16/03/2008 17h46 – Atualizado em 16/03/2008 17h46
Globoesporte.com
Apesar de ser apontado como carrasco brasileiro na Copa do Mundo de 1998, o astro francês Zinedine Zidane não apenas vestiu a camisa verde-amarela em sua visita a São Paulo como declarou sua admiração ao país neste domingo. Humilde, o jogador diz que não se considera um dos melhores jogadores que o mundo já viu e rasga elogios ao fenômeno Ronaldo. Para Zizou, nenhum time de futebol supera a seleção brasileira.
Na entrevista coletiva, a assessoria de imprensa filtrou as perguntas ao ídolo. O assunto “cabeçada em Materazzi” havia sido vetado, mas um jornalista conseguiu questionar o francês sobre o lance. Zizou respondeu categoricamente:
- Faz parte da minha vida e eu assumo.
Leia abaixo a íntegra da entrevista coletiva:
Qual a sua impressão do Brasil e do povo brasileiro? Como foi sua recepção?
Estou feliz. É a minha primeira vez aqui e eu achei ótimo juntar o útil ao agradável nesta visita. Hoje eu pude relembrar um pouco da minha infância, porque eu também cresci em um ambiente difícil. Fico contente de estar aqui e saber que as pessoas me conhecem. É fantástico.
O que tem feito desde que parou de jogar?
Ah, muitas coisas, como essa viagem, por exemplo. Estou aprendendo o tempo livre para aprender coisas, porque quando eu jogava, eu viajava muito, mas só pensava no jogo, não dava para pensar em nada mais. Aqui eu estou em outra vida, muito interessante. Eu estou feliz.
Os jogadores criativos de meio-campo estão em extinção. Hoje, eles são fortes e menos geniais. Quem são os atletas da atualidade que você admira?
Bom, é interessante isso porque hoje em dia a técnica não é mais importante. O que realmente interessa é se o jogador está fisicamente bem preparado. Nós vemos que há jogos a cada três dias, porque são muitas competições. Por isso, os jogadores criativos e de talento são cada vez menos vistos. Os camisas 10 estão em extinção. Antes, havia um verdadeiro 10. Em relação aos jogadores de hoje, existem bons mas eu não vou dar a lista.
Quem foi melhor: Pelé, Maradona ou Zidane?
Os dois melhores do mundo foram Pelé e Maradona, mas permita-me colocar um outro nome aí: o Di Stefano. Tem ainda muitos outros. Mas alguns gostam do Zidane. Mas eu mantenho a ordem que eu falei.
Você foi um dos maiores da história. Você vê algum jogador de hoje com potencial de chegar onde você chegou?
Eu sou muito orgulhoso da minha carreira, porque eu saí de baixo e de um lugar difícil. E, sim… Eu vejo bons jovens começando bem e que terão um futuro brilhante no campo.
Os gols que você marcou contra o Brasil tiveram um sabor especial?
Jogar contra o Brasil sempre é especial. É a maior e mais bela nação do futebol. Usamos o Brasil como referência, para nos nivelar. Foram gols importantes e eu tenho grandes lembranças de 98 e 2006. Sempre temos orgulho de enfrentar o Brasil, que continua sendo penta e a maior nação do futebol.
O episódio da final contra a Itália foi superado?
Faz parte da minha vida. Eu assumo e pronto.
Quando que os trabalhos sociais entraram na sua vida?
Eu acho que quando a gente chega de um lugar desfavorecido, é facilmente tocado. Em um certo momento você quer devolver o que recebeu da vida. Eusou embaixador de muitas coisas e me agrada muito, porque eu penso que estou servindo para alguma coisa. Eu faço isso naturalmente, como foi hoje.
Como é a sua relação com o futsal? O que falta para ser olímpico?
Não sei o que falta, mas ele agrada muita gente pelo jeito, né? Na França é menos popular, mas eu iniciei no futsal porque não havia campo. Comecei com os amigos brincando dentro de um ginásio, e foi aí que eu aprendi a técnica, porque é um bom meio de aprender. Hoje eu tenho um bom relacionamento com o futsal, porque agora que parei, prefiro os campos menores. Assim eu não me machuco… (risos)
Você foi chamado de gênio. Acha que tem a mesma importância que Pelé, Maradona, Platini?
Não, eu prefiro dizer de maneira clara, de uma vez por todas, que eu não me considero como eles. Eu nunca me considerei melhor, sou feliz com minha carreira e por ter recebido a bola de ouro e o premio Fifa, porque comprova que minha carreira foi reconhecida. E parem de perguntar isso pelo amor de Deus…
Você tem planos de voltar a jogar, talvez nos EUA, como David Beckham?
Eu recebi propostas para jogar nos Estados Unidos, mas não aconteceu. É tarde para isso também, faz dois anos que eu parei. Estou com a cabeça em outro lugar.
Pensa em trabalhar no Real?
Poderia ser uma possibilidade, sim, porque estou vivendo em Madri agora. Falamos sobre isso já, mas as coisas que tenho feito no dia a dia, não me permitem ser do Real. Quem sabe no futuro? Minha vontade é fazer alguma coisa boa pelo futebol, mas não como treinador.
Você acabou com o Brasil em duas Copas e mesmo assim é recebido como herói aqui. Você acha estranho? O que você sente?
Eu me considero um de vocês, sim senhor… se vocês acham que não, lamento, mas para mim o Brasil é um exemplo. Dizem que o futebol foi criado na Inglaterra. Se foi mesmo, os brasileiros reinventaram. Eu espero que não me considerem como alguém que fez mal ao Brasil, porque jogo é jogo.
Que time de futebol te faz parar para assistir a uma partida?
Eu vou dizer a verdade ou não? (risos) Bom, eu acho que Arsenal e Manchester estão sobressaindo.
O que você espera da Eurocopa? A ausência do Trezeguet diminui as chances da França?
Citar equipes eu não posso, porque é complicado apontar as equipes favoritas, mas a França tem chances de chegar a final. O fato do Trezeguet não estar com certeza é inquietante, triste para ele, menos para o treinador, porque ele decidiu por outra coisa. Mas de todo jeito vou torcer pela França.
Na sua opinião, onde está o futuro do futebol?
Eu acho que teremos surpresas por parte da África. Vejo equipes africanas chagarem um pouco mais longe em 2014.
Pretende assistir a Copa no Brasil em 2014?
Claro que sim, com muito prazer! Estou feliz de estar aqui. A Copa no Brasil vai diminuir as chances das outras equipes, mas o futebol é assim.
Você participou do filme Asterix e os Jogos Olímpicos. Pretende ser ator e continuar no cinema?
(risos) Não, nada disso! Eu entrei nesse filme porque falava de Olimpíada, mas eu só apareço nele, achei que era interessante e foi engraçado. Mas fiquem tranquilos porque será a primeira e última vez… Ninguém me verá no cinema outra vez.
Você acha que o Ronaldo pode se recuperar?
Tem muita gente que diz que será difícil. Sim, será com certeza, porque ele tem 31 anos hoje. Mas eu acredito nele, e eu quero, assim como muitas pessoas que gostam do futebol, rever Ronaldo no campo. Ele já passou por isso quando tinha 26 e conseguiu, retornou e ganhou a Copa de 2002. Eu acho que ele ainda pode e espero que ele consiga, com um verdadeiro fenômeno deve fazer. Porque para mim, ele sempre foi e será o número 1 do mundo…




