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domingo, 3 de maio de 2026

Critérios rígidos limitam número de pacientes para testes com coração artificial

20/12/2002 10h39 – Atualizado em 20/12/2002 10h39

BOSTON, EUA – Curioso dilema, na opinião dos especialistas, vive a empresa Abiomed, fabricante do primeiro coração totalmente artificial: descobrir pacientes doentes o bastante para estarem aptos a participar de seus testes, mas saudáveis o bastante para não prejudicarem a reputação do produto, morrendo muito depressa.

A Abiomed chamou a atenção em todo o mundo, no ano passado, ao implantar seis de seus corações artificiais – chamados AbioCor – em pacientes criticamente doentes.

Mas os cirurgiões tentaram o procedimento apenas uma vez este ano, e não mais desde o fim do recrutamento de pacientes, há três meses.

Executivos tentam oferecer garantias contra a redução do ritmo, dizendo que a empresa continua a agir para completar a primeira rodada de 15 implantes.

Esses executivos afirmam que a Abiomed simplesmente não encontrou pacientes que se enquadrem em seus critérios – que incluem uma expectativa de vida de cerca de 30 dias sem o aparelho.

“Acho que eles querem ter certeza de que os pacientes são saudáveis o bastante para viver uma vida longa com o implante, e, além disso, o paciente tem que estar em péssimas condições para ser considerado”, disse Kurt Kruger, analista sênior da área de seguros do Bank of America.

Mas alguns dizem que a Abiomed elevou seus padrões de elegibilidade e está exagerando na segurança.

“Acho que estão sendo excessivamente éticos, tão cautelosos que estão ferindo a si mesmos”, disse Bill Frain, um grande investidor da empresa.

Ações na Justiça e objetivos

A empresa também enfrenta uma ação judicial da viúva de um paciente que morreu. Funcionários da Abiomed dizem que a ação não afetou as decisões da empresa.

Os diretores da empresa também estão se recusando – ao menos por agora – a fazer uma mudança que poderia ampliar o leque de candidatos: permitir que membros da família dêem aval ao procedimento.

Atualmente, os pacientes devem dar seu próprio consentimento, o que limita o leque às pessoas que são responsivas.

“É perturbador, francamente, estamos frustrados. Em nossa opinião, isso deveria gerar uma alteração nos critérios de aceitação. Eles restringiram tanto os critérios que nunca vão ver nenhum paciente”, disse Kruger.

A Abiomed disse que o aparelho pode um dia vir a se tornar um enorme sucesso e ajudar os 100 mil norte-americanos que precisam de transplantes de coração a cada ano. Apenas 2.000 dessas pessoas conseguem a doação para o transplante.

A empresa diz que os testes atingiram seus objetivos limitados: ajudar pacientes com expectativa de vida de 60 dias a dobrar essa expectativa, com uma melhoria da qualidade de vida. Das sete pessoas que receberam o aparelho, somente uma ainda está viva.

Segundo o fabricante, o aparelho não pode ser culpado pela morte de nenhum dos pacientes, que estavam todos criticamente doentes, com uma variedade de problemas de saúde quando receberam o AbioCor.

Pacientes antigos não seriam aceitos hoje

Mas, como outros fabricantes, a Abiomed precisa completar a fase de testes para que possa começar a vender seu produto. Por outro lado, não tem interesse em ver os índices de sobrevivência dos pacientes cair.

Frain disse que foi informado de que a Abiomed elevou seus padrões para candidatos ao implante e que nenhum dos pacientes que já recebeu o AbioCor no ano passado estaria apto a recebê-lo hoje.

“Eles não querem correr o risco de os pacientes morrerem imediatamente”, disse Frain. “Disseram-nos que em um dado momento eles monitoraram de três a sete possíveis pacientes. Mas aqueles pacientes morreram antes de realizar o implante”.

A porta-voz da Abiomed Sara Goldstein negou que os padrões tenham mudado, alegando que depende dos médicos escolher os pacientes.

Segundo a Abiomed, os candidatos devem sofrer de falência cardíaca biventricular, ser maiores de 18 anos, não responderem às terapias existentes e ser inelegíveis para o transplante de um coração natural.

“Essas coisas não são flexíveis. São critérios muito concretos”, disse ela.

Goldstein disse que a empresa continua a monitorar candidatos e que está ansiosa pela realização do próximo implante. Segundo ela, isso pode acontecer a qualquer momento.

Fonte: Associated Press

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