25/03/2003 14h58 – Atualizado em 25/03/2003 14h58
A inflação ao consumidor tende a desacelerar fortemente em março e abril, meses em que a taxa deverá ser reduzida quase pela metade devido ao fim de pressões sazonais, à demanda fraca e ao recuo do dólar. Uma guerra mais longa no Iraque, no entanto, pode comprometer a intensidade da queda no resto do ano.
Mesmo em um cenário sem guerra, a meta de inflação deste ano, de 8,5 por cento, perseguida pelo governo parece já estar perdida depois de um início de ano de taxas elevadas, segundo analistas.
“A curto prazo, pouca coisa deve ocorrer, a inflação deve continuar caindo. No médio prazo é que podemos ver um certo impacto, conforme o desenrolar dessa guerra”, disse o economista-chefe do Banco Sulamérica, Newton Rosa.
Dez analistas consultados pela Reuters projetam para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) –referência do sistema de metas– de março uma taxa entre 0,7 e 0,9 por cento, recuando para entre 0,6 a 0,65 por cento em abril. Em fevereiro, o IPCA começou a desacelerar, ficando em 1,57 por cento após uma alta de 2,25 por cento em janeiro.
Nesta manhã, o IPCA-15 forneceu uma prévia do IPCA de março e caiu de 2,19 por cento em fevereiro para 1,14 por cento este mês.
Para o ano todo, as estimativas do IPCA variam entre 9,91 e 13 por cento. Mesmo a previsão mais otimista fica acima da meta de 2003, devido à forte aceleração da inflação em janeiro e fevereiro. Nos dois primeiros meses do ano, o IPCA acumula alta de 3,86 por cento.
Na tentativa de fazer a inflação convergir para a meta, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central elevou os juros em 8,5 pontos percentuais desde outubro. O efeito da política monetária sobre a economia demora de seis a nove meses para ser sentido.
Na última reunião, o Banco Central decidiu manter a taxa em 26,5 por cento, mas adotou um viés de alta, citando as incertezas do cenário externo.
Para Heron do Carmo, coordenador do IPC da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), “retirando as pressões sazonais e o aumento do grupo Transportes, a inflação já estaria baixa.”
Em relação à taxa da Fipe, as expectativas apontam para uma inflação de 0,6 a 0,7 por cento no próximo mês, desacelerando um pouco mais em abril, para entre 0,5 a 0,6 por cento. Em fevereiro, o índice subiu 1,61 por cento. As expectativas para o ano variam de 9,31 a 12,5 por cento.
Um dos fatores citados por Heron, o efeito dos combustíveis contido no grupo Transportes, pode retornar se a guerra no Iraque durar mais que o inicialmente esperado e os preços do petróleo dispararem.
Luiz Rabi, economista-chefe do Bicbanco, afirmou que o problema da guerra é a duração do conflito. “No Brasil, vamos refletir o que acontecer no exterior: se o petróleo aumentar, vai refletir no dólar aqui, no C-bond e, consequentemente, na inflação”, disse.
Por enquanto, sem uma maior sinalização de quão longo será o conflito, os analistas preferiram não fazer previsões para esse cenário.
A inflação no início do ano foi afetada por preços administrados e itens sazonais, como educação e alimentos, além do resquício da escalada do dólar no ano passado.
O dólar já mostrou uma forte desaceleração em relação a 2002. Na manhã de terça-feira, a moeda era negociada a 3,394 reais, depois de atingir o pico de 3,99 reais em outubro e encerrar o ano cotado a 3,54 reais.
Uma demanda interna bastante abatida é mais um fator contribuindo para a forte queda da inflação e para o recuo das expectativas.
Na semana passada, as cerca de 100 instituições financeiras consultadas em uma sondagem do Banco Central reduziram a expectativa para o IPCA em 2003 pela primeira vez em sete semanas. Na segunda-feira, as projeções voltaram a cair, de 12,43 para 12,19 por cento.
“Neste cenário de demanda fraca, quem mantiver preço alto pode perder tudo, pode perder anel, perder dedo, tudo”, disse Heron do Carmo, da Fipe.
“Não há espaço para o varejo repassar custos para um consumidor mais pobre, o que ajuda a diminuir as pressões sobre a inflação”, acrescentou.
O Pão de Açúcar, maior rede de supermercados do país, continua apostando em sua política de promoções e substituição de marcas líderes por outras com menores preços, tentando evitar que o consumidor encolha sua lista de compras.
O pequeno comerciante também tenta não perder clientes. Após o salto de quase 10 por cento dos horifrutigranjeiros em fevereiro, Samira Perez, dona de um restaurante vegetariano em São Paulo, teve que fazer alterações no cardápio.
“Tirei a alface do lanche natural e coloquei a rúcula, que subiu um pouco menos. Mas às vezes o cliente insiste em determinado produto, então a gente tem que arcar com o custo, senão ele não compra”, disse ela.





