29/10/2002 15h49 – Atualizado em 29/10/2002 15h49
WASHINGTON – Além de lutarem pela vida, os bebês prematuros – sem o saber – lutam contra uma doença ocular que acaba por cegar cerca de duas mil crianças por ano.
Agora, cientistas norte-americanos estão explorando duas novas e promissoras formas de salvar a visão dos prematuros: mantendo seus níveis de oxigênio constantes, mas ligeiramente mais baixos do que o normal, e dando aos bebês menores um hormônio de crescimento que lhes falta e que é importante para os olhos.
Prevenir a doença que causa a cegueira – chamada de retinopatia da prematuridade – é importante, já que, uma vez instalada, não há certeza de que a visão possa ser salva.
Atualmente, o melhor tratamento, a terapia com laser, reduz as chances de cegueira a apenas um quarto.
Mesmo assim, muitos dos bebês que não ficam cegos nunca conseguirão enxergar bem o suficiente na vida adulta para atividades como, por exemplo, dirigir.
Casos tendem a aumentar
Quanto menor o prematuro, maior o risco de contrair a retinopatia da prematuridade.
Então, com os médicos salvando mais e mais dos 40 mil bebês que nascem a cada ano com menos de 1,3 quilo, as novas formas de combater a doença são cruciais.
“É muito devastador”, diz a Dra. Lois Smith, da Escola de Medicina da Universidade de Harvard, sobre os prematuros que sobrevivem, mas perdem a visão.
A Dra. Smith, que descobriu a ligação entre a doença e o hormônio do crescimento, chama o tratamento atual contra a retinopatia da prematuridade de “medieval”.
Vasos não desenvolvidos
Bebês muito prematuros não possuem vasos sangüíneos adequadamente formados na retina – a camada mais interna do globo ocular.
A súbita exposição ao oxigênio, quando os médicos tentam salvá-los, é considerada uma possível causa da interrupção da formação dos futuros vasos.
Esses, então, enviam um “pedido de socorro”, que resulta no súbito e anormal crescimento dos vasos sangüíneos, que causam cicatrizes na retina, bloqueando a visão.
Para interromper esse crescimento anormal, os médicos usam um laser que destrói a parte da retina que envia o “pedido de socorro”. Isso destrói também parte do tecido ocular, na tentativa de salvar o restante, mas não pode restaurar a visão perdida.
Prevenir a retinopatia da prematuridade seria muito melhor. Nos anos 1950, os médicos tentaram drasticamente reduzir os níveis de oxigênio dos prematuros.
Mas os índices de morte e de danos cerebrais aumentaram, e os hospitais, hoje em dia, adotam níveis moderados de oxigênio, na esperança de obter os melhores resultados.
Duas possíveis soluções
O Centro Médico Cedars-Sinai, em Los Angeles, estabeleceu para os prematuros níveis de oxigênio cerca de 10 por cento mais baixos do que o normal para uma pessoa saudável, com base em pesquisas que mostraram que a pressão do oxigênio no útero materno é baixa, segundo o Dr. Kenneth Wright, que desenvolveu a política.
A incidência de retinopatia severa da prematuridade no hospital caiu de 12,5 por cento em 1997 – maior do que a média nacional, de 9,8 por cento – para apenas 3,7 por cento no ano passado, sem prejudicar a sobrevivência ou aumentar os índices de danos cerebrais.
O Dr. Wright ainda não pôde recomendar a prática para todos os hospitais, por uma razão: ele não deu nenhum padrão de cuidado com prematuros como comparação para provar que a mudança dos níveis de oxigênio realmente mudou o quadro da doença.
Ampliar as pesquisas
O Dr. Wright está agora discutindo com o Instituto Nacional de Saúde um estudo em vários hospitais para provar suas descobertas.
Mas, se os níveis de oxigênio ajudam a regular uma proteína chamada VEGF, que é importante no crescimento dos vasos sangüíneos, a Dra. Lois Smith, de Harvard, descobriu que um outro hormônio do crescimento chamado IGF-1 também é crucial.
Os fetos normalmente absorvem o IGF-1 da placenta e do líquido amniótico. Ao limitar os níveis de IGF-1 em bebês ratos, eles desenvolveram a retinopatia da prematuridade.
A Dra. Smith então examinou 80 prematuros humanos e descobriu que aqueles com a doença tinham os níveis mais baixos de IGF-1.
No ano que vem, ela espera começar os testes para determinar se doses de IGF-1 logo após o nascimento podem proteger os prematuros.
Conselho aos pais
As duas experiências estão provocando uma cautelosa excitação.
O Dr. John Penn, da Universidade de Vanderbilt, diz que o trabalho do Dr. Wright apóia sua própria pesquisa que mostra que é vital manter estáveis os níveis de oxigênio.
Ele considera intrigante o trabalho da Dra. Smith, destacando que, como o IGF-1 é uma proteína produzida pelo organismo, e não uma substância sintética, seria suficientemente seguro testá-la em prematuros.
Por enquanto, há poucos conselhos a oferecer aos ansiosos pais, exceto que eles devem se assegurar de que seus bebês sejam tratados em unidades neonatais de terapia intensiva e de que façam os exames para detectar a doença ocular de quatro a seis semanas após o nascimento, segundo o Dr. Wright.
Mas ele diz que não custa nada perguntar sobre a doença e sobre a monitor.
Fonte: CNN






