03/02/2003 14h02 – Atualizado em 03/02/2003 14h02
A sábia Natureza não podia permitir um fato assim tão inusitado como o casamento entre um ágil beija-flor e uma pacata borboleta. Mas foi impossível proibir, uma vez que, fora isso, tudo parecia pactuar com eles. Percorreriam campos e jardins, os mais diversos. Voariam juntos em intermináveis acrobacias aéreas, ora saboreando o doce néctar das flores, ora apenas perfumando-se nelas.
A festa desenrolava-se nos domínios do Paraíso e prometia muito. Tinha no colorido todos os tons possíveis da Divina Paleta. O cenário era artisticamente perfeito até nos pequenos detalhes. Sentia-se o aroma das milhares de flores, no auge de beleza e frescor, a quilômetros de distância.
Delicada, a borboleta saltitava entre camaradinhas e miosótis. Pousava, meditava. Pensava no amor. Seus movimentos, em leveza inigualável, desenhavam um bailado breve. Sempre culminando num declinar suave, seguido por um calmo flabelar de asas.
Por sua vez, o beija-flor, em acrobacias retilíneas, agitado riscava o céu sem parar. Beijava todas as flores que encontrava, como se participasse de uma despedida de solteiro, tal era a primícia em se fartar.
Enquanto os noivos quase não podiam esperar pelo acontecimento, a mãe Natureza espreitava, angustiada, o beija-flor e a borboleta, juntos, num mesmo jardim – um afoito e arrojado, outro, calmo e delicado.
Inesperadamente uma brisa, que até então não hav sido convidada, chegou. Tombando ramadas e agitando as flores do lugar, fez com que a borboleta se atrapalhasse, sendo forçada a um repentino vôo. Refeita do susto, ela pôde pousar num hibisco e conferir suas asas com as sensíveis patinhas, constatando que estava tudo bem.
Para o ávido beija-flor, acostumado a mirabolantes vôos, isso se deu sem que o mesmo tomasse conhecimento e, numa “performance” arrojada, passou zunindo tão perto da futura companheira, que a pobre descreveu outra pirueta, mal havia se refeito.
O vento se fez forte. Rajadas deitaram aquele verde todo pincelado em cores, por uma, duas, várias vezes; e a borboleta acabou sendo arrancada impiedosamente do oscilante e improvisado refúgio.
Atirada a esmo, já cansada de se debater, foi lançada no trajeto do sagaz beija-flor, que pelo agitado modo de ser, não teve tempo de parar e acabou despedaçando uma das frágeis asas de sua amada.
Insistindo na luta, a borboleta ainda tentou recuperar os movimentos, mas foi inútil.
A queda se deu lenta e suave. Leveza e delicadeza naturais foram suas maiores aliadas naquele momento. E veio o chão.
Numa rápida manobra, o beija-flor retornou. Fez um “pitstop” no ar, observou a companheira ali caída, com uma asa…sim, outra…não. Sem saber o que fazer saiu riscando o céu novamente.
E a mãe Natureza, desolada com o acontecido, meneou a cabeça, contrafeita: “Beija-flor e borboleta, um triste jogo de roleta”.




