13/05/2008 07h17 – Atualizado em 13/05/2008 07h17
Paulo Henrique Alves Machado
Por: Paulo Henrique Alves Machado*
Lembro-me que, aos sete anos, eu detestava ter que ir ao banheiro da escola. O mau cheiro era percebido a muitos metros de distância. O interior do lugar era deprimente, com muitos aparelhos quebrados, vazamentos, bacias entupidas, detritos nas latrinas e uma mistura de água, urina e barro que recobria todo o piso do banheiro. Apesar da total falta de higiene, que não parecer ter mudado nos últimos trinta anos, não era exatamente o motivo da minha total aversão ao banheiro da escola.
Eu não era o único. Na verdade, tornara-se um problema social naquele lugar. Maria Dolores fez pipi pernas abaixo na sala de aula mesmo, após ter segurado o quanto pôde. Os garotos despachavam no tronco das árvores e sempre havia alguém que fazia seu cocô nas calças após um imenso suplício. O motivo de todo esse vexame, que para nós não era nada natural, era o banheiro da escola, ou melhor, algo que havia lá.
Corria o boato de que, naquele banheiro, muitas crianças viam uma mulher vestida de branco, como uma noiva, com as narinas todas entupidas de algodão; ela era pálida como uma defunta, mas parecia estar viva e surpreendia, vez por outra, um estudante. Era comum que crianças saíssem correndo desesperadas do banheiro, jurando tê-la visto.
Íamos ao banheiro aos pares, mas não era o suficiente para que superássemos o medo, pois aquilo era alimentado o tempo todo pelos professores, funcionários e alunos mais velhos. Se alguém estava se divertindo com aquela história, certamente não éramos nós. Estranhamente, o fenômeno ocorria tanto no banheiro dos meninos quanto o das meninas, já que, todos os dias, assistíamos a garotas que gritavam de desespero e, aos prantos, saiam correndo daquele lugar.
Lembro-me que minha bexiga já estava preste a estourar e ainda faltava muito tempo para o esperado “último sinal”. Maurício era um bom companheiro, já que sempre fazíamos nossos exercícios e brincávamos juntos no recreio. Cochichei:
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Maurício, tô com vontade de mijar!
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Fala pra Dona Fátima pra ela deixar você ir ao banheiro.
Eu não sabia o que era pior: sentir aquela dor, ir ao banheiro, ou ter que pedir para a Dona Fátima que era nossa professora. Ela era muito brava e sempre achava que a gente estava era querendo passear no corredor. E ela nunca acreditava em mim. Não sei porquê, se eu não me lembro de ter pedido para ir ao banheiro e ter ido fazer outra coisa. Acho que a professora não ia com a minha cara. Mas o Maurício era o xodó da professora que sempre atendia aos seus pedidos.
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Pede pra ela deixar a gente ir ao banheiro!
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Deixa eu terminar de copiar mais esse parágrafo.
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Cara, eu vou mijar nas calças!
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Dona Fátima, o Henrique tá precisando ir ao banheiro e está com vergonha de falar!
A professora olhou desconfiada para mim. Pensei que ela não fosse liberar, mas eu acho que já estava quase chorando.
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Vá, mas não demore!
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Posso ir com ele, Dona Fátima? Ele tem medo de ir ao banheiro!
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Pode sim, mas não vão ficar de brincadeira por esse corredor.
Não gostei daquela última argumentação do Maurício: “Ele tem medo de ir ao banheiro…” até parece que aquele cara não tinha medo de ir sozinho ao banheiro também.
Quando tomamos o corredor, a dor parece ter aliviado um pouco. Acho que era medo de chega ao banheiro. Puxei uma conversa sobre figurinhas e, como sempre, Maurício veio com aquela conversa fiada da figurinha rara que ele chegou a ter em suas mãos, mas que a havia dado a outro guri. Eu ficava fulo da vida: porque não a dera para mim? Lembro de ter reparado no teto da escola que parecia preste a cair. Não era só o banheiro que precisava urgentemente ser refeito, toda a escola parecia estar a um minuto da ruína. Imaginei que já era um prédio muito velho e que devia ter sido a escola de pessoas que já haviam morrido e talvez voltassem para revê-la. Senti mais medo ainda. Imaginei um mundo invisível paralelo ao meu, onde criaturas invisíveis transitavam por aqueles corredores fantasmagóricos. E se a moça do banheiro quisesse arrastar a gente para o outro lado da vida? Não podia nem pensar naquilo. Minhas pernas endureciam.
