18/05/2018 11h26
O movimento contra os manicômios definiu a data de 18 de maio para lembrar os horrores de uma realidade não tão distante – a das torturas e tratamentos psiquiátricos degradantes
Gisele Berto
As ações de rotina da equipe do Centro de Atenção Psicossocial – CAPS II, coordenada pela psicóloga Patrícia Azambuja Alvarenga, tiveram um foco diferenciado, nesta sexta-feira, 18 de maio.
Para a equipe e para todas as pessoas e suas respectivas famílias, atendidas nessa unidade da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Três Lagoas, o dia 18 de maio, assim como ocorre em todo o País, é comemorado o Dia Nacional da Luta Antimanicomial.
Esse movimento, iniciado em 1987, se caracteriza pela defesa dos direitos das pessoas com sofrimento mental. Entre as principais ações de atenção psicossocial, levando em consideração a dignidade da pessoa humana, está o combate à ideia de que se deve isolar as pessoas com algum tipo de doença mental, como observou a enfermeira Patrícia.
Para isso, a equipe do CAPS – II partilha do mesmo princípio adotado e defendido pelo Movimento de Luta Antimanicomial, que diz: “Trancar Não É Tratar”. Por essa razão, o Movimento “faz lembrar que, como todo cidadão, estas pessoas têm o direito fundamental à liberdade, o direito a viver em sociedade, além do direto a receber cuidado e tratamento sem que para isto tenham que abrir mão de seu lugar de cidadãos”.
Para marcar a data, a equipe do CAPS – II recebeu os pacientes de forma alegre e colorida, com café da manhã especial e com todo o ambiente decorado.
Na oportunidade, a equipe do CAPS – II recebeu também a visita dos autores do livro “O Capa-Branca”, Daniel Navarro Sonim e Walter Farias.
No livro “O Capa-Branca”, o jornalista Daniel Navarro Sonim reuniu, a partir de manuscritos e entrevistas, as experiências de vida de Walter Farias, ex-funcionário que se transformou em paciente do Complexo Psiquiátrico do Juquery, na cidade de Franco da Rocha, região metropolitana de SP. O Juquery chegou a ter mais de 18 mil internados. Um pavilhão para menores foi inaugurado em 1922 e em 1957, do total de doentes 3.520 eram crianças.
Juquery e outras casas dos horrores da saúde mental no Brasil
A história do Asilo de Alienados mais famoso do Brasil começou em 1895 – dirigido pelo psiquiatra paulista Francisco Franco da Rocha, com projeto arquitetônico assinado por Ramos de Azevedo – e em 1929 passa a denominar-se Hospital e Colônia de Juquery.
Na década de 1970, quando Walter Farias passou a ser paciente da instituição onde trabalhava, segundo dados oficiais, a população era de 18 mil pacientes, todos vivendo em condições comparáveis a um campo de concentração. Sem autonomia para cuidar-se e abandonados pelas famílias, eram submetidos a toda espécie de “tratamentos” horríveis e maus-tratos. Os altos índices de internos também se relacionavam ao aumento dos movimentos migratórios, desemprego e marginalidade.
“Só o fato de sair de lá e estar hoje vivendo em sociedade já é uma grande vitória”, comenta o ex-funcionário que viveu na pele o drama vivido pelos pacientes e moradores do hospital, em Franco da Rocha.
Os prédios do Juquery são tombados pelo Patrimônio Histórico. Um incêndio de grandes proporções destruiu boa parte da estrutura do setor administrativo em 2005. As seis horas de fogo destruíram o prédio de dois andares tombado pelo Condephaat, sua biblioteca (a mais completa em livros e periódicos de psiquiatria da metade do século XIX até metade do século XX) e 100 anos da memória do Hospital.
A área tombada não é mais ocupada. No grande terreno foram construídos um Hospital de especialidades, que também atende pacientes psiquiátricos – mas, agora, com muito mais dignidade.
BARBACENA
“Milhares de mulheres e homens sujos, de cabelos desgrenhados e corpos esquálidos cercaram os jornalistas. (…) Os homens vestiam uniformes esfarrapados, tinham as cabeças raspadas e pés descalços. Muitos, porém, estavam nus. Luiz Alfredo viu um deles se agachar e beber água do esgoto que jorrava sobre o pátio. Nas banheiras coletivas havia fezes e urina no lugar de água. Ainda no pátio, ele presenciou o momento em que carnes eram cortadas no chão. O cheiro era detestável, assim como o ambiente, pois os urubus espreitavam a todo instante”.
Este é um trecho de outro livro revelador da realidade do tratamento psiquiátrico no Brasil. Holocausto Brasileiro, lançado em 2013 pela jornalista Daniela Arbex, retrata a história de maus-tratos do Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais.
A história do Hospital Colônia de Barbacena, que funcionou até 1980, também pode ser vista no Museu da Loucura, construído no mesmo lugar que abrigou o hospital, na cidade mineira.








