13/11/2002 16h39 – Atualizado em 13/11/2002 16h39
A vereadora de São Paulo e deputada estadual eleita com 681 mil votos Havanir Nimitz (Prona) foi denunciada ontem por cobrar R$ 5 mil do microempresário Jorge Roberto Leite, que estava interessado em concorrer a uma vaga de deputado estadual pelo partido. Segundo Leite, que é sócio de uma marmoraria em Santos, e acabou não disputando a eleição – pois não pagou o valor pedido por Havanir -, uma “colaboração” foi exigida dos interessados em ser candidatos pelo Prona, em troca de legenda.
Leite gravou fitas de diálogos que teve com a deputada eleita, em julho, onde ela aparece pedindo “uma colaboração” em troca da vaga. “Se o senhor for parcelar, fica R$ 5 mil”, diz Havanir, em um dos trechos. “O senhor tem que mostrar, dizer: document.write Chr(39)eu posso colaborar com tantodocument.write Chr(39)”, pede ela, em outro ponto (veja quadro).
A denúncia foi exibida pelo SPTV, da Rede Globo, que consultou o perito Ricardo Molina, da Unicamp. Ele comprovou a autenticidade das fitas e disse que a voz é realmente de Havanir. “Não há nenhuma montagem nas gravações”, declarou.
O material está sendo investigado pelo Ministério Público Eleitoral.
A procuradora eleitoral Fátima Aparecida de Souza Borghi é cautelosa em admitir se houve ou não crime eleitoral e prefere ainda não comentar o assunto. Em tese, de acordo com o MP, Havanir pode até perder o mandato, caso se comprove crime.
O dinheiro, que teoricamente teria servido de doação de campanha ao partido, não aparece na declaração de prestação de contas do Prona enviada ao Tribunal Regional Eleitoral. Lá, consta apenas o termo “sem movimentação”.
Procurada por duas vezes, a deputada eleita informou, por meio de sua assessoria, que dará entrevista coletiva sobre o caso só hoje, ao lado do líder do partido, o deputado federal eleito Enéas Ferreira Carneiro. Na sede do Prona, uma secretária informou que não sabia onde estava Havanir.
À noite, o SPTV exibiu imagens da filha da deputada eleita, Maysa, expulsando uma equipe de reportagem da TV Globo do gabinete da vereadora.
“Sai daqui, sai”, gritou ela. “Não quero câmera dentro do gabinete.”
Cartilhas a R$ 700 para poder concorrer em eleição
O microempresário conta que há dois anos já tinha concorrido a uma cadeira de vereador em Santos, também pelo Prona. “Na ocasião, comprei cartilhas do dr. Enéas, livrinhos, por R$ 700, para ter direito a concorrer”, disse ao JT. Ele acabou perdendo a eleição.
Em julho, então filiado ao partido e interessado em ser candidato a deputado estadual, Leite procurou Havanir pessoalmente. Como já tinha recebido o pedido de “caixinha” na eleição para vereador, resolveu levar um gravador para a conversa, por “medo de que houvesse cobrança.”
A então vereadora, presidente do diretório estadual do Prona, recebeu-o a portas fechadas por duas vezes na sede do Prona, região central da capital.
“A primeira vez foi no dia 10”, contou. Havanir foi direto ao assunto, segundo ele. Leite perguntou se poderia parcelar o pagamento, “Se o senhor viesse com a proposta… À vista é melhor”, disse Havanir.
A segunda conversa foi no dia 28, segundo ele. Nela, Havanir chegou a comparar a eleição a um “sorteio de loteria” e afirmou que outro candidato, um vendedor ambulante, tinha feito uma proposta a ela. “Ele propôs um acordo à vista”, disse Havanir a Leite. Segundo sua fala na gravação, o ambulante teria oferecido “R$ 3 mil em notas de R$ 10” para poder concorrer.
“Resolvi não aceitar a exigência e não concorrer”, disse o microempresário.
Na tarde de ontem, ele, que é especializado na produção de lápides para túmulos, se dizia assustado com a repercussão do caso. “Só falta sobrar para mim.”
Outro candidato a deputado pelo Prona, Agenor Pinto Araújo, disse que também lhe foi pedida uma “contribuição” para disputar. Ele contou que Havanir lhe teria solicitado R$ 5 mil, em troca de 500 cartilhas assinadas por Enéas intituladas O Brasil em perigo. “A informação da doutora Havanir era que tinha que comprar”, disse.
Segundo uma secretária que atendeu o telefone na sede do Prona, o deputado federal eleito Irapuan Teixeira, que conseguiu uma cadeira na Câmara com 666 votos, por causa dos cerca de 1,5 milhões de votos de Enéas, poderia comentar o caso. “As denúncias são contra ela, meu nome não está nisso”, disse ele ao JT, ao ser procurado.
O especialista em Direito Eleitoral da OAB Luciano Pereira Santos explicou que não há nenhuma penalidade, nem na lei eleitoral nem na lei dos partidos, para venda de legenda. “Mas configura uma conduta que não é ética, não é moral.”
Fonte: Jornal da tarde



