01/07/2003 09h40 – Atualizado em 01/07/2003 09h40
Um feto abortado poderia ter seus óvulos doados para uma mulher estéril e se tornar a mãe de um novo bebê, de acordo com um estudo.
A idéia, altamente polêmica, foi sugerida como uma das soluções para a escassez de mulheres dispostas a doar seus óvulos pra fertilização in vitro.
Nesta segunda-feira, foi revelado o resultado de um estudo feito em Israel e na Holanda que mostrou que o tecido do ovário de fetos com dois ou três meses podem ser mantidos vivos por semanas em laboratório.
Os folículos do ovário do feto – que eventualmente amadureceriam para, em uma mulher adulta, liberar óvulos – tiveram até mesmo um discreto desenvolvimento quando colocados em contato com determinadas substâncias químicas.
Mais avanços:
Entretanto, outros avanços científicos ainda teriam que acontecer antes que fosse tecnicamente possível produzir um óvulo que pudesse ser usado em fertilização in vitro.
O coordenador da pesquisa, o médico Tal Biron-Shental, do Hospital Meir, na cidade de Kfar Saba, em Israel, reconheceu que a idéia é polêmica.
“Eu estou completamente ciente da controvérsia sobre isso, mas, provavelmente, em algum lugar, isso será eticamente aceitável”, afirmou, ao apresentar o trabalho durante a Conferência da Sociedade Européia de Reprodução Humana e Embriologia, em Madri.
Estudo:
“Há uma escassez de óvulos doados para fertilização in vitro, e os óvulos de fetos abortados poderiam ser uma nova fonte”, disse. “Há uma enorme quantidade de folículos no ovário fetal.”
Seu estudo, realizado em conjunto com a Universidade de Utrecht, na Holanda, utilizou sete fetos que foram abortados mais tarde do que o normal, por causa da descoberta de anormalidades.
Amostras do tecido do ovário contendo uma grande quantidade de folículos foram retiradas e colocadas em contato com substâncias químicas que estimulam o crescimento.
Após quatro semanas, testes mostraram que vários folículos ainda estavam vivos e que alguns haviam começado a se desenvolver, aumentando a chance de que, um dia, um deles poderia ser levado a produzir um óvulo.
Biron-Shental afirmou que os folículos eram “saudáveis e viáveis”, mas que é preciso aperfeiçoar as substâncias usadas.
Polêmica:
A Autoridade de Fertilização Humana e Embriologia da Grã-Bretanha, órgão que regula a fertilização in vitro, já afirmou que a utilização de fetos nunca acontecerá no país.
“O uso de ovários de fetos levanta difíceis questões sociais, médicas, científicas e legais”, disse um porta-voz do órgão.
“Após consulta pública, decidimos que seria difícil para qualquer criança superar o fato de ter sido criada usando material de um feto abortado, por causa das convenções sociais que prevalecem.”
Para Nuala Scarisbrick, da Organização Não-Governamental Life – que presta ajuda a mulheres grávidas -, a idéia é “absolutamente grotesca”.
“Eu imagino que a maioria das pessoas normais ficaria enojada com a idéia, mas nada é impossível nos dias de hoje. Na velocidade em que a ciência se move, eu imagino que isso seja possível em breve”, afirmou.
“Quem gostaria de saber que sua mãe foi um feto abortado?”, completou.
Válido:
Para o professor Roger Gosden, diretor do Instituto Jones para Medicina Reprodutiva, nos Estados Unidos, há várias questões éticas e práticas sobre o uso de folículos fetais para ajudar mulheres estéreis.
Entretanto, ele afirmou que o estudo é válido, porque pode ajudar médicos a entender melhor este processo, mesmo sem usar os óvulos em fertilizações in vitro.
“Com certeza, é melhor fazer algo de bom com o tecido do que nada de bom”, disse.
“Mas eu teria reservas caso o estudo fosse estendido para usar o tecido do ovário fetal para o tratamento de pacientes.”



