12/06/2008 08h07 – Atualizado em 12/06/2008 08h07
*Anecy de Fátima Faustino Almeida
O título sugere um enfoque no feminino, na feminilidade, com seus traços de sensibilidade, receptividade, cuidado, nutrição, afetividade, necessários para o equilíbrio e saúde física e emocional de homens e mulheres. Aliás, dependendo do desafio existencial que temos que enfrentar, ora precisamos ter a ousadia, a racionalidade, a decisão, a ação da masculinidade, ora a docilidade, a generosidade, a diplomacia verbal, a receptividade da feminilidade.
Lastimavelmente, já nos primeiros anos de vida os meninos são educados para se afastarem e rejeitarem tudo o que se associa ao universo feminino para se tornarem homens e terem sua masculinidade e virilidade aprovadas e valorizadas socialmente e, particularmente, por outros homens.
No início da infância, devem provar que não são mulheres e chegam a receber castigos físicos, humilhações e chacotas quando são flagrados brincando com meninas ou cuidando de bonecas e com isso deixam de aprender a cuidar de si mesmos e dos outros.
A construção social da masculinidade condiciona os homens a reprimirem sua afetividade, sentimentos e emoções, para que, movidos pela racionalidade, possam manter o controle e a dominação sobre os outros. A masculinidade condiciona os homens a anestesiarem suas sensações corporais, a concentrarem sua sexualidade nos genitais e preferirem toques corporais enérgicos, ao contrário das mulheres, que são estimuladas a sensibilidade, a afetividade e têm sua sexualidade espalhada por todo o corpo, preferindo toques suaves. Os homens respondem sexualmente mais aos estímulos visuais e ao toque direto nos genitais e as mulheres aos estímulos auditivos, por meio de mensagens românticas ao ouvido, e ao tato, com carícias suaves, por todo o corpo, que nunca deveriam começar pelos mamilos ou pelos genitais.
Na construção da identidade sexual, por terem sido ambos – homens e mulheres- educados por figuras femininas, o menino, para se identificar, aprende a se afastar delas, buscar independência e sofre com a ansiedade da fusão, da união que, na gestação , experimentaram com a mãe. Para tornarem-se homens, “precisam” rejeitar o estado de união com outro ser. A menina, para se identificar sexualmente, aprende a buscar a intimidade, a proximidade, a dependência e a união, a partir da figura feminina que a educa.
Disso decorre que, após um encontro amoroso extremamente satisfatório para o homem e a mulher, no momento seguinte – e para a tristeza e desespero da mulher -, o homem se afasta, dificulta a comunicação com ela e busca a companhia de outros homens para se livrar da sensação de fusão, da ansiedade da simbiose, que é reprovada pela masculinidade e virilidade. A mulher permanece e busca o homem para manter a sensação paradisíaca da simbiose, da fusão. O desejo masculino cresce com a ausência, na falta do objeto amoroso; o da mulher, com a proximidade, com o convívio.
Assim, ambos deverão se adaptar, cultivar e encontrar um equilíbrio da masculinidade e da feminilidade dentro de si próprios para obterem satisfação um com o outro, descondicionando suas necessidades e características opostas adquiridas desde a infância, descobrindo qual é o limite de tolerância para a ausência, para a falta de comunicação, para que não coloquem em risco a alegria, o prazer, o vínculo afetivo e o interesse sexual que desfrutam no relacionamento.
Muitas vezes, o homem deixa de desfrutar e se recusa a vivenciar momentos maravilhosos porque foram propostos pela mulher, porque se sente cobrado, porque percebe a proposta como uma cobrança, ou para mostrar que é ele quem manda , detém o poder, o domínio da relação.
É importante esclarecer: mulher não cobra a presença masculina (cobrança é cheque pré-datado, são parcelas de cartão de crédito, carnês de crediário); mulher deseja, tem desejos afetivos sexuais e um, em especial, de ser a eterna namorada e que lhe permitisse comemorar, todos os dias, o dia das namoradas.
**Anecy é psicóloga e professora da UFMS em Três Lagoas


