A escalada de ocorrências envolvendo pessoas em situação de rua em Três Lagoas deixou de ser um alerta isolado para se tornar um retrato cruel de omissão do poder público. A cada novo episódio de violência, ameaça ou tumulto em espaços públicos, cresce entre moradores a sensação de vulnerabilidade, medo e abandono. Enquanto isso, as respostas das autoridades seguem pontuais, reativas e insuficientes diante de uma crise social que se agrava dia após dia.

REGISTRO DE VIOLÊNCIA
Os fatos são contundentes. Casos de extrema violência, como o espancamento até a morte de um homem em situação de rua no Bairro Paranapungá, em agosto de 2025, expõem não apenas a brutalidade do crime, mas o colapso de políticas públicas capazes de prevenir tragédias anunciadas. O homicídio, marcado por requintes de crueldade, ocorreu após um suposto furto atribuído à vítima — um desfecho que escancara como a ausência do Estado empurra conflitos sociais para a barbárie.
Outros episódios reforçam o cenário de descontrole. A repetição de ocorrências envolvendo ameaças, agressões, resistência à prisão e crimes graves, incluindo latrocínio, revela um padrão que não pode mais ser tratado como exceção. O início de 2026, com a prisão de um homem acusado de tentar agarrar uma criança em um parque público, evidencia que a situação não apenas persiste, como se agrava.
REFORMA INTERMINÁVEL
A região da rodoviária, em reforma interminável desde 2024, tornou-se símbolo desse abandono. Área de grande circulação, cartão de visitas do município, transformou-se em ponto crítico de concentração de pessoas em situação de rua, sem acompanhamento social contínuo e sem ações preventivas constantes.

Comerciantes, moradores e visitantes relatam insegurança constante, enquanto o poder público parece assistir à degradação do espaço urbano sem apresentar soluções concretas.
REFÉNS DO MEDO
No Bairro Paranapungá, o sentimento é ainda mais duro: moradores se dizem reféns do medo. Relatos de furtos, ameaças, conflitos e uso de drogas em vias públicas se multiplicam. A convivência cotidiana tornou-se tensa, e a paciência da população se esgota diante da ausência de medidas efetivas que protejam tanto quem vive no bairro quanto quem vive nas ruas.
As poucas ações estruturadas, como a retirada de um morador em situação de rua para tratamento especializado em dezembro, são exceções que apenas reforçam a regra da descontinuidade. Falta política pública permanente. Falta acompanhamento. Falta planejamento. Falta coragem política para enfrentar um problema complexo que não se resolve com viaturas, prisões temporárias ou ações isoladas para “apagar incêndios”.

CADÊ AS AUTORIDADES?
A cobrança da sociedade é direta e legítima: onde estão os centros de acolhimento funcionando de forma adequada? Onde estão os programas contínuos de saúde mental e tratamento da dependência química? Onde estão as políticas de reinserção social? Onde estão o Ministério Público, o Judiciário, a Prefeitura e a Câmara Municipal atuando de forma integrada e preventiva?
A crise em Três Lagoas não é apenas de segurança pública. É uma crise social profunda, alimentada pela inércia institucional. Enquanto as autoridades seguem sem respostas estruturantes, moradores continuam vivendo sob medo e pessoas em situação de rua seguem expostas à violência, à marginalização e à morte. A cada nova ocorrência, a pergunta se repete — e a resposta continua sendo o silêncio.


