03/04/2003 17h01 – Atualizado em 03/04/2003 17h01
Num tempo em que a maioria das jovens estrelas parece jogadores ou técnicos de futebol na hora de falar, Camila Pitanga é peça rara. Numa conversa, a gente até esquece que ela é a Luciana da novela das oito, ou a Beatriz do clássico italiano “Arlequim, servidor de dois patrões” (Teatro Leblon), ou, ainda, que ela vai estar no próximo filme de Claudio Torres, “O redentor”. Mais do que a notoriedade, o que chama a atenção é a inusitada mistura de fama/juventude com cultura/discrição.
E não é aquele papo-cabeça decorado, aquela coisa de dizer que vai ler Shakespeare porque mamãe mandou, ou que as comédias de Dante são di-vi-nas. Entre gravações e ensaios, Camila aprofunda-se nos seus estudos de teoria teatral na Uni-Rio; engaja-se em frentes ecológicas e políticas; ouve Caetano, Mautner e Björk; corre atrás de CDs remasterizados; lê Bandeira e Pessoa; vai ao circuito Estação; e assiste a Kubrick compulsivamente no DVD. Com a palavra, Camila Pitanga, a estrela que pensa:
— Hoje se privilegia a efemeridade e o instantâneo. Assim, são produzidas também pessoas instantâneas. O sucesso a qualquer custo gera mais euforia que realização. A gente percebe a infelicidade nos olhos dessas pessoas que não se vêem velhas, não se enxergam no tempo. Pensam que é bacana estar in, ser cortejada. E depois, o que sobra? Está faltando qualidade ao desejo.
A casa nova na Gávea — para onde Camila vai se mudar em breve com o marido, o cenógrafo Cláudio Amaral Peixoto, e a enteada, Maria Luisa — tem um quarto com uma espécie de tablado próximo à janela. Será mesmo um palco?
— Não, isso é só uma bancada, ao lado da cama, que vai ficar aqui — esclarece Camila, explicando como será a decoração do quarto do casal.
Mas o espaço assim vazio, apenas com algumas cadeiras clássicas soltas pelo piso, parece-se muito com um teatro de bolso caseiro. Essa impressão é reforçada pela própria movimentação de Camila em seus novos domínios. Tudo, o gestual, as mudanças no tom de voz, a marcação meio coreográfica dos passos, remete ao ambiente teatral.
— Televisão e cinema são ótimos, mas imprescindível, mesmo, só o teatro. A base do artista é o palco. E palco não é só interpretação: é conhecer os meandros da sua história, daí a determinação em completar a minha formação acadêmica ano que vem, quando termino a faculdade.
Gestos de oração e libelo pacifista – Sentada sobre o tablado com as pernas cruzadas em lótus, ela estica os braços e vai flexionando, até as mãos se juntarem como numa oração, enquanto, ao fundo, através do janelão de esquadrias brancas, vê-se o quintal com um jardim frondoso, meio selvagem, uma goiabeira, um figueiral, um abacateiro, várias bananeiras, alguns muros, muitos telhados e o Cristo bem longe. Hora de paz.
— Não agüento mais ver criança morta sem a gente poder fazer nada. Ainda assim, alguma mobilização é necessária. Pode parecer um discurso antiquado, mas não consumir produtos americanos, neste momento, é o mínimo que se pode fazer. No meu caso é fácil: nunca gostei de refrigerante ou fast-food, então não preciso nem me esforçar…
Na posse, arrepios com Fidel, Brizola e Lula – Está escurecendo, e Camila chama o mestre de obras, seu Bené (não confundir com a madrasta, Benedita da Silva), para tentar instalar uma lâmpada improvisada no quarto. Seu Bené é fiel à família desde os tempos em que ela e o pai, o ator Antonio Pitanga, moravam em Jacarepaguá:
— Foi lá que aprendi o sentido de se viver em comunidade, o que me ajudou muito no período em que a gente se mudou para a casa da Benedita no Morro Chapéu Mangueira. E foi no morro, convivendo com a Bené, que aprendi a dividir o meu pai com alguém: até então eu era a mulher da casa, mas Bené, com o seu jeitão, e com aquela família enorme dela, mostrou como é que a gente socializa o espaço da casa em harmonia…
Quando não está falando de trabalho, família, de algum filme que viu, disco que ouviu ou livro que leu, Camila acaba invariavelmente desaguando no discurso social, bem afinado com o momento político, com a militância do pai e a convivência com Benedita. A posse de Lula, em Brasília, por sinal, foi momento marcante:
— Eu assisti a tudo lá no Congresso. E me encontrar assim, rodeada por figuras históricas como Fidel e Brizola enquanto ouvia o discurso de posse de Lula, foi de arrepiar. Vivemos num país com muitas contradições. Como atriz, eu me exijo um papel social. Isso é inevitável para mim. Desde o Cinema Novo o trabalho de meu pai já era um ato político, um negro baiano no Rio lutando por um espaço num contexto adverso, a relação com o universo de Glauber… não consigo pensar cultura senão politicamente. Tenho participado de reuniões promovidas pelo Marcos Winter e pelo padre Ricardo, que organizam discussões para pensar: agora que somos governo, o que faremos? Como somar? Estou também muito ligada a uma ONG relacionada com proteção ao meio ambiente.
Próximo papel no cinema será de posseira – Coincidentemente, o próximo papel de Camila Pitanga no cinema está bem de acordo com esse espírito de engajamento. Ao lado de Pedro Cardoso, Miguel Falabella, Fernanda Montenegro e Stênio Garcia no longa “O redentor”, de Cláudio Torres, ela viverá a jovem Soninha, moça pobre, filha de posseiro, envolvida num intrincado romance com um jornalista:
— É, como diz o Cláudio Torres, um “épico imobiliário” passado no Rio de Janeiro. Há também outro filme, que ainda está sendo rodado, “Bendito fruto”, uma comédia de costumes dirigida por Sérgio Goldenberg, em que vivo a favelada Choquita.
Depois do social, o shopping – Seu Bené instala a lâmpada. Alguém toca o interfone. É o marido, Cláudio, com quem ela está há quase três anos, que chega acompanhado da pequena Maria Luisa e da mãe dele, Claude Amaral Peixoto. Chega também a administradora de obras, e o que era uma entrevista transforma-se num debate sobre materiais de construção, idéias de decoração, orçamentos, prazos de acabamento.
Meia hora depois, parece tudo resolvido. A entrevista termina, e é chegado o momento de ir ao shopping com o maridão. Ver persianas para o quarto. Jantar fora. Afinal, nem só de cultura, discurso social, teatro, televisão e cinema vive uma estrela.




