02/01/2003 08h53 – Atualizado em 02/01/2003 08h53
BRASÍLIA – Em uma cerimônia emocionante no Congresso Nacional, o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse como presidente da República Federativa do Brasil nesta quarta-feira, convocando o povo para “um grande mutirão nacional cívico contra a fome”.
Diante de convidados estrangeiros, como os presidentes de Cuba, Fidel Castro; da Argentina, Eduardo Duhalde; da Venezuela, Hugo Chávez; da Bolívia, Gonzalo Sanchez de Losada; do Peru, Alejandro Toledo; e de Portugal, Jorge Sampaio, Lula enfim coroou uma luta de 30 anos – uma difícil caminhada que o levou a disputar a Presidência por quatro vezes.
Pouco após as três horas da tarde, o presidente do Senado, Ramez Tebet, declarou empossados o presidente eleito Luiz Inácio da Silva e o vice-presidente José Alencar Gomes da Silva.
Lula e Alencar prestaram o compromisso constitucional, firmado com o seguinte juramento: “Prometo manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil”.
A todo momento, ouvia-se no Plenário do Congresso o refrão da música que marcou a trajetória do petista até o Palácio do Planalto: “Olé, olé, olé, olá, Lula, Lula, lá…”.
Lula não resistiu à emoção ao chegar ao plenário da Câmara dos Deputados e, a exemplo do que aconteceu no mês passado na solenidade de diplomação, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), chorou.
O presidente mal conseguiu cantar o Hino Nacional, com os olhos inchados, retirando o suor do rosto a todo instante com um lenço.
Antes de discursar, avisou: “Vamos quebrar o protocolo, mas nem tanto”.
Lula abriu o discurso reiterando a plataforma de sua campanha. “Mudança”, disse. “Essa é a palavra-chave. Esta foi a grande mensagem da sociedade brasileira nas eleições de outubro. A esperança finalmente venceu o medo”.
Neste momento, Lula teve que interromper sua fala, diante de prolongados aplausos que remeteram a um dos momentos mais dramáticos da campanha eleitoral do então candidato: as alegações, feitas por seu principal adversário, de que sua disposição em chegar à Presidência causava medo.
Lula lembrou cada estágio de sua vida, desde a infância pobre no sertão de Pernambuco, a migração em um caminhão “pau-de-arara” com a mãe e sete irmãos para São Paulo, a luta sindical, a resistência à ditadura militar e, por fim, a incansável caminhada à Presidência.
“Agora, sou o servidor público número 1 do meu país”, disse.
Emoção à parte, Lula mostrou firmeza na abordagem de questões externas, especialmente comerciais.
O presidente referiu-se aos subsídios aos produtores nos países ricos como “escandalosos”.
“O Brasil lutará contra o protecionismo, lutará pela eliminação de barreiras e tratará de obter regras mais justas e adequadas à nossa condição de país em desenvolvimento”, acrescentou.
Faixa Presidencial
Após a cerimônia no Congresso, Lula seguiu para o Palácio do Palácio, onde recebeu a faixa presidencial das mãos de Fernando Henrique Cardoso no Parlatório. Foi a primeira vez em 36 anos que um presidente democraticamente eleito passou a faixa a seu sucessor.
Os dois se atrapalharam com o protocolo e os óculos de Fernando Henrique acabaram caindo. O incidente foi motivo de boas gargalhadas entre Lula – que se abaixou para pegar o acessório no chão – e FHC, que, junto com as suas esposas, ouviram a execução do Hino Nacional.
Antes da transmissão da faixa e do cargo, Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto, acompanhado de seu vice, José Alencar.
Lula não esqueceu sua marca: o “L”
A ida do Congresso Nacional até o Palácio foi marcada por alguns atropelos de última hora e quebra do protocolo.
Na saída do Congresso, uma jovem furou o cerco e abraçou Lula. Empunhando uma máquina fotográfica, a mulher pediu para que o presidente se deixasse fotografar seu lado. Lula aceitou sem titubear.
Já no Rolls Royce presidencial, Alencar e Lula passaram por um momento difícil. Muita gente que estava dentro do lago artificial em frente ao Congresso acabou provocando uma “chuva de baixo para cima” na comitiva, que teve que usar um guarda-chuva para se proteger da água.
