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quinta-feira, 14 de maio de 2026

Análise: Posição turca no norte do Iraque ainda é dúvida

21/03/2003 08h23 – Atualizado em 21/03/2003 08h23

O acordo entre a Turquia e os Estados Unidos autorizando a utilização do espaço aéreo turco para aviões de guerra americanos pode parecer o fim de um longo e tortuoso processo de negociação, exigências, contra-exigências e, finalmente, aceitação relutante.

No entanto, o acordo é, na verdade, o início de uma fase bem mais perigosa. A Turquia aceitou ceder apenas o mínimo necessário.

No fim do ano passado, os Estados Unidos impressionaram o governo turco com as suas exigências militares.

A Turquia sempre soube que os americanos iriam querer usar as suas bases aéreas em qualquer ofensiva contra o Iraque.

Zona proibida

Mesmo antes da guerra, as aeronaves americanas e britânicas operavam centenas de missões da base Incirlik, no sudeste turco, para vigiar a zona de exclusão aérea sobre o Iraque.

No entanto, os Estados Unidos queriam muito mais que as bases.

Os americanos queriam colocar milhares de soldados na Turquia, mobilizados para entrar em ação em uma frente de batalha pela fronteira norte do Iraque – na área controlada pelos curdos –, o que exigiria uma infra-estrutura logística como as que existem no Catar e no Kuwait.

O governo turco tem sido cuidadoso, por um lado, por causa do profundo descontentamento que a guerra no Iraque despertou na população e, por outro, em função das vantagens que a boa-vontade americana poderia trazer ao país.

As negociações empacaram, no entanto, diante da exigência de mais dinheiro e influência política em um Iraque pós-Saddam.

No topo da lista de prioridades dos militares e políticos turcos, no entanto, está a situação futura da porção controlada pelos curdos no norte do Iraque.

A Turquia não nutre amores pelos curdos, que controlam aquela região há 12 anos.

Independência

O país morre de medo de que os curdos que controlam a região declarem independência durante ou depois da guerra.

A Turquia também fiscaliza de perto a área de Mosul e Kirkuk, apenas poucos quilômetros ao sul do território controlado pelos curdos, que tem o terceiro maior conjunto de reservas de petróleo do Iraque.

Se esses poços caírem nas mãos dos curdos, o Estado curdo teria riquezas petrolíferas que o deixariam em uma situação mais confortável do que o pobre sudeste turco – onde vive a maioria dos curdos da Turquia.

Dessa forma, a Turquia barganhou com os Estados Unidos, ignorando as insinuações habilmente plantadas nos jornais de que os americanos teriam um plano B e que poderiam abandonar a Turquia.

A estratégia funcionou, e os americanos ofereceram mais dinheiro e fizeram concessões sobre a participação militar da Turquia no norte do Iraque durante a guerra e sobre o seu papel político depois do armistício.

No entanto, o governo turco não soube convencer o Parlamento.

Todos, inclusive este correspondente da BBC, acreditavam que o Parlamento se enquadraria, mas isso não aconteceu. Por apenas três votos, a moção acabou não sendo aprovada.

Depois disso, vieram mais atrasos, mais prevaricação e eleições regionais promovidas em má hora – antes da segunda votação da moção.

Ex-amigos íntimos

A Turquia, que já esteve entre os amigos mais íntimos dos Estados Unidos na região, fez a maior cocessão de um países da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte): abriu seu espaço aéreo.

O país deve receber, se tiver sorte, uma fração da ajuda que lhe foi oferecida no início dessa novela.

Mas a grande incógnita continua sendo o norte do Iraque, onde a Turquia foi aconselhada a não entrar.

Os Estados Unidos dizem, reservadamente, acreditar que a Turquia vai evitar entrar na região, o que possivelmente detonaria uma guerra contra as forças curdas.

No entanto, a Turquia não assumiu esse compromisso e vê aquela região como parte da sua esfera de influência.

Os Estados Unidos e Turquia podem ainda ser aliados, mas a Turquia não receberá ordens.

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