19/08/2003 08h37 – Atualizado em 19/08/2003 08h37
O senador Delcídio do Amaral (PT-MS) vai convocar a direção da
Novoeste, que administra o ramal ferroviário que liga Bauru (SP) a Corumbá (MS), para explicar aos membros Comissão de Infra-Estrutura do Senado a situação de sucateamento a que está relegada a ferrovia em Mato Grosso do Sul. Nesta segunda-feira, ao lado de diretores do Sindicato dos Ferroviários, Delcídio foi ver de perto o “cemitério” onde estão 160 vagões de carga e passageiros, abandonados pela empresa ao longo dos trilhos da Estação Luiz Gama, que fica no município de Ribas do Rio Pardo, a 90km de Campo Grande.
- O que nós estamos vendo hoje aqui é uma vergonha, uma afronta à dignidade do povo sul-mato-grossense. Um patrimônio público estimado em milhões de reais simplesmente jogado fora, apodrecendo ao relento. Alguém vai ter que pagar por isso – reagiu o senador, que vai cobrar também da Agência Nacional de Transportes Terrestres, a quem cabe fiscalizar as ferrovias, porque a situação em Mato Grosso do Sul chegou a esse ponto.
De acordo com informações do Sindicato dos Ferroviários, em
1996, quando a Novoeste ganhou a concorrência para explorar o ramal Bauru/Corumbá, a empresa recebeu da Rede Ferroviária Federal um patrimônio composto por 1.600 km de ferrovia,dezenas de estações ( muitas de valor histórico e arquitetônico inestimável) e um total de 1903 vagões e 88 locomotivas. Devido à falta de investimentos, os trilhos e dormentes estão em péssimo estado de conservação – acidentes são constantes – e muitas estações foram destruídas. Em relação aos vagões, 430 saíram de Mato Grosso do Sul para atender o transporte de grãos da Ferronorte na região da Baixada Santista, 230 foram enviados para a Ferroban, 350 encontram-se destruído sem 9 “cemitérios” existentes no estado – o de Ribas do Rio Pardo é o maior deles – e outros 250 aguardam revisão, totalizando 1260 vagões que não estão circulando no ramal. Das locomotivas, 35 foram para a Ferronorte, 12 estão avariadas e 41 permanecem funcionando.
O presidente do Sindicato dos Ferroviários, Waldemir Vieira,
revelou que a maioria dos vagões abandonados na Estação Luiz Gama é da década de 70, com vida útil estimada em 50 anos e, por isso, deveriam estar funcionando. O sindicato garantiu que a maioria foi entregue em perfeitas condições de uso e muitos estavam rodando até 2000 e foram retirados da malha por estarem envolvidos em acidentes.
- Nada disso justifica essa situação porque, mesmo acidentados, os vagões de carga podem ser recuperados e voltar a atividade. O sindicato já fez um levantamento e constatou que o custo médio de reforma de cada um desses vagões é de R$ 80 mil. Sai muito mais barato que comprar um novo – afirmou Vieira.
SUCATEAMENTO:
O sucateamento da malha ferroviária fez com que os carregamentos
de minério nas estações Maria Coelho e Urucum, em Corumbá, fossem reduzidos em 46%. Segundo o presidente do Sindicato dos Ferroviários, antes da privatização eram carregados, em média, 150 vagões por dia com destino ao porto de Santos. Atualmente esse número não passa de 80, tanto que a empresa Transbordo, principal compradora do produto, aluga duas locomotivas bolivianas para fazer o carregamento.
O transporte de soja também caiu drasticamente. Em fevereiro de 2002, eram transportadas 60,5 milhões de toneladas e em junho deste ano o volume caiu para 30,2 milhões.
Para Waldemir Vieira, apesar de tudo isso a empresa não pode alegar prejuízo com a operação em Mato Grosso do Sul porque ela reduziu a menos de 1/3 o quadro de pessoal nos últimos 7anos, não fez nenhum investimento na malha e não paga, desde 2.000, as parcelas mensais do contrato de arrendamento, o que gerou uma dívida de aproximadamente R$ 60 milhões com o governo.
Durante a visita, a direção do sindicato entregou ao senador um documento que reúne alternativas para revitalizar a Rede Ferroviária Federal em todo o país e pede a retomada do ramal Bauru/Corumbá pelo Governo, pelo não cumprimento do contrato de concessão. Delcídio defendeu uma providência urgente do governo em relação à malha e afirmou que o documento vai subsidiar as ações da Comissão de Infra-estrutura do Senado, da qual ele é membro titular. O senador disse também que a Novoeste é o pior exemplo de concessão de ferrovia no Brasil e acredita que a discussão sobre o assunto vai ganhar dimensão nacional, já que ela também está presente nos estados da Bahia e Pernambuco. “É como um jogo de dominó, quando cai a primeira peça várias outras começam a cair” – avaliou.
Na próxima quinta-feira Delcídio vai receber em audiência em Brasília o presidente da holding Brasil Ferrovias – que administra a Novoeste e a Ferroban – Nelson Sampaio Bastos. Nesse encontro deverá ser agendada a data em que a Comissão de Infra-estrutura do Senado vai ouvir os representantes da empresa.