Naquele tempo, estava em cartaz o filmo “O exorcista” e minha prima, que já era de maior, fora assistir e contara-me tudo: o demônio tinha o poder de tomar o corpo das pessoas e transformá-las em monstros horrendos. A música “Don’t Cry for Me, Argentina” era, para mim, uma trilha sonora de terror. Não sei ao certo porque associei aquela música a Dama do Banheiro, mas a verdade é que, sempre que a ouvia, sentia um arrepio ruim e vontade de esconder-me embaixo de alguma coisa.
Quem conheceu o “Patronato Bom Jesus” de Três Lagoas sabe que bem ao lado do banheiro havia o “Cine Lapa”. Àquela hora da manhã não havia sessão, mas acho que estavam dando alguma manutenção no som. O fato é que, quando íamos entrar no banheiro, “Don’t Cry for Me, Argentina” começou a tocar em alto e bom som. Olhei para o Maurício e o vi amarelo, calado e sério. Nada cooperava para nos fazer deixar o medo, pois o encanamento velho do banheiro fazia um barulho pra lá de estranho e, naquele dia, parecia que estava pior. Meu colega disse que não entraria de jeito nenhum. Implorei pela sua ajuda e o pobre coitado entrou pra que eu não urinasse nas calças. Entramos naquele lugar inóspito, há tempos a última lâmpada queimara e o dia nublado e frio mergulhava o ambiente em quase trevas.
Dirigi-me ao urinol menor, destinado aos pequenos como eu, e desabotoando a braguilha fui logo despachando. Um segundo a mais e seria um vexame. Foi quando a porta de um dos boxes se abriu, num de repente, e algo vivo se movimentou. O susto cortou a urina e, sem por as vergonhas para dentro, saímos em disparada. Apavorado, meu companheiro escorregou naquele caldo e caiu sujando a roupa. Quando cheguei lá fora ouvi seu choro aos gritos e senti que infelizmente teria que voltar. Foi quando vi, no meio daquela escuridão, um moço muito grande e cabeludo ajudando-o a se levantar todo sujo e chorando. Era um aluno do ginásio que ria da desgraça do pobre garoto. Tive ódio dele, pois sabia que fizera tudo aquilo de propósito para nos assustar. Queria ter algum primo grande naquela escola só para pedir para lhe dar um corretivo, mas eu só tinha duas primas, que eram boas de briga também, apesar de não poderem com aquele grandalhão.
Depois disso o Maurício nunca mais foi o mesmo comigo. O incidente do banheiro o fez se afastar de mim. Coitado! Não gostaria de estar no lugar dele: todo melecado com aquela coisa que sempre me causou muito asco. E o medo da Dama do Banheiro continuou por muito tempo ainda. Certa noite, tive um sonho medonho com ela: no fundo daquele banheiro escuro, ela flutuava com sua camisola esvoaçante e cantava, com sua boca pálida de defunta, “don’t cry for me, Argentina…” suave como um soprano. Ao ver-me, sua cabeça deu uma volta inteira sobre o pescoço e a voz, outrora suave, tornou-se rouca e grossa, dizendo:
- Venha comigo, meu anjo! Meu senhor quer ver você!
Tive vontade de correr, mas minhas pernas não me obedeciam. Acordei com meu próprio grito e o meu pavor piorou ainda mais.
Na verdade, esse medo só desapareceu com o tempo, depois de ver que em toda escola havia aquela estória boba para meter medo nos pequenos. Mas ainda muito tempo depois, morando em uma casa cujo banheiro ficava do lado de fora, eu detestava acordar de noite e ter que atravessar a escuridão para ir até lá. Medo de reencontrar, talvez, uma velha conhecida.
- O autor nasceu em Três Lagoas – MS, onde estudou Letras (Português e Inglês). Hoje, Alves Machado vive em Cuiabá, onde atua como professor da Educação Básica (Professor concursado pela SEDUC – MT), tendo também atuado como professor substituto na UFMT e (na educação privada) no CSDB de Cuiabá.

