23/10/2008 16h27 – Atualizado em 23/10/2008 16h27
Guimo Fowler*
A etiqueta vem da educação. Normalmente é do berço. Por isso o ditado que diz que para saber de onde você vem, o mais rápido é olhar teu uso dos talheres à mesa. E não estão nas mãos de muitos pela disparidade e do cuidado de quem as têm com medo de difundi-las e perder a exclusividade: “Sou exclusiva, viu? Olha como como!”
Revolta que se procure confundir etiqueta e educação com cultura como se esta fizesse parte daquelas. Elas fazem parte desta. Que é o que não é cultura?
O resgate dos valores de cada uma das etnias, regiões, crenças, costumes, que leva ao fim da busca que é a união, a unidade, o conglomerado de todas num vértice só, é a cultura.
Por isso o Brasil deve se conscientizar que sua miscigenação o faz um dos lugares onde se está mais próximo desses descobrimentos. Obvio seria repetir as distâncias entre norte, sul, leste e oeste porque companhia de aviação não está no papo. Junto das distâncias físicas estão as de costumes.
A produção cultural tem mudado um pouco nestes tempos informatizados.
Bolar a distribuição das barracas numa festa ao menor custo e com a maior praticidade e beleza sem usar o computador só vai dar em coisa velha ou em berimbau misturado a bandoneon.
Também existe quem confunde cultura com coisas velhas. Um leque de 1892 faz parte dela como o som eletrônico e o teatro de vanguarda. Use o ar condicionado e não se esqueça do cheirinho do abanador perfumado.
Fui torturado por um enfermeiro no Hospital, que não denunciei por eu ter estado quase em coma e perdido detalhes, na época em que estive internado por ter recebido, num outro hospital, uma injeção estranha que, em dois dias após que a encaixaram no meu braço, apareceu a Hepatite C de maneira galopante.
Devo agradecer ao grupo espírita Francisco Xavier pelo ano de cuidados que me outorgaram e que salvou minha vida.
O que tem de gente que não gostou… Alguns mudaram até de religião. Esperavam o fim e se depararam com o princípio.
Daquelas dúvidas quero lembrar como se tivesse sido uma alucinação produto do meu estado caótico. Agora, as mudanças físicas são difíceis de esquecer porque ficam encima o dia todo.
Relembro aquele ditado: para saber de onde alguém vem, o melhor é olhar o seu uso dos talheres à mesa. Se cultura é etiqueta, minha mão esquerda ficou de tal maneira que fiquei sem cultura, então. O enfermeiro de lá me tirou a cultura estragando os dois dedos que seguravam elegantemente o garfo com a esquerda.
Conto isto para dizer que, após ter passado esse baque e tendo recuperado o estado de consciência, sinto falta de produção cultural na cidade.
Só acho pedicura e manicure.
Vamos unir as forças sem preconceitos e esquecer-se do prêmio do segundo lugar que me deram quando ganhei o concurso municipal de fotografia.
E por unanimidade, viu? Quem ficou em segundo lugar deve ter aproveitado e levado um presente melhor. Teria levado eu. Como diz um argentino mui amigo: “O melhor presente soy yo”.
É que não agüentaram a gente ter publicado que a verba para a compra da lona de circo liberada pelo FIC (Fundo de Incentivo a Cultura do Governo do Estado) num mês de maio foi comprada no fevereiro seguinte com a desvalorização lógica e sem custear a viagem do autor do projeto para poder escolher com calma e classe. Resultado: o título da matéria: “Lona esfarrapada”.
Têm muito mais, mas os errinhos do passado já eram. Servem só para aprender.
Vamos nos tocar que as três lagoas vão ficar três montes de areia, como afirma o promotor da área, se não cuidarmos do belo onde nos toca viver e se não nos tocarmos também em respirar fundo todos ao mesmo tempo e soltar um forte hálito de atualidade no conceito de cultura, ao ver tanta gente chegando e a cidade se transformando numa city sem esquecer-se das coisas eladas ao tempo da chegada do trem e o que isso significou.
Temos que nos unir e tentar compreender todo ao mesmo tempo, desde tribos em ocas a executivo em apê sentado na sacada ligado ao seu note-book.
Há um vácuo tão imenso, herdado da época Issamica (ou insânica?) em que a assessoria de cultura tecia crochê na sala de imprensa por falta de interesse e de recursos, que provoca a existência hoje de um grupo ligado à jovem vereador re-eleito, decidido a criar um conselho independente de cultura.
Pode parecer demente ou de um “louco”, referindo-se a mim atual diretoria segunda feira passada, tentar unir coerentemente as partes, se a incompreensão, o desprezo e a ridicularização para com os que chegam com propostas jovens continuar, isso quando lhes sobra tempo de assistir novelas ou de aprender a levantar a taça flute de champagne extra-brut.
*Guillermo Fowler criador e produtor da Feira da Vila Madalena em São Paulo em 1980, foi manager de Hermeto Pascoal e primeiro promoter da nova música sul-mato-grossense (Almir Sater e os irmãos Espíndola) entre as centenas de eventos que realizou nos seus 32 anos de Brasil. Lançou, em 1996, a primeira revista genuinamente três-lagoense: Espalha Fatos. Hoje escreve um livro literário/jornalístico sobre o momento histórico que Três Lagoas vivencia.


