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sexta-feira, 20 de março de 2026

Tecnologia social na comunidade da Mangueira evita poluição de mais de 150 milhões de litros de água e aponta caminhos para um futuro mais sustentável

No Dia Mundial da Água, iniciativa comunitária mostra como soluções locais contribuem para os desafios globais

No próximo dia 22 de março, quando se celebra o Dia Mundial da Água, uma experiência desenvolvida na comunidade da Mangueira, no Rio de Janeiro, se destaca como um exemplo concreto de como as ações locais podem contribuir para a construção de um mundo mais sustentável. A tecnologia social do projeto Omìayê, do Instituto Singular Ideias Inovadoras, já evitou a poluição de até 156 milhões de litros de água e tratou mais de 225 milhões de litros, a partir de soluções de biorremediação, com sabões, pastilhas e detergentes, que integram conhecimento científico e força de trabalho feminina local para transformação do meio ambiente.

Em um cenário global marcado pela escassez de recursos hídricos e pelos impactos das mudanças climáticas, iniciativas enraizadas nos territórios demonstram que a transformação também se constrói a partir do cotidiano. Na Mangueira, o enfrentamento de desafios históricos relacionados ao saneamento básico tem gerado resultados mensuráveis, com impacto direto na qualidade da água e na saúde ambiental.

A Omìayê atua no reaproveitamento de óleo de cozinha usado e no tratamento de efluentes com o uso de microrganismos. O projeto transforma resíduos que seriam descartados de forma inadequada em produtos de limpeza ecológicos, como sabão e detergente, reduzindo significativamente a poluição hídrica. Um único litro de óleo pode contaminar milhares de litros de água, mas, na Mangueira, esse resíduo é o combustível de uma economia circular. 

“O Omiayê nasceu de uma constatação difícil de ignorar. Na Mangueira, três milhões de litros de esgoto são despejados diariamente sem qualquer tratamento, e o óleo de cozinha descartado nas pias agrava esse cenário de forma silenciosa. Tendo isso em vista, desenvolvemos uma tecnologia social que transforma o próprio resíduo em instrumento de tratamento da água, por meio de bioprodutos que carregam microrganismos capazes de realizar a biorremediação dos efluentes. Os 156 milhões de litros de água preservados até aqui demonstram que soluções construídas dentro das comunidades, com base científica e protagonismo das pessoas que vivem o problema, podem gerar resultados concretos perante desafios que historicamente foram negligenciados pelo poder público”, afirmou Gabriel Pizoeiro, diretor do Instituto Singular Ideias Inovadoras.

Ao coletar mais de 6.250 litros de óleo usado, o projeto evitou a poluição de aproximadamente 156 milhões de litros de água — volume que equivale a 62 piscinas olímpicas. O material coletado é processado em uma ecofábrica local, operada por mulheres da comunidade, que, ao transformar o poluente em produtos de limpeza ecológicos, evita que esse impacto se multiplique, protegendo redes de esgoto, rios e o abastecimento urbano.

Um dos processos centrais da iniciativa é a produção de sabão ecológico a partir do óleo de cozinha reutilizado. Esse sabão evita que o resíduo seja descartado na rede de esgoto e contribui para a limpeza, ao atuar na remoção de impurezas sem gerar carga poluente adicional. Produzido pelas próprias moradoras da comunidade, o sabão é distribuído gratuitamente para famílias da Mangueira, ampliando o acesso a produtos de higiene e fortalecendo práticas sustentáveis no dia a dia. Ao mesmo tempo em que limpa e reduz o impacto ambiental, a ecofábrica local gera emprego para mães e moradoras da comunidade.

“Quando a gente fala que transforma óleo usado em sabão, as pessoas acham simples. Mas o que acontece aqui dentro é maior do que isso. A gente cuida da água que corre debaixo das nossas casas, gera renda para as nossas famílias e mostra que mulher de favela produz ciência. Cada barra de sabão que sai daqui carrega um pedaço da Mangueira e prova que a solução pode vir de quem conhece o problema de perto”, pontuou Daniele Chaves de Oliveira, funcionária da Ecofábrica Omìayê.

Outro eixo central é o uso de microrganismos no tratamento de esgoto doméstico, uma solução encontrada em parceria com a Universidade Federal Fluminense (UFF), que tem baixo custo, fácil replicação e ajuda na eliminação dos odores da água. Essa abordagem evidencia o potencial das tecnologias de biorremediação como aliadas na ampliação do acesso ao saneamento, especialmente em áreas urbanas densas e historicamente negligenciadas.

Alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, a iniciativa dialoga diretamente com o ODS 6, ao promover água limpa e saneamento; com o ODS 3, ao impactar a saúde da população; com o ODS 11, ao fortalecer comunidades sustentáveis; e com o ODS 13, ao contribuir para ações de enfrentamento às mudanças climáticas.

Mais do que uma solução técnica, a experiência da Mangueira revela como o fortalecimento das comunidades, aliado à inovação social, pode gerar respostas concretas para desafios globais. Ao integrar ciência, educação ambiental e participação coletiva, o projeto mostra que a sustentabilidade não é apenas uma meta internacional, mas um processo que se constrói a partir de iniciativas locais, com impacto real e transformador.

No contexto do Dia Mundial da Água, a Omìayê reafirma que proteger os recursos hídricos passa por reconhecer, apoiar e ampliar soluções que nascem nos territórios. Um exemplo que emerge da Mangueira, mas que aponta caminhos possíveis para cidades em todo o mundo.

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