Mais adiante, depois que o cerimonial alterou o percurso, passando por uma área interna que liga o Congresso ao Palácio, o Rolls Royce não agüentou subir uma rampa e teve que ser empurrado por uma dezena de seguranças, em uma cena que provocou o riso das pessoas, uma vez que o fabricante do automóvel garante, em sua propaganda, que ele não enguiça nunca.
Em uma cerimônia interna no Palácio do Planalto, ministros que deixavam o governo e os que entravam se despediram, bem como auxiliares diretos do presidente.
Despedida de FHC
Fernando Henrique Cardoso cumprimentou sua equipe e todos os novos ministros de Lula antes de se despedir do poder. Apenas o ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes, não abraçou o presidente que deixava o poder, limitando-se a um frio aperto de mãos.
Após os cumprimentos, o presidente Lula e sua esposa Marisa Letícia acompanharam Fernando Henrique e Dona Ruth até os elevadores do Palácio do Planalto.
Fernando Henrique não deixou o palácio pela rampa presidencial, como era esperado.
Do palácio, FHC seguiu de carro para a Base Aérea de Brasília, onde embarcou para São Paulo.
Ainda esta noite, Fernando Henrique e Dona Ruth viajam para a França, onde vão passar três meses descansando.
Posse dos ministros e discurso
Após a despedida de FHC, Lula empossou todo o seu Ministério e Secretariado em uma cerimônia interna no Palácio do Planalto, antes de voltar ao Parlatório para discursar ao povo, em companhia de seu vice, José Alencar e respectivas esposas.
A chuva que voltou a cair na cidade no fim da tarde obrigou o cerimonial a colocar um toldo no local.
Muito aplaudido, Lula falou de improviso.
Segundo Lula, ele e seu vice partilham de um sonho da população que ansiava por mudanças.
“Estou junto com meus companheiros assumindo um momento histórico da vida republicana, mas tenho a certeza de que nada irá impedir que eu faça as reformas que o provo brasileiro acha que precisam ser feitas”, disse Lula, ressaltando que cumprirá o que prometeu na campanha, porque não fez nenhuma promessa absurda.
“Nós iremos recuperar a dignidade do povo, a sua auto-estima, e gastar cada centavo arrecadado para melhorar a perspectiva de vida de homens e mulheres que necessitam do Estado brasileiro”, frisou.
Para Lula, a sua vitória não foi o resultado da campanha política, lembrando os que lutaram desde a época da ditadura, para conquistar a democracia e a liberdade.
“Eu apenas tive a graça de Deus de em um momento histórico ser o porta-voz de milhões e milhões de brasileiros”, disse. “Estou convencido que todos estão cientes das dificuldades que enfreitarei. Não tem na face da Terra um homem mais otimista do que eu”.
“Eu não sou resultado de uma eleição, sou o resultado de uma história. Estou realizando o sonho de uma geração que lutou e não conseguiu”, alegou. “Vou fazer o que acredito que o Brasil precisa nos próximos quatro anos”.
Lula reafirmou que acabar com a fome é uma questão de honra, pois o povo que o assiste é o único responsável por sua vitória.
Ao final, Lula prometeu a cada homem, a cada mulher, a cada jovem e a cada criança, que seu governo trabalhará se for preciso 24 horas por dia para cumprir o que foi prometido na campanha.
O presidente Lula homenageou a sua mulher, a primeira dama Marisa, dizendo que ela o acompanhou na derrota e na vitória.
“Podem ter a certeza mais absoluta que um ser humano pode ter: quando eu não puder, não terei duvida em dizer isto a vocês. Em nenhum momento, faltarei à verdade a vocês. Tratarei vocês com o mesmo respeito que trato meus filhos e meus ne
tos”.
“Amanhã será o primeiro dia do combate à fome no Brasil, porque isso está na Bíblia e na Declaração dos Direitos Humanos”, concluiu.
Do Palácio do Planalto, Lula seguiu em carro aberto, aclamado pela multidão, até o Palácio da Alvorada, sua nova residência e onde receberá autoridades estrangeiras para uma recepção à noite.
Fonte: CNN





