Mesmo com cura e tratamento gratuito pelo SUS, a hanseníase ainda registra milhares de novos casos por ano no Brasil e segue como um problema de saúde pública, sobretudo nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste
Causada pela bactéria Mycobacterium leprae, a doença atinge principalmente a pele e os nervos periféricos. Quando não é identificada precocemente, pode evoluir para perda de sensibilidade, fraqueza muscular e incapacidades físicas permanentes.
O Brasil continua entre os países com maior número de casos no mundo, cenário que especialistas associam não apenas à transmissão da doença, mas também ao diagnóstico tardio e ao estigma que ainda cerca a hanseníase.
Para o dermatologista Dr. Matheus Rocha, a desinformação continua sendo um dos principais obstáculos para interromper esse ciclo.
“A hanseníase tem cura e o tratamento está disponível gratuitamente no SUS. O problema é que muitos pacientes chegam aos serviços de saúde quando a doença já provocou danos neurológicos que poderiam ter sido evitados”, afirma.
Casos no país
A hanseníase tem maior incidência em áreas marcadas por vulnerabilidade social, barreiras de acesso à saúde e dificuldade de diagnóstico. Estados das regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste concentram parte importante das notificações, com destaque para Mato Grosso, Pará, Maranhão, Tocantins e Goiás.
Segundo Rocha, a transmissão ocorre principalmente pelas vias respiratórias, em situações de contato próximo e prolongado com pessoas infectadas que ainda não iniciaram tratamento.
“A transmissão ocorre principalmente pelas vias respiratórias, em contatos próximos e prolongados. Mas é importante destacar que a maioria das pessoas possui defesa natural contra a bactéria e nunca desenvolverá a doença”, explica.
Sinais ignorados
Um dos entraves para o controle da doença é que os sintomas iniciais costumam ser pouco valorizados. As primeiras manifestações geralmente aparecem como manchas na pele com alteração de sensibilidade, que podem ser esbranquiçadas, avermelhadas ou acastanhadas.
Como essas lesões muitas vezes não provocam dor nem coceira, é comum que sejam confundidas com alterações dermatológicas mais simples. Também podem surgir dormência ou formigamento em mãos e pés, sensação de choque em braços e pernas, perda de força nas mãos, redução da sensibilidade ao calor ou à dor, além de ressecamento da pele e diminuição de pelos nas áreas afetadas.
“A perda de sensibilidade é um sinal muito importante. Quando uma pessoa tem uma mancha na pele e percebe que ali não sente calor ou dor da mesma forma, isso deve ser investigado”, alerta o dermatologista.
Evolução e tratamento
A evolução da hanseníase costuma ser lenta. Entre o contágio e o aparecimento dos primeiros sinais, podem se passar meses ou até anos, o que contribui para o atraso no diagnóstico.
Sem tratamento, a inflamação dos nervos pode provocar fraqueza muscular, deformidades em mãos e pés e lesões crônicas em áreas que perderam sensibilidade. Segundo Rocha, boa parte dessas complicações pode ser evitada quando a doença é identificada cedo.
“Quando diagnosticada cedo, a hanseníase tem tratamento simples e grande chance de evitar sequelas. O desafio é reconhecer os sinais antes que ocorra dano permanente aos nervos”.
O tratamento é feito com poliquimioterapia, combinação de antibióticos fornecida gratuitamente pelo SUS. A duração varia conforme a forma clínica da doença: em quadros mais leves, costuma durar cerca de seis meses; nos casos mais extensos, pode se estender por 12 meses ou mais.

Logo após o início da medicação, o paciente deixa de transmitir a doença, o que torna o diagnóstico precoce ainda mais relevante do ponto de vista individual e coletivo.
“Isso mostra que o diagnóstico e o início rápido do tratamento são essenciais não apenas para o paciente, mas também para interromper a cadeia de transmissão”, afirma Rocha.
Além do desafio clínico, a hanseníase ainda enfrenta uma barreira social importante. O histórico de preconceito em torno da doença faz com que muitos pacientes demorem a procurar ajuda, o que favorece o agravamento do quadro.
Para o especialista, ampliar a informação e reduzir o medo em torno do diagnóstico é parte fundamental do enfrentamento da doença.
“Hoje sabemos que a hanseníase tem tratamento eficaz e cura. O maior inimigo ainda é o desconhecimento”, diz o dermatologista.
Campanhas de orientação e busca ativa de casos seguem entre as principais estratégias para reduzir a incidência da doença e evitar sequelas associadas ao diagnóstico tardio. Para Rocha, observar alterações na pele e procurar avaliação médica ao menor sinal de dúvida ainda é a melhor forma de prevenir complicações.
“Quanto mais cedo a doença é identificada, maiores são as chances de tratamento simples e recuperação completa”.
Sobre o Dr. Matheus Rocha
Dermatologista com atuação em cirurgia dermatológica e tratamento do câncer de pele. Dedica sua prática clínica ao diagnóstico precoce, planejamento cirúrgico e manejo de tumores cutâneos, com foco em dermato-oncologia. Além do atendimento a pacientes, atua na formação de médicos e cirurgiões dermatológicos, contribuindo para a ampliação do diagnóstico adequado da doença. Parte de sua atuação inclui atendimento gratuito a pessoas com câncer de pele que não possuem condições financeiras ou que não conseguem aguardar a fila do sistema público de saúde.

