19/01/2008 10h35 – Atualizado em 19/01/2008 10h35
Galvão* “Campo Grande é brasileira, com a polca faz fronteira dentro do meu coração”. Assim começa minha música “Campo Grande”, uma canção de amor à cidade. Provavelmente, você não a conheça, mas é muito bonita. Quem falou foi minha mãe! E as mães não mentem!(risos) Campo Grande não é uma cidade turística, no máximo uma rota de passagem pra Bonito, pro Pantanal, etc, embora nos tentam convencer do contrário, fazendo-se uma tremenda confusão entre o Estado de Mato Grosso do Sul, como um todo que tem um potencial turístico fantástico. Só que esta visão equivoca, é tanto quanto perigoso, porque gera políticas públicas inadequadas. Aqui não tem mar, praias, rios, balneários, zoológicos, botânicos, indústrias etc, nada, digamos assim, que prenda as pessoas à terra. O que Campo Grande tem de bom é seu povo. Aqui mora Manoel de Barros, o maior poeta vivo da humanidade. O ponto turístico, efetivamente, da cidade é seu o povo. Pelo seu clima tropical e o solo avermelhado, foi apelidada de Cidade Morena, num passado, longínquo, onde se precisava de epítetos. Mas se há esse chão barroso, eu nunca vi, talvez debaixo desse asfalto de cidade moderna. Não, Cidade Morena, não quer dizer muita coisa pra mim! Mas se disser que aqui é a cidade dos amigos, ah, sim, isso sim, me emociona profundamente. Há quinze anos moro aqui e como a maioria, somos estrangeiros(“Eu que também fui estrangeiro, viajei o mundo inteiro, vim beijar esta nação”… outro trecho da canção citada). E a melhor coisa boa que eu tenho, são os amigos. Meus amigos moram aqui. Fiz uma pesquisa, particular, empírica, entre algumas boas almas: Do que você mais gosta de Campo Grande? A maioria das respostas foi nesta direção: os amigos, as pessoas, às vezes o clima também é citado. Porém, ninguém me falou do Parque dos Poderes, da Morada dos Baís, nem do Parque das Nações Indígenas, do horto florestal, do Relógio da Quatorze, do obelisco. Aliás, os jovens inventaram um local inédito de turismo, reunindo-se à noitinha nos postos de gasolina, como se fosse uma praia virtual. É a praia deles. Também aos domingos as pessoas param seus carros na frente do aeroporto pra ver os aviões aterrissarem. Isso não é coisa de doido, não, mas é como que se suprissem assim a falta um rio, por exemplo. O saudoso poeta Júlio Guimarães uma vez me disse que “… quando na década de 30, vindo da Bahia, cheguei na estação ferroviária e pus os meus pés em Campo Grande, nunca mais voltei…” Esta imagem ficou na minha cabeça por muito tempo até eu pari-la na mesma citada canção: “Na estação ferroviária, a lembrança de quem veio e não parte mais daqui”. Falando desnudadamente isso pra vocês neste artigo, confesso que eu fico meio(muito) choroso. Triste porque alguns amigos estão deixando a cidade por falta de oportunidade. Daqui a pouco vou precisar ir também, e não é nem por falta de adeus!(risos). É por isso que eu escrevo isso como um apelo, é preciso investir no que há de melhor nessa terra, nas pessoas. Penso que cultura, arte, é o modo mais direto e interessante de investimento no cidadão. Quanto artesões temos nesta cidade, músicos, teatrólogos, autores, poetas, palhaços, pintores, enfim artistas que o estado poderia incentivar, criando empregos, gerando renda? Somos uma cidade ainda muito nova, e precisamos urgentemente de um projeto cultural. Incentivos à cultura ainda é não é tratado como um interesse primordial, necessário. Há quanto tempo não temos em Campo Grande um Festival de Música, pra descoberta de novos compositores? Nesse rumo a conversa não chega ao fim. Em tempo; a única coisa que estraga a cidade são os colunistas sociais (mais risos!). Como se vê nem tudo são araras azuis! Quero finalizar este papo, como finaliza minha canção “Campo Grande’: “…em meio a tanta formosura, isto aqui ainda há de ser um celeiro de fartura, pra gente ser feliz!”




