, respectivamente.
A história então virou caso de polícia e os principais envolvidos foram convocados a depor. O Ministério Público Estadual e o Federal entraram com ações na Justiça pedindo esclarecimento sobre o caso, inclusive com notificação ao SBT a respeito da entrevista que teria “caracterizado apologia ao crime”.
Embora a emissora de Silvio Santos tenha se responsabilizado por exibir um conteúdo de classificação livre em seus próximos “capítulos” do Domingo Legal, a Justiça ordenou a suspensão do programa sob multa de R$ 100 mil caso a atração fosse ao ar. O SBT não conseguiu reverter a situação e, pela primeira vez, o dominical não entrou na programação da emissora.
A decisão judicial, denominada pelo advogado da emissora Carlos Miguel Aidar como uma censura prévia, pode fazer diretores de outros canais repensarem suas programações. Principalmente os responsáveis pelos noticiários sensacionalistas que metralham o telespectador exibindo extrema violência em busca de disputa no ibope.
Na sexta-feira (19), quando um dos apontados como principal articulador da farsa do Domingo Legal se encaminhava para depor, equipes de reportagem do Cidade Alerta, da Record, e do Brasil Urgente, da Band, protagonizaram uma das piores cenas do telejornalismo brasileiro. Enquanto Barney – o produtor que recebeu R$ 3 mil para conseguir a entrevista com membros do PCC – dirigia seu carro ao lado do advogado no trânsito da Marginal Tietê, repórteres e câmeras das duas emissoras brigavam ao lado do automóvel para tentar entrevistar o envolvido.
O trânsito ficou ainda mais caótico, mas os noticiários continuaram seu circo também com imagens aéreas da palhaçada. Oscar Roberto de Godoy, não satisfeito, pediu que seu repórter colocasse um fone de escuta no advogado de Barney para que pudesse conversar com ele ao vivo no Cidade Alerta. Tudo em meio aos carros de uma das principais rodovias de São Paulo! A bagunça só terminou quando a polícia parou o carro e o escoltou até o Deic, onde Barney prestou depoimento.
A farsa do Domingo Legal não prejudicou apenas a credibilidade de Gugu Liberato, de seu programa e do SBT, mas também causou um enorme prejuízo nas contas da emissora, que precisa reduzir seus gastos em 20% até o fim do ano. Sem a exibição da atração neste domingo deixou-se de faturar R$ 4,8 milhões. Além dos merchandisings que perdeu com a suspensão do programa, o apresentador teve um megacontrato com a Petrobrás suspenso.
A famosa guerra pela audiência entre as emissoras vai continuar, mas talvez com um pouco mais de responsabilidade depois da suspensão de um dos mais conhecidos programas da TV. Se o episódio não servir para nada, é melhor economizar um dinheirinho e assinar uma TV paga ou curtir a família ouvindo rádio e passeando fora de casa.
Fonte: Babado




