19/08/2003 14h06 – Atualizado em 19/08/2003 14h06
BAGDÁ – Morreu nesta noite em Bagdá, vítima do mais grave atentado perpetrado no Iraque após a deposição do regime de Saddam Hussein, o embaixador Sérgio Vieira de Mello, brasileiro que chefiava a missão da ONU no país e uma das mais respeitadas figuras da diplomacia internacional. Cotado para o cargo de secretário-geral das Nações Unidas, Vieira de Mello foi uma das vítimas de um caminhão-bomba que destruiu parte do quartel-general da ONU no Iraque nesta terça-feira. Pelo menos 17 pessoas morreram. Vieira de Mello ficou gravemente ferido no momento da explosão e resistiu por mais quatro horas sob os escombros. Há fortes suspeitas de que ele tenha sido o alvo do ataque. Pelo menos 30 ficaram feridas e ainda há outras vítimas sob os destroços.
Nenhum grupo assumiu a autoria do ataque, mas uma fonte do Pentágono afirmou que um dos principais suspeitos é o grupo radical Ansar al-Islam, organização ligada à Al-Qaeda de Osama bin Laden. Segundo a fonte, o Departamento de Defesa dos EUA investiga se há alguma ligação entre o ataque desta terça-feira e o atentado à embaixada da Jordânia em Bagdá, em 7 de agosto.
O episódio, uma nova demonstração da profunda insegurança em que o Iraque mergulhou após a guerra que pôs fim à ditadura de Saddam, foi condenado com veemência pela comunidade internacional e pelo governo brasileiro. Em mensagem gravada em áudio, o presidente dos EUA, George W. Bush, disse que os terroristas mostraram mais uma vez “seu desprezo pelos inocentes, seu medo do progresso e seu ódio da paz”.
Antes do anúncio da morte de Vieira de Mello, a ONU classificara o ataque como “uma tragédia pessoal e um revés político” para organização, que trabalha paralelamente às forças da coalizão liderada pelos Estados Unidos na reconstrução do Iraque pós-guerra. O secretário-geral da organização, Kofi Annan, disse que a ONU está chocada com o ataque mas afirmou que seus funcionários continuarão o trabalho no Iraque. O Brasil emitiu nota oficial condenando com veemência o atentado.
O Exército dos EUA confirmou que a explosão foi provocada por um carro-bomba, possivelmente um caminhão, e há suspeitas de que tenha o ataque tenha sido perpetrado por um terrorista suicida. O atentado no Hotel Canal, usado como sede da ONU há mais de uma década, ocorreu às 16h30m (9h30m horário de Brasília). Uma entrevista coletiva estava sendo realizada no momento, o que permitiu que algumas equipes de TV filmassem as cenas de horror dentro do prédio.
O chefe da administração civil dos EUA no Iraque, Paul Bremer, disse que há grandes chances de que Vieira de Mello tenha sido o alvo do atentado, informação ventilada mais cedo pelo porta-voz da missão da ONU em Bagdá, Salim Lone.
- Tudo aconteceu debaixo da janela de Sérgio Vieira de Mello. Eu acho que ele era o alvo – disse Lone à rede BBC, por telefone.
Segundo o ministro de Relações Exteriores do Brasil, Celso Amorim, momentos depois da explosão, ainda preso nos escombros, Vieira de Mello telefonou para a ONU de seu celular, falando sobre a situação.
Nomeado em maio para o cargo de representante especial do secretário-geral das Nações Unidas no Iraque, Vieira de Mello cumpriria uma missão de quatro meses – que deveria ser prorrogada pelo Conselho de Segurança.
- É uma tragédia. Eu acho que é um revés, não apenas pessoalmente, mas também politicamente para a missão da ONU – disse o porta-voz da ONU Fred Eckhard.
O ataque à sede da ONU soma-se à recente onda de sabotagens no Iraque, com explosões contra dois oleodutos e um aqueduto. Até o momento, nenhum grupo assumiu a autoria do atentado. As forças americanas desconfiam de extremistas islâmicos e homens leais ao ex-presidente do Iraque.
Há três semanas, um atentado semelhante matou 17 pessoas na embaixada da Jordânia em Bagdá. Para as forças americanas, a sede da ONU e a representação jordaniana estão entre os locais vistos como “alvos fáceis” pelos grupos que resistem à ocupação e já mataram mais de 60 soldados americanos em ataques perpetrados depois de Washington ter dado como encerrados as grandes batalhas na guerra que levou à queda do regime.
Fonte: GloboNews